História da América 1 Cederj
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guerreiros em combate era necessária e 
valiosa, pois alimentava a reserva de energia solar. Assim, a guerra 
constante, que gerava a expansão política e a tributação a partir de 
Tenochtitlán, teria uma utilidade para a coletividade. Dessa forma, 
a morte em combate seria honrosa e, ao mesmo tempo, era tida 
como vital para a coletividade e legitimadora da expansão.
Miguel León-Portilla, em um artigo dos anos 1980, buscou 
igualmente explicar o expansionismo mexica através de argumentos 
socioculturais. Portilla recusava as hipóteses defendidas pelos autores 
marxistas nos anos 1970, sobretudo aquelas que lidavam com a 
noção de hipótese causal hidráulica para explicar a formação e 
expansão do Estado mexica. Para Portilla, a elite mexica investiu na 
formação de uma imagem que confi rmava seu suposto papel central 
na manutenção do universo. O grupo dominante preocupava-se, 
portanto, com a organização do culto aos deuses, com os sacrifícios 
humanos e com as guerras constantes para impor o domínio 
mexica e, assim, garantir a manutenção do mundo em que viviam. 
Em sua interpretação, Portilla destacou o papel dos pipiltin na 
elaboração de discursos que justifi cavam a pretensa missão mexica de 
governar outros povos. Como adverte Portilla, a educação recebida em 
casa e nos calmecac (escolas frequentadas por jovens da elite), bem 
como a experiência obtida como membros de um grupo dominante, 
estimulava nos pipiltin um senso de comunidade e de dignidade que 
justifi cava seu domínio sobre comunidades inteiras.
O historiador francês Serge Gruzinski, em um livro originalmente 
publicado em 1988, nos advertiu que o imenso e violento processo 
de hispanização liderado pelos europeus na América criou uma 
A ideia de hipótese 
causal hidráulica 
esteve presente em 
alguns trabalhos 
sobre a história das 
sociedades nativas 
da América antes da 
conquista. Tal noção, 
particularmente usada 
por autores marxistas, 
vincula a formação 
dos Estados mexica e 
inca à necessidade de 
realizar grandes obras 
de irrigação. 
O Estado, de 
acordo com essas 
interpretações, teria 
surgido a partir da 
necessidade de 
organizar e fi scalizar 
obras hidráulicas, 
que exigiam grandes 
concentrações de 
homens disponíveis 
para um trabalho 
que ultrapassava os 
interesses imediatos 
de sua família ou da 
pequena comunidade à 
qual pertenciam.
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
imagem uniforme dos mundos nativos, que em nada corresponde 
à diversidade desse universo antes e mesmo depois da conquista. 
Assim, é preciso ressaltar que os mexicas se expandiram sobre um 
território marcado por confl itos entre grupos e culturas heterogêneas. 
O controle da Tríplice Aliança (Tenochtitlán, Texcoco e Tlacopán) 
concretizou-se, de acordo com Gruzinski, por meio da exigência dos 
tributos, da eventual instalação de guarnições militares nas áreas 
conquistadas, da imposição de deuses aos panteões locais e, acima 
de tudo, da constituição de alianças matrimoniais. O autor lembra 
ainda que esse controle, recém-instalado, se tomamos por marco 
temporal a conquista espanhola, era politicamente frágil, talvez por 
não possuir uma escrita à altura de suas ambições.
Enfi m, não se trata aqui de contrastar as versões da história 
produzidas pelos mexicas com as interpretações dos historiadores, 
pois a natureza e os usos dessas interpretações são certamente 
diversos. Trata-se, antes, de reafi rmar o caráter histórico das 
sociedades indígenas das Américas, fossem elas possuídoras ou 
não de uma escrita que perpetuasse suas histórias. 
