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Resenha de A Era das Revolucoes de Eric Hobsbawm

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ 
SETOR DE CIÊNCIA HUMANAS 
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA 
HISTÓRIA – MEMÓRIA & IMAGEM (BACHARELADO): 1º/2015 
HISTÓRIA MODERNA 
Prof. Dr. VINÍCIUS NICASTRO HONESKO 
 
Resenha e análise da obra: 
A ERA DAS REVOLUÇÕES (1789-1848), por Eric Hobsbawm (p. 5-286) 
 
Gabriel Antonio Forgati* 
 
O AUTOR 
 Eric John Ernest Hobsbawm (1917-2012) foi um historiador britânico, nascido 
no Egito (quando ainda colônia do Império Britânico), e um dos maiores teóricos do 
século XX. Se autodeclarava Marxista e era membro do Partido Comunista Britânico. 
Escreveu diversas obras, dentre as quais inclui-se com destaque a da presente 
análise, “A Era das Revoluções”, primeiro volume da trilogia do que o autor chamava 
ser o “longo século XIX (1789-1914)” (juntamente com “A Era do Capital” e “A Era 
dos Impérios”). Outro livro que garante destaque é “A Era dos Extremos”, que 
discute os governos extremistas – tanto de direita, quanto de esquerda – no que 
Hobsbawm chamava de o “breve século XX (1914-1991)”. 
 
A OBRA 
 “A Era das Revoluções (1789-1848)” discute, em suma, as transformações 
ocorridas no continente europeu, sobretudo, após o desencadeamento da “dupla 
revolução”, termo que Hobsbawn faz uso ao referir-se à Revolução Industrial na Grã-
Bretanha e à Revolução Francesa, ambas ocorridas na segunda metade do século 
 
* Aluno da Graduação em História – Memória & Imagem – pela Universidade Federal do Paraná 
(Turma de 2018. Atualmente é Arquivista da Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos 
Pinhais – Curitiba/PR (Arquivo Dom Alberto José Gonçalves). 
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XVIII. A obra inaugura uma trilogia que abordará o “longo século XIX”, termo 
cunhado pelo próprio historiador, que julga que o século em questão extrapolou a 
rigidez dos anos, tendo iniciado em 1789 (com a consolidação e ampliação da 
Revolução Industrial e com a Queda da Bastilha, evento que tradicionalmente se 
atribui ao início da Revolução Francesa) e encerrado em 1914, com o advento da 
Primeira Grande Guerra (1914-1918). Os outros volumes que compõem a trilogia 
tratam da consolidação do capitalismo como sistema econômico1 e da corrida 
imperialista europeia, realizada na empresa de ampliar a produção e o mercado 
consumidor destas nações2. 
 A obra divide-se em duas grandes partes: “Evolução” e “Resultados”. “A 
primeira trata amplamente dos principais desenvolvimentos históricos do período, 
enquanto a segunda esboça o tipo de sociedade produzida pela dupla revolução” 
(Hobsbawm, 2015: p.16). 
 Hobsbawm abre a obra explanando acerca do que chamou de “dupla 
revolução”: a industrial inglesa e a francesa, primeiramente abordando aquela, 
deixando esta para um segundo momento. Comum a ambos movimentos é a 
exposição da Europa da época que o teórico faz, principalmente no primeiro 
capítulo, “O mundo na década de 1780”. As relações entre as distâncias, como o 
homem da época percebia essas, como eram longas e demoradas as viagens, e 
como o melhoramento das estradas e ainda posteriormente a invenção da ferrovia 
tornaram mais fácil e barato os deslocamentos ocupam boa parte do tópico. O 
mundo “conhecido”, ao menos para o europeu – cujo continente contava 
aproximadamente 187 milhões de habitantes – era muito menor, e o intercâmbio e a 
troca de informações eram vastas e abundantes para a época. Neste início de texto 
já é possível perceber a tendência de análise quantitativa do historiador, 
especialmente ao quantificar dados a todo o momento, citando uma vasta gama de 
exemplos para consolidar sua teoria e para facilitar a compreensão do leitor. 
Também é visível sua linha marxista, abordando o materialismo histórico, 
conjecturando acerca de como parte da evolução econômica se deu na exploração 
do homem pelo homem. As compreensões acerca das relações no campo e na 
cidade, bem como o crescimento significativo desta última ocupam parte da 
 
