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Trabalho de antropologia do Corpo

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como referência as letras e as toadas. 
A disciplina e a dominação religiosa sobre os corpos dos escravos.
O povo indigena fica perdido após a chegada do homem branco europeu que por meio da religião imprime uma ruptura com seu modo de vida local e suas regras de convivência, extinguindo praticamente as relações de poder existentes na aldeia e obrigando todos os indigenas a viverem sob ma nova ótica de controle e vigilância que segundo Foucault, o sujeito dominado é sempre fabricado, sendo seus corpos preparados, treinados e controlados para atender as exigências do poder dominante em nome do Estado. 
Neste caso, tratava-se dos padres jesuítas que execiam um poder pastoral, advinda do nome “pastor” que cuida das ovelhas e não deixa que nenhuma se perca conforme relato bíblico. Este poder era disciplinador e visava assegurar a salvação individual os indivíduos por meio da disciplina e ordem. A instituição que mantinham era a fazenda, onde logo na sua chegada, foi construída a igreja de Araçatiba, que existe até hoje, local de manutenção do poder religioso pastoril e simbolo do controle divino, em nome do qual o Padres estavam agindo. 
Além disso, o padres tinham o convento São Tiago, onde ministravam a formação cristã e propedeutica aos neofitos e recem chegados a Ordem. No convento, tinham uma vida monastica, disciplinada e controlada, longe dos prazeres da carne, para cada vez mais se aproximarem das promessas do céu. Os corpos eram treinados com rigor no ritmo de oração, trabalho e estudo das coisas da igreja e de Deus. 
O poder pastoral, pensando a partir de Foucault (1979), era o poder dos lideres religiosos e neste caso dos jesuítas, com sua presença, sobre os corpos, com a catequese e doutrinação, tornava o membro da tribo, que antes pensava e agia de forma coletiva, em indivíduo (Mauss, 1974) fabricado pelas disciplinas do poder, que agora, com esta dominação, é levado a trabalhar para garantir sua orientação espiritual e para isso, seu corpo treinado para o trabalho, objeto e alvo deste poder, visa ser obediente e alcançar a salvação individual celeste. 
Estes corpos preparados e domesticados (Foucalt,1979), passa a ser alvo de um segundo poder, o patriarcal, exercido pelo coronel, com seu corpo físico e presente mostra a sua força e controle sobre tudo e todos. Logo após a expulsão dos jesuítas do Brasil, assume a Fazenda e aproveita esta massa de indivíduos mansos e controlados. O coronel, Sebastião Vieira machado, conforme nos conta Angélica, uma guia turistico de Araçatiba, traz muitos escravos africanos para aumentar o potencial produtivo da fazenda. Este corpo escravo, junto com os nativos, exige do senhor de terras um poder coercitivo maior em relação ao que é produzido e ao processo de produção, o que certamente o fazia usando instrumentos de punição e controle como o tronco. Contudo, a hipótese não é confirmada pelos moradores antigos de Araçatiba, como Dona Nini, que diz com ar de satisfeita, que não havia tronco em Araçatiba e que o senhor de terras era bom para com todos. 
Uma vez escravos e dominados por um poder opressor, que passa a imagem de salvador e benemerito, os escravos, seja indio ou negro, vê na imagem da Santa, Nossa Senhora da Ajuda, segundo relato do Sr. Alicio, uma forma de alívio para as dores de seus corpos cansados do trabalho forçado. 
Com o drama de não poder viver sua própria cultura e ter que se reconhecer em outra dimensão cultural, longe do lugar de pertencimento, do país de origem e de suas tradições locais, onde nasceram. Esta distância opressora leva a fragmentação da vida coletiva e a uma sensação de perda de referencias e de identidade. Encontram na Santa o reconhecimento e o sentido de pertecimento, um lugar, apesar do fato de se afastarem de suas raízes ancestrais, se sentirem deslocados e frustados, veem na Santa a única fonte de respostas as suas angustias e dores, como se reportassem há uma grande mãe protetora que irá libertá-los da vida triste que levam. 
