História da América 1 Cederj
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mil famílias, e que vinha inspecioná-las uma 
vez por ano (...)se achasse que o senhor local ou uma autoridade menor era culpada 
de cinco faltas muito sérias como a de não ter obedecido ao que o representante real 
havia ordenado
ou a de ter querido rebelar-se
ou a de ter sido negligente no recolhimento e remessa do que era devido 
ou a de não ter realizado os sacrífi cios exigidos três vezes ao ano 
ou a de ter ocupado as pessoas na tecelagem a seu próprio serviço
ou a de ter feito outras coisas que interferiam com o que deviam fazer e por outras coisas 
semelhantes. Se cometesse cinco faltas, eles lhe tiravam seu cargo a davam-no a seu fi lho, 
se tivesse um capaz, e, se não, davam-no a seu irmão ou parente mais próximo (...)
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História da América I
Nesta atividade, proponho que você comente a fonte citada, explorando a articulação dos 
senhores locais com o Estado inca antes da conquista espanhola. 
Resposta Comentada
Espero que você observe, inicialmente, a inexistência de registros escritos sobre o mundo dos 
incas no período anterior à conquista. Dessa forma, antropólogos e historiadores utilizam-se 
de várias fontes para analisar aspectos da organização dos incas em seu período de maior 
expansão pelos Andes: vestígios arqueológicos, história oral, relatos feitos pelos espanhóis 
sobre os índios, entre outros. A fonte em questão nessa atividade foi um testemunho coletado 
em 1562 por funcionários espanhóis, que perguntavam aos nativos sobre os tempos do 
domínio dos incas. Devemos considerar, antes de mais nada, que se tratava dos novos 
conquistadores (os espanhóis) perguntando sobre os antigos conquistadores (os incas); e os 
índios da comunidade, cerca de 30 anos após a chegada dos ibéricos aos Andes, deviam 
saber o que deviam ou não falar diante de um funcionário espanhol... Consciente dessas 
questões, relativas ao contexto em que foi elaborada essa fala da comunidade, você estará 
pronto para analisar pontualmente alguns aspectos da fonte.
Nota-se que os chupaychos eram um grupo subordinado aos incas e diretamente inspecionado 
pela burocracia central de Cuzco, já que se diziam visitados por um senhor inca uma vez 
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
ao ano. A tensão das relações entre Cuzco e as comunidades subordinadadas fi ca evidente 
nesse relato dos índios, pois eles mencionam detalhadamente as faltas capazes de levar o 
chefe local a perder seu cargo. Entre essas faltas, destacam-se as noções das obrigações do 
chefe (e da comunidade, portanto) em relação a Cuzco e a da punição, caso os serviços 
devidos pela comunidade não fossem cumpridos ou a ameaça de rebelião se materializasse. 
Um observador mais atento poderia também fazer algumas perguntas históricas a partir dos 
dados dessa fonte em particular: se o dito senhor inca governava dez mil famílias, visitando-as 
apenas uma vez por ano, podemos considerar que a burocracia de Cuzco era relativamente 
precária? Ou ainda: por que o poder retirado de um chefe local deveria ser mantido pelos 
membros de sua linhagem? Eu mesma não sei responder a essas questões que sugeri, mas, 
como você sabe, indagar é o ponto de partida de todo historiador!como você sabe, indagar é o ponto de partida de todo historiador!
CONCLUSÃO
Um longo e complexo passado indígena caracteriza a 
história das terras amerricanas antes da conquista espanhola. 
Duas áreas desse vasto mundo indoamericano mereceram nossa 
atenção particular: a Mesoamérica, onde floresceu o Estado 
mexica, e a região andina, berço do Império inca no continente 
sul-americano.
