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Trabalho de antropologia do Corpo

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Universidade Federal do Espírito Santo
Centro de Ciências Humanas e naturais
Departamento de Ciências Sociais
Antropologia do Corpo
Profa. Dra. Eliana Creado
Estudante Paulo Sergio Brandão
O Congo de Araçatiba e os embalos dos filhos de Mãe Tiotó.
Vitória – ES
2016.
Universidade Federal do Espírito Santo
Centro de Ciências Humanas e naturais
Departamento de Ciências Sociais
Antropologia do Corpo
O Congo de Araçatiba e os embalos dos filhos de Mãe Tiotó.
Profa. Dra. Eliana Creado
Paulo Sergio Brandão
Introdução
Este trabalho de pesquisa de antropologia do corpo tem por objetivo estudar e descrever o processo histórico, cultural e ficcional do Congo em Araçatiba, bem como os papéis desenvolvidos pelos atores sociais, a dança e a música e o poder do feminino e a forma como se dá a aprendizagem entre as gerações. Por meio da história e ficção das origens de Araçatiba, como relata Haraway, no seu manifesto ciborgue, a realidade é um misto de ficção e realidade vivida, mostramos como se deu o mito de origem do nome de Araçatiba, que surge como lugar da música e da dança. E com foucault, no período da escravidão, relatamos a exploração dos padres jesuítas e dos coronéis na coerção e punição aos corpos dóceis, levados ao trabalho forçado e ao mesmo aliviados pelo poder da Santa protetora que Ajuda a todos. Mostramos como se deu a origem dos tambores e do congo entre os escravos. Continuamos, por meio de pesquisa de campo, com observação participante e entrevistas, a relatar o lugar dos corpos e identidades femininas nas narrativas vividas pelos moradores de Araçatiba, bem como sua importância e lugar. Em ingold, encontrei a fundamentação para mostrar que o congo se dá por meio da educação da atenção, levando em conta o tempo de inclusão do membro no grupo, por meio da socialização, nas vivências e práticas cotidianas, vendo, ouvindo, e o desenvolvimento de habilidades de dança e música com o corpo, pois o movimento corporal é essencial. E uma participação sempre efetiva nas atividades e festejos, que geralmente acontecem fora da vila, sentindo e percebendo as manifestações com seus significados e valores. É assim que o grupo vai acontecendo e existe desde o século XIX. 
Araça e Tiba: nasce a vila da dança e da música.
Araçatiba, nome originado, segundo relatos dos mais antigos moradores da Vila, da fruta “Araça”, um tipo de gioaba pequena, nativa, que existia em abundância na região como tinha um sabor apreciado por todos era uma como uma fruta símbolo entre os povos tradicionais do local e “Tiba”, filha do cacique da maior tribo indigena localizada as margens dos Rios Jucu e Jacarandá, reconhecidos por suas danças e rituais longos. O cacique, que amava muito sua única filha e fazia tudo para vê-la sempre alegre e feliz. Um dia a menina amanheceu morta e foi encontrada nas redondezas da aldeia, fato que foi comunicado por um informante que estva caçando as margens do Rio Jacarandá. O cacique ficou muito triste, fez uma cerimônia fúnebre e chorou vários dias. Para eternizar o nome da filha que amava resolveu dá ao lugar onde viviam o nome de Araçatiba. Ele uniu o nome da fruta Araça, que todos gostavam, com o nome de sua filha. Segundo relatos, os índios em seus rituais, dançavam durante horas e as vezes a noite toda e Tiba sempre gostou de dançar e cantar, mas como a dança e a música era reservada aos homens da Tribo, a menina ficava triste, pois não podia fazer o que mais gostava. Quando ela morreu, seu pai que era o cacique da tribo sentiu muito e para satisfazer o seu desejo, anunciou um luto e durante vários dias, todos podiam dançar e cantar em homenagem a menina Tiba. Nesta ocasião a tribo recebeu vários visitantes de outras tribos que celebraram aquele momento importante na vida do Cacique e seu povo. Araçatiba passou a se considerada o local da dança e da música e por qualquer motivo as pessoas passaram a dançar e cantar, seja nos momentos tristes ou alegres. Segundo relatos ainda seu espírito povoa as festas trazendo a todos uma alegria que contagia e anima para dança que em Araçatiba ninguém consegue ficar parado e aniamação faz parte da vida do povo local. 
