Educação Física - Raízes européias e Brasil - Carmen Lucia Soares

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seculo da grande revolugao cientifica dos laboratories, da
industrializagao e do crescimento das disciplinas e instituigoes
socials5.

Michel Lowy evidencia em seus estudos sobre os pressupostos
basicos da abordagem positivista de ciencia a ideia de serem as
ciencias da sociedade identicas as ciencias da natureza, devendo
ambas, de igual modo

limitarem-se a observagao e a explicagao causal dos fenomenos de
forma objetiva, neutra e llvre de julgamento de valor ou de ideolo-
gias, descartando previamente todas as prenogoes e preconceitos
[LowY, 1987, p. 17].

A elaboragao de uma concepgao naturalizada do social se co-
locava como necessaria, na medida em que a nova sociedade se
apresentava de modo cada vez mais contraditorio. Nunca se viu
tanta riqueza acumulada e nunca as populagoes estiveram sujei-
tas a uma miseria tao generalizada, e absolutamente desprovidas
de qualquer defesa do ponto de vista social. Os grandes triunfos da
industria eram acompanhados de uma degradagao social jamais
vista e vivida por civilizagoes anteriores.

5
- Ver Madel Terezinha Luz, 1988, pp. 78-79; ver tambem Emile Durkheim, 1983.



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Nas primeiras decadas do seculo XIX, a economia europeia en-
contra-se em plena expansao. A necessidade de um grande contin-
gente de mao-de-obra se faz presente para atuar em dlferentes seto-
res da producao, em dlferentes ramos do capital inerentes a divisao
do trabalho que, a cada momento, fragmenta-se mais e mais.

As desigualdades sociais devem ser justificadas em nome do
progresso e da necessidade de diferentes individuos para ocupa-
rem - de acordo com suas "aptidoes naturais" - as diferentes posi-
c5es e cargos dentro da nova ordem social estabelecida, posicoes
estas que vao sendo hierarquizadas para as diferentes classes so-
ciais em funcao do lugar que ocupam na produgao.

A nova sociedade "igualitaria", "fraterna" e "livre", nao o era
para a maioria da populacao. Para esta maioria, o "progresso"
advindo dos "beneficios" da industria crescente nada mais era do
que miseria, degradacao da vida, descaracterizagao do que ainda
restava de humano na sociedade, uma sociedade na qual, segundo
Marx e Engels,

todas as nossas invengoes e todos os nossos progresses parecem
nao provocar outro resultado senao o de dotar de vida e de inteli-
gencia as forgas materials e de embrutecer o homem rebaixando-o
ao nivel de uma forga puramente fisica [MARX & ENGELS, 1978,
pp. 150-151].

A urbanizagao e a proletarizagao da Europa, decorrentes da
Revolugao Industrial, especialmente nos paises centrals da dupla
revolugao (Franga e Inglaterra), demonstram e exportam para o
mundo um tipo de vida degradante a que foi sujeita parcela signi-
ficativa de sua populagao. O crescimento rapido e desordenado das
cidades e areas industriais nao foi acompanhado pela ampliagao dos
servigos mais elementares nas cidades, como, por exemplo, a lim-
peza das ruas e os servigos sanitarios. O aparecimento das gran-
des epidemias, como a colera, o tifo e a febre recorrente entre 1831
e 1840, evidencia de forma contundente a deterioragao do espago
urbano.

Todavia, os terriveis efeitos desta deterioragao nao eram sen-
tidos pelas classes media e alta a esta epoca, pois o desenvolvi-

AS BASES POLfnCAS, ECONpMICAS E SOCIAIS DA EDUCAgAO FISICA 11

rnento urbano empurrava os pobres para as grandes concentra-
cdes de miseria distantes dos centres de governo e das novas areas
residenciais da burguesia. Como afirma Hobsbawn, "o desenvol-
vimento urbano foi um gigantesco processo de segregagao de clas-
ses" (1982, p. 224).

Em 1848, as massas desesperadas que cresciam nos cortigos,
alijadas de um processo "civilizatorio" que ajudavam a construir
como forga de trabalho, comegam a tomar consciencia de si como
classe, evidenciando atraves da revolugao social sua resistencia e
sua forga. Os miseraveis eram agora uma dupla ameaga a burgue-
sia no poder. De um lado, a organizagao da classe operaria, de outro,
as suas epidemias, as quais, embora nascendo nos cortigos, come-
gavam tambem a atingir os ricos. Este quadro de ameaga exigiu a
tomada de algumas providencias para a reconstrugao e o aperfei-
goamento urbano de forma mais sistematica.

