A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
17 pág.
Trabalho de antropologia do Corpo

Pré-visualização | Página 3 de 4

imperadores. Agora, além de dominar as terras, as vidas das pessoas, se trasnfigurou em icone de poder religioso. Pois todos passam a venerar o nome do Coronel ao adentrar as portas da igreja. Depois de sua morte, o seu corpo foi enterrado dentro da igreja, no altar, onde tem sua lápide, representando um poder faraônico que no antigo Egito tinham os seus corpos guardados nas perâmides, simbolizando um controle total sobre o poder terreno e divino, e a demonstração de que foi acolhido definitivamente pelo sagrado. Lembrando que este tipo de homenagem só era feito pelos primeiros padres, que ao morrer, seus corpos eram sepultados dentros das igrejas que fundavam. 
Corpos femininos: Tiba, a Santa e a Mãe Petronilha. 
Quando da visita do então governador Paulo Hartung, em maio deste ano, a Vila de Araçatiba, foi pedido para a banda de Congo recepcionar e tocar para a comitiva do governador que iria dá ordem de serviço para início das obras da quadra da escola municipal. Sr. Alicio, mestre congueiro, já idoso, com mais de 68 anos, me disse das dificuldades que estava encontrando para manter o Congo, mostrou um cd com as toadas e colocou no aparelho de som, a meu pedido, para que ouvisse as músicas, que segundo ele, falam da vida do povo e narra a história de veneração pela Santa Nossa Senhora da Ajuda e por São Benedito. Peço e ele entoa parte de uma musica: 
“Eu passei na ponte 
A ponte estremeceu
Essa água tem veneno
Quem bebeu dela morreu”
“Nossa Senhora da Ajuda é a Padroeira do Lugar
Vou louvar São Benedito
Eu Louvei, Vou louvar.”
Me oferece um café e a gente conversa enquanto chega a sua irmã e uma vizinha que partilha um pouco da nossa conversa. Sr. Alicio disse que o seu sonho era montar uma casa do Congo em Araçatiba para poder ensinar as crianças a arte do Congo de forma que o mesmo não acabe, “do jeito que está vai acabar mesmo, precisamos passar o ensinamento para os mais novos”. Um senhor sereno, magro, baixo, com um sentimento de que pode ser feito muito mais para o Congo e para a vida de Araçatiba. 
Ele me fala da origem do congo, do período da escravidão e que foi mãe Tiotó, que era sua avó, que manteve a tradição do Congo, como guardiã dos instrumentos e tambores. “Ela era a rainha do Congo” de Araçatiba. Disse para ele falar um pouco mais sobre quem era a mãe Tiotó. “Era a nossa parteira, Petronilha era a parteira de Araçatiba. As crianças a chamavam de Mãe Tiotó. Ela fez o parto de muitas crianças, inclusive dos congueiros”. Ela também era a guardadora dos instrumentos e também uma incentivadora e continuadora do congo para que não viesse a acabar.” Disse Sr. Alicio. 
Mãe Petronilha, parteira e guardiã dos instrumentos era a rainha do Congo. Ela era a pessoa mais animada nos festejos. Segundo Sr. Alício, os meninos congueiros todos foram trazidos por mãe Tiotó, como era chamada por eles. A mãe de todos. 
A irmã de Sr. Alicio, disse que com as orações dela a Nossa Senhora todos os meninos se salvavam, mesmo sentados ou em qualquer posição, todos saiam. E eles chamaram ela de mãe. Ela era muito fiel a tradição e até hoje temos o congo. Os tambores ainda são os mesmos daquela época. 
Sr. Alício disse que hoje a banda não tem uma rainha. Os congueiros estão procurando na comunidade alguém que goste de dançar e deseje ter responsabilidade.
Segundo depoimento da irmã do Sr. Alício, Dona Conceição, a banda de Congo traz paz, o ritmo, a música. “Eu tenho paz para mim que traz paz. Eu penso assim. Eu ouço a música assim e já não fico parada. É o momento que a comunidade se reune também”. 