A mãe Santa cobre a ausência da mãe Terra, da ideia de povo, de lugar. A ligação com a memória dos antepassados é separada e resignificada. E neste caso foi ofertada pelos padres e depois pelo coronel, duas figura masculinas: os padres que escravizavam e disciplinavam e ao mesmo tempo ofereciam a religião para a conversão dos pecados e salvação da alma; o dono das terras, que oprimia, escravizava, mas também “aliviava” a dor, oferecendo a mãe protetora e garantidora da salvação da alma, apesar da dor ser principalmente nos corpos. 
Nos dois modelos de opressão dos corpos, há uma forma de controle e disciplina, conforme Foucault (, e uma garantia de salvação para quem for obediente e dócil. 
Araçatiba: poder, realidade e ficção.
Parafraseando Haraway (2009), Araçatiba é um misto de ficção e de experiência vivida, onde a realidade social parece ser uma ilusão de ótica. Segundo relatos de moradores, que trabalham fora a semana toda, e só se encontram nos fins de semana, quando estão em casa, procuram cantar se reunir com amigos, ir para rua, para o bar, igreja, dançar, rezar, beber e jogar. Está presente, nos leva a sentir o drama e a profundidade de experiências narradas, ao mesmo tempo, existem histórias, diversas, que nos remetem a contos de ficção, frutos do imaginário coletivo local. 
As personagens da vida real como o Sr. Alicio, o mestre congueiro, A Dona Nini, anciã, a jovem Angélica, a moça Eliete, o comerciante marcelo e sua esposa Suely, como tantos outros, vivem o presente enredados com os fatos do passado, como se algo de importante e sagrado estivessem escapando pelas mãos, como se a vida deles e a realidade socio-econômica difícil dos moradores da comunidade, escondesse e ao mesmo tempo revelasse, uma riqueza histórico cultural, acumulada ao longo do tempo. 
As amarras desse passado, de tensões, escravidão, mortes; mas também, de vitórias, de alegrias, de encontros, da dança e da musicalidade que se encontram num só lugar, conforme diz Dawsey (2008, p. 545), como se fosse um “campo energizado, que guarda aspectos não resolvidos da vida social”, incompletos, ainda por fazer. Esta é a história que se encontra nos corpos, na paisagem sonora, que compõem a vida individual e coletiva que permite aos moradores locais tecerem sua própria narrativa cotidiana. É isso que faz de Araçatiba um local diferente. 
Muitos vivem o drama social e cultural de se reconhecerem como herdeiros da Santa, mas também de Tiba, do Sebastião Vieira Machado e dos padres Jesuitas, outros, preferem romper as amarras do passado, pois vivem uma aminésia coletiva, sentindo-se perdidos, as vezes, como relatam muitos jovens, conforme nos disse, a jovem Angélica: “os jovens não querem ser conhecidos como descendentes de escravos, por que isso não os ajuda em nada. Os outros, zombam deles só pelo fato de morarem em Araçatiba”. E Continua, “os adultos, que já sofreram na pele a discriminação e não conseguiram nada na vida, estes não querem nem falar muito sobre este assunto.” Todos vão levando a vida assim como se não tivesse muito sentido tudo que aconteceu naquele lugar. 
Antes, com os indios, os individuos se referenciavam pelo grupo, aldeia. Existia uma trajetória histórico social a partir de uma tradição, de uma idéia coletiva de grupo. Conforme nos relata Mauss (1974) a noção de pessoa entre os indios Pueblos de Zuni, os povos do Noroeste Americano e Australiano, era ligada ao grupo, portanto, não individualizada de “eu”, como entidade única. Entre os indigenas de Araçatiba, não era diferente, a identidade de grupo era coletiva, tribal. Mas tudo mudou depois da chegada dos padres. 
Com a dominação dos padres jesuítas e a escravidão dos donos de terras, a referência coletiva passou a ser a Santa, a igreja, como local da comunhão. Com a reforma da Igreja, feita pelo Coronel Sebastião Vieira Machado, o dono de Araçatiba, inscreveu na frente, parte alta, as siglas do seu nome SVM (Sebastião Vieira Machado) num circulo e no entorno foram inscritas folhas de louro, simbolizando o poder romano dos

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