A moralizagao sanitaria na Europa, em meados do seculo XIX,
tratara de reorganizar o espago de vida dos individuos. Seu discurso
normativo veiculara a ideia de que as classes populares vivem mal
por estarem impregnadas de vicios, de imoralidade, por viverem sem
regras. O discurso das classes no poder sera aquele que afirmara
a necessidade de garantir as classes mais pobres nao somente a
saiide, mas tambem uma educagao higienica e, atraves dela, a for-
magao de habitos morals. E este discurso que incorpora a Educa-
gao Fisica e a percebe como um dos instrumentos capazes de pro-
mover uma assepsia social, de viabilizar esta educagao higienica e
de moralizar os habitos.

Segundo Singer, Campos e Oliveira (1981, p. 21), fazia-se ne-
cessario, sobretudo, justificar um quadro social no qual a prosti-
tuigao, o alcoolismo, o infanticidio e a demencia eram comuns. Do
mesmo modo, outra necessidade se fazia visivel: a de "domesticar"
as massas urbanas submetidas a jornadas de trabalho que varia-
yam de 13 a 16 horas diarias, incluindo mulheres e criangas, rece-
bendo salarios insuficientes ate mesmo para Ihes proporcionar uma
nutrigao adequada.

Estavam dadas as condigoes para que a forga de resistencia e
e revolta das grandes massas se transformasse num grande mo-
lrnento operario, constituindo-se como resposta ao grito do homem



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pobre. Em 1848 havia algo de novo no movimento operario, que era
a consciencia de classe e a ambigao de classe.

A burguesia, ameagada com a possivel perda de privilegios ad-
quiridos com a exploragao desenfreada da forga de trabalho, refor-
ga o seu aparato ideologico e cientifico. Busca explicagoes "cientifi-
cas" e acentua os aspectos hereditarios e geneticos nas justificativas
que elabora sobre a miseria que se desenvolve justaposta ao pro-
gresso - a miseria que e parte constitutiva das leis do capital.

Conter os avangos do movimento operario e desenvolver um
conjunto de crengas, ideias e valores capaz de determinar "cienti-
ficamente" o "lugar de cada um" torna-se imperioso para a burgue-
sia contra-revolucionaria no poder.

Para esta classe, a ciencia, em sua abordagem positivista, de-
veria descobrir as "formulas" e as "leis" capazes de manter a "or-
dem natural" dos fatos e o desenvolvimento, tambem natural", da
sociedade. As metaforas organicistas dao mostras da compreensao
que a classe no poder tinha da sociedade e dos homens.

As revoltas, as crises pelas quais passava a sociedade deveriam
ser "curadas", assim como se curam doengas. Afinal, este grande
organismo vivo - a sociedade - nao poderia ceder as suas enfermi-
dades. E as suas "enfermidades" seriam curadas atraves de uma
meticulosa reorganizagao e adequagao de espagos, de individuos,
onde cada um receberia uma ocupagao de acordo com suas possi-
bilidades individuals e com suas "aptidoes naturals"6. Alem, e cla-
ro, de uma boa dose de hierarquia.

Para o pensamento social predominante - o positivismo - o bom
funcionamento da sociedade estaria garantido se esta reorganiza-
gao e adequagao de espagos e de individuos fosse acentuadamente

6. Noelle Bisseret afirma que "a historia da palavra 'aptidao' revela descontinui-
dades radicals de sentido (...) constata-se que e a partir do seculo XVIII que a
nogao de aptidao se torna importante, ao se articular com as nocoes de merito
e de responsabilidade individual, elementos da ideologia igualitaria. Apos a
Revolucao Francesa, se o seu lugar permanece central nesse sistema ideologi-
co, a funcao que ela exerce se altera radicalmente: a nogao de aptidao, a partir
dai, serve progressivamente de suporte para justificar a manutengao das desi-
gualdades socials e escolares que as
Jessica Natacha fez um comentário
  • nossa muito bom mesmo recomendo
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    Ednardo Galvao fez um comentário
  • esse ta muito bom completo
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  • Este livro da Carmen Lucia Soares é o livro utilizado pela professora Luciana da matéria de Fundamentos Históricos da Educação Física.
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