E entre os moradores mais antigos e os mais jovens, também existem várias relatos de histórias, porém, esta é a que mais aparece nas falas de alguns deles. 
Da dominação e doutrinação jesuíta a escravidão: os corpos dóceis. 
Araçatiba, comunidade que tem a música e a dança como fundamento existencial, passa por transformações do período de dominação européia, principalmente da chegada dos padres jesuítas, que imprimem um ritmo produtivista e comercial a vida dos habitantes, e também, doutrinário e religioso, criando a maior fazenda do Brasil em produção de cana de açucar e gêneros alimentícios para abastecer o Colégio São Tiago, onde fica hoje o Palácio Anchieta e a igreja Nossa Senhora da Ajuda, que representava o ícone religioso da dominação doutrinária da religião católica em terras além mar. 
Depois da expulsão dos jesuítas do Brasil, Araçatiba foi entregue a um dono, conhecido como Coronel, que se apossou da fazenda e trouxe mais de 800 escravos africanos, para ampliar a produçao da fazenda, agora para fins comerciais e para atender a Coroa portuguesa. 
Os mais velhos, como Dona Nini, falam que em Araçatiba, apesar da escravidão, não tinha tronco, e havia uma certa harmonia entre o dono da fazenda e os escravos. A Igreja, conservada da época dos padres jesuítas era local que os descendentes de escravos passaram a se encontrar para celebrar, cantar e dançar hinos e músicas religiosas, principalmente nos festejos de São Benedito e Nossa Senhora da Ajuda. 
Filhos e herdeiros da Santa.
Da morte do último Coronel da linhagem, Sebastião Vieira Machado, contam os mais velhos que seus filhos resolveram doar mais de 300 alqueres de terra para a Santa Nossa Senhora da Ajuda e permitiu que os descendentes de escravos pudessem viver nas terras da Santa. Daí em diante, segundo Dona Nini, contadora de histórias locais, os moradores de Araçatiba passaram a ser considerados como herdeiros da Santa, logo, são como filhos da grande mãe protetora que garantiu a terra para todos os seus filhos, que um dia foram trazidos de terras distantes, desterrados e agora sob a sua proteção divina podem morar e viver felizes nas terras que viviam como escravos. 
Os corpos escravizados: o Congo, as toadas e a dança
O Congo surge, segundo o mestre de Congo de Araçatiba, Sr. Alício, por meio da confecção do Tambor de Congo, feito pelos próprios escravos, por barris de vinhos descartados pelos senhores e era uma forma de encantar as mulheres, por meio da dança e do bater dos tambores. Depois, ao longo do tempo foram utilizados outros instrumentos.
Hoje em Araçatiba são usados outros instrumentos para embalar o Congo, quase todos feitos na comunidade local, como o bumbo, casaca, chocalho, triângulo e apito, que é usado pelo mestre para embalar as toadas, sempre no início e no fim das mesmas. 
O Congo que surge entre os escravos africanos teve que se adequar para ser aceito no período da colonização no Brasil, segundo relatos dos mestres de Araçatiba, assume contornos da religião oficial católica, predominante entre os europeus, que não aceitava as manifestações de matriz africanas, vistas como manifestações demoniácas. 
Da necesidade de cantar e dançar e para serem aceitos, os escravos passaram a cultuar os santos São Benedito e outros, como forma de expressão da diversidade afro. Fazendo dessa forma, os escravos cantavam e dançavam em homenagem ao santo e ao mesmo tempo, reviviam seus ancestrais presentes nas danças, músicas e nos rituais do Congo. 
Em nossa época o Congo passa a ser considerado parte do Folclore do país, por sua forma dançante, alegre, vibrante e pelos trajes e formas de expressão de um determinado povo. O congo também é cantando como música popular, passando a ser udado por bandas musicas e entre nós, temos por exemplo, a banda Casaca e outras, tendo