As comunidades 
conquistadas pelos 
mexicas eram 
obrigadas a pagar 
tributos ao Estado 
\u2013 eminentemente sob 
a forma de produtos 
agrícolas, artefatos 
artesanais e objetos 
cerimoniais, entre 
outros. Idealmente, o 
tlatoani recebia esses 
produtos e armazenava 
parte deles para serem 
redistribuídos pelas 
comunidades em 
épocas de difi culdade 
ou nos grandes 
festivais públicos, de 
modo a reforçar os 
laços entre o Estado 
e as comunidades 
subordinadas. 
Atende ao Objetivo 1
1. Nesta atividade, convido você a treinar uma habilidade importante na formação de 
um professor de História: sintetizar ideias com clareza. Como esta aula concentra-se na 
discussão historiográfi ca, peço que você complete o quadro a seguir, registrando a época 
em que foram produzidas três das interpretações aqui destacadas sobre o expansionismo 
mexica. Na terceira coluna, peço que você descreva brevemente o modo pelo qual cada 
um desses autores buscou explicar a expansão política e militar dos mexicas entre os 
séculos XV e XVI. 
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História da América I
AUTOR ÉPOCA INTERPRETAÇÃO SOBRE O EXPANSIONISMO MEXICA
C. Duverger
Miguel León Portilla
S. Gruzinski
Resposta Comentada
Segue-se uma sugestão de como completar o quadro proposto na atividade:
AUTOR ÉPOCA INTERPRETAÇÃO SOBRE O EXPANSIONISMO MEXICA
C. Duverger Anos 1970
Explicação privilegia questões relativas ao imaginário cultural, 
pois vincula a lógica da guerra constante (expansão) à 
necessidade de manter o sol em movimento. 
Miguel León Portilla Anos 1980
Explicação privilegia os argumentos socioculturais, destacando 
o papel da elite mexica, os chamados pipiltin, na elaboração 
de visões de mundo que os tornavam centrais na preservação 
do universo: eles lideravam as guerras, organizavam o culto aos 
deuses, governavam povos vizinhos. 
S. Gruzinski 1988
A interpretação de Gruzinski enfatiza a fragilidade do controle 
mexica sobre as áreas subordinadas no processo de expansão 
militar e destaca os mecanismos empregados na manutenção 
dessa política de domínio: alianças matrimoniais, tributação, 
imposição de cultos religiosos.
Povos da montanha: o expansionismo inca
Nas montanhas dos Andes, instalou-se uma dominação 
próxima daquilo que geralmente denominamos de império. 
Quando os espanhóis se aproximaram da região andina, na década 
de 1530, os incas reinavam há algumas gerações sobre uma vasta 
área, chamada de \u201cImpério das Quatro Direções\u201d, cujos domínios 
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
estendiam-se do atual Equador, ao Norte, até o Chile, ao Sul. Os incas 
instalaram-se inicialmente no Vale de Cuzco, por volta do século XIII 
d.C., mas apenas no século XV (por volta de 1470 d.C.) começaram 
a estender seus domínios sobre outros territórios e povos da região 
andina, incorporando e cobrando tributos de centenas de grupos 
étnicos caracterizados por grande diversidade cultural e linguística.
Note que a denominação inca corresponde ao povo, 
e também era usada para designar os diferentes soberanos 
desse povo, os Incas.
Quais eram as especifi cidades dessa 
vasta região? Sabemos que os incas 
expandiram seus domínios nas áreas 
de maior altitude, que eram também as 
mais povoadas e tradicionalmente usadas 
para o cultivo de alimentos altamente 
nutritivos, como o milho e a batata. 
Mas a terra cultivável das montanhas era 
pouca, quando se tratava de manter grandes 
concentrações de população, como ocorrera, 
por exemplo, na época do expansionismo inca. 
As bases para as grandes populações ou 
para a formação de um extenso Estado 
dependiam da pesca, da coleta de produtos 
e do cultivo em vários pisos ecológicos, de 
modo a aproveitar os recursos de diferentes 
áreas e climas. 
Para John Murra, grande especialista 
na história andina no período anterior 
à conquista, o Estado inca ampliou uma 
Figura 2.4: O mapa apresenta os domínios dos incas na 
região andina por volta de 1532.
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História da América I
dinâmica já existente nos