1 HOBSBAWM, Eric J. A ERA DO CAPITAL (1848-1875). 23º ed. São Paulo: Paz & Terra, 2015. 
2 HOBSBAWM, Eric J. A ERA DOS IMPÉRIOS (1875-1914). 19º ed. São Paulo: Paz & Terra, 2015. 
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discussão empreendida; igualmente o é a importância da produção agrária da época 
e dos trabalhadores que ali viviam. Destaca-se o trabalho dos fisiocratas, que 
atribuíram à terra grande importância, ligando a posse dessa à grande riqueza. Ao 
tratar dos trabalhadores do campo, Hobsbawm detém-se com especial atenção, 
sobre o trabalhador rural, discorrendo sobre suas condições e ainda indo além, 
tratando do êxodo rural provocado pela crescente industrialização e pelas leis de 
cercamento, que priorizaram a produção de lã caprina como fonte para a indústria 
têxtil; esse ramo em específico foi, junto com o ferro e o carvão, força motriz na 
primeira fase da industrialização. Hobsbawm também opõe a produção agrária, 
lenta, com o comércio e a indústria, que movimentam a economia de forma mais ágil 
e volumosa. 
 No segundo capítulo (“A Revolução Industrial”), Hobsbawm trata do 
movimento propriamente dito, traçando como o movimento origina-se na Inglaterra, 
cresce, e depois expande-se para o restante da Europa. Quanto à origem da 
revolução, diz: 
a certa altura da década de 1780, e pela primeira vez na 
história da humanidade, foram retirados os grilhões do poder 
produtivo das sociedades humanas, que daí em diante se 
tornaram capazes de multiplicação rápida, constante, e até o 
presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços. 
(Hobsbawm: 2015, p. 59). 
 Essa nova revolução trouxe significativas e indeléveis mudanças. Das mais 
significativas ilustradas pelo autor, pode-se citar o surgimento de uma nova classe 
social, o operariado, ou proletariado. Na década de 1840, essa classe assume 
grande visibilidade, não como prestigiada, mas como problemática às políticas 
governamentais. Inclusive, o Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e 
Friedrich Engels foi publicado na época, em 1848, dando resposta ao tratamento 
dado aos homens e mulheres que trabalhavam nas fábricas, lançando as bases e 
tornando mais organizada e sistemática a luta do proletariado por condições mais 
dignas de vida. Ainda nesse capítulo, é salutar ressaltar como a Inglaterra estava 
adiante das demais nações da época, o que lhe permitiu tal desenvolvimento 
industrial. O que acontecera na França em 1789, por exemplo, da derrubada do 
Antigo Regime e do absolutismo, e da instauração de um poder não absoluto, com a 
Monarquia Constitucional, já ocorrera na Inglaterra mais de um século antes. 
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 O estudo da Revolução Industrial ainda nos permite compreender as relações 
da Inglaterra com suas colônias, ex-colônias (como os Estados Unidos da América) 
e demais países em nascimento na época. A produção de algodão, importado pela 
Grã-Bretanha, a partir da América, por exemplo, foi de suma importância para a 
indústria têxtil, que dominou as esferas de produção industrial nas primeiras 
décadas da revolução, tornando a Inglaterra hegemônica e absoluta em tal ramo. 
 Em “A Revolução Francesa” (capítulo terceiro), Hobsbawm faz o mesmo 
traçado que fez ao abrir o livro, expondo a França do Antigo Regime sob o domínio 
absoluto da Casa Real dos Bourbon (sobretudo do reinado de Luís XVI), em seus 
aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais, sobretudo. As crises políticas na 
época não são latentes apenas na França; observou-se fenômenos na América, com 
o surgimento dos ideais iluministas de independência, consolidados a partir da 
estadunidense (1776-1783), e na própria Europa, como na Irlanda, em relação à 
Grã-Bretanha, e na Bélgica, em