Embora tenham se constituído em áreas bem diversas, é possível 
traçar alguns paralelos entre os mexicas e os incas no período anterior 
à Conquista: eram estados altamente sedentarizados, urbanizados 
e densamente povoados. Foram também estados marcados por 
grande expansionismo militar e político na época que antecedeu à 
conquista ibérica: os mexicas iniciaram sua expansão no início do 
século XV, por volta de 1430 d.C., ao passo que os incas começaram 
a subordinar comunidades andinas no fi nal desse mesmo século, 
por volta de 1470 d.C.
Nesses movimentos de expansão, observa-se, sobretudo no 
caso mexica, a combinação entre alianças políticas frágeis e fortes 
confl itos com as áreas subordinadas. Ao perceber a existência de 
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História da América I
confl itos internos que dividiam o mundo dos nativos na Mesoamérica 
e nos Andes, temos mais dados para explicar a vitória dos espanhóis 
diante de estados tão populosos e acostumados com as batalhas, 
ainda que de tipos diferentes daquelas introduzidas pelos ibéricos. 
Avaliar os confl itos presentes no mundo dos nativos não signifi ca, de 
modo algum, aliviar o peso da violência espanhola nos processos 
de conquista e posterior colonização. Antes, o que se deseja é 
explicitar a historicidade dessas sociedades nativas, buscando-lhes 
a complexidade e as especifi cidades, bem como os confl itos em que 
se achavam envolvidas.
Atividade Final 
Atende aos Objetivos 1 e 2
\u201cPor meio de alianças livres ou impostas, as confederações seladas entre as senhorias 
levavam à formação de unidades políticas de tamanho e duração variáveis, mais ou menos 
centralizadas...As alianças eram feitas e desfeitas ao sabor das invasões e deslocamentos 
de população (...) \u201d(GRUZINSKI, p. 23).
O trecho anterior foi retirado da obra do historiador Serge Gruzinski e se refere à sociedade 
mexica pré-colonial. Gostaria que você comentasse esse breve trecho, porém considerando 
igualmente o caso do expansionismo inca, de modo a recuperar as semelhanças e diferenças 
entre os dois processos.
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Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
Resposta Comentada 
Nos dois casos, mexica e inca, a expansão iniciada no século XV fez-se através de 
alianças políticas mais ou menos frágeis e de imposições militares. No caso mexica, 
formou-se de fato uma confederação de três cidades, lideradas por Tenochtitlán, que 
buscavam impor-se sobre uma vasta área do Vale do México. Entre os incas, em 
contrapartida, formou-se algo mais próximo do que denominamos um império, uma 
vez que a etnia inca estabelecida na cidade de Cuzco buscou dar uma aparência de 
centralidade a seu processo expansionista, impondo o culto ao sol às zonas anexadas 
ao longo da \u201cestrada real\u201d, cujo centro era a capital Cuzco. Outro aspecto a ser 
ressaltado é que as alianças eram mantidas por circunstâncias particulares e algo 
semelhante nos dois casos em questão. Entre os mexicas, as alianças se teceram por 
meio da exigência dos tributos, da eventual instalação de guarnições militares nas 
áreas conquistadas, da imposição de deuses aos panteões locais e, acima de tudo, 
da constituição de alianças matrimoniais. Entre os incas, por sua vez, as alianças se 
construíam pela burocracia do Estado, pela educação dos fi lhos dos kurakas mais 
importantes na capital, pela criação de rotas de circulação e comunicação através das 
estradas reais. A imposição do culto ao sol, já mencionada, era igualmente valorizada 
pelas elites de Cuzco na constituição de alianças com as comunidades locais. 
RESUMO
Conforme ressaltou Tzvetan Todorov, o encontro entre o Velho 
e o Novo Mundo assumiu uma forma bem particular: foi uma guerra 
ou, como se dizia então, uma conquista. Mas como explicar a 
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História da América I
vitória dos europeus, se os nativos eram tão superiores em número 
e lutavam em seu próprio solo? Há muitas formas, na verdade, de 
responder a essa questão. As doenças trazidas pelos europeus foram 
devastadoras e causaram muitas mortes desde os primeiros contatos, 
enfraquecendo as defesas nativas.