Mãe Petronilha, a mãe Tiotó, a mãe de todos os congueiros, representa o feminino, junto com Tiba, a menina índia, a Santa e a igreja. Enquanto Tiba, de sua morte, nasceu Araça-tiba, foi a partir de um lamento, de um luto, que nasceu o lugar da alegria, da festa, da música. 
Mãe Tiotó, descendente de escravos, traz a vida, se doa a cada instante em nome da Santa, “tira todos para a vida” e se mantém guardiã da dança e da música, como parteira, garante o nascimento dos congueiros e como rainha, que guarda os instrumentos, zela por eles e anima os festejos do Congo, mantendo a tradição. A Santa, continua abencoando os seus filhos e herdeiros. Garante a terra a seus filhos escravos, e faz mais do que isso, quando vê que a tradição está se perdendo traz uma rainha, a Mãe Tiotó, uma enviada para fazer nascer os seus filhos e garantir a animação, a dança e a música em Araçatiba. 
O feminino de Tiba, a Santa e a mãe Tiotó traz a vida, a beleza, o encanto, a magia. Este mundo em que a natureza e cultura não estão claros, a natureza funde-se com a cultura, o sagrado com o humano, por meio da natureza, Araça, a cultura se revela na musicalidade indigena e africana, numa fusão do sagrado e do profano. 
Por parte do coronel Sebastião Vieira Machado houve uma tentativa de domínio da Vila, com seu nome inscrito no alto da igreja. Era preciso está acima, no alto, para superar a Santa e ser referência para o povo, por meio da igreja, local de encontro. A tentativa de domínio do senhor de terras sobre a vida de todos. O totem que une a comunidade, o local de veneração da Santa, passa a ser também de veneração ao nome do senhor das terras. 
Mãe Tiotó estava embaixo, nas ruas, nas casas e nas festas e em nome da Santa, representa o feminino no Congo, traz a Ajuda aos filhos da Santa, que faz nascer a comunidade embalada pela musica e a dança. Assim o congo carrega a Santa, o Santo, São Benedito, a mãe guardiã e hoje a banda tem seu nome. É o feminino que conduz e dá a direção a vida do povo de Araçatiba pelo embalo do Congo. 
Aprender o Congo envolve habilidades e presença corporal.
Fui a casa do Sr. Alício, mestre e presidente da banda de Congo Mãe Petronilha de Araçatiba, era cedo, por volta das 9horas. Quando cheguei ele estava do lado de fora da casa. Chovia uma chuvinha fina e fria. Ele estava se despedindo de uma visita, um parente, que parece, tinha pernoitado em sua casa. Estava ele e sua esposa. Após cumprimentar e se identificar. Perguntamos se ele poderia contribuir com uma pesquisa que estva realizando sobre Araçatiba e ele disse que sim. Me chamou para entrar em sua casa. A maquina de lavar roupa estava ligada com um barulhinho constante, baixo, um passáro cantava o tempo todo, parece que estava numa gaiola, um canto de um passáro assustado. Sr. Alício ficou em pé e me pediu para sentar no sofá da casa. Depois de sentar, vi que ele ficou em pé e não sentou. Fiquei incomodado com ele e pedi que se sentasse, e ele falou que preferia ficar em pé mesmo. Com um sorriso sereno e um semblante firme e alegre, Sr. Alício, disse que poderia perguntar o que quisesse. 
Fiz a pergunta: 
Qual a importância do Congo para ele e o que significava? 
- O congo faz parte da vida do povo antigo, os negros “carambola”, “colombola”...quilombola. A importância era tanto que o pessoal gostava muito, cantava nas festas de folia de reis que hoje não existem mais. Só existiam no tempo da minha vó, que o Congo tinha mais força e parecia melhor. 
Qual o nome de sua Vó? E por que era melhor na época dela?
- No tempo da minha vó Mãe Petronilha era mais animado, pois ela animava, fazia as festas. Ela e o esposo dela, o Sr. Emilio Moreira. Que morreu bem depois dela. E ela era a rainha. 
Qual o papel da rainha? 
- Carregar a bandeira, se vestir com roupas diferentes e animar a festa. 
Hoje o Sr é o mestre e presidente? 
- Sim, quem puxa o congo é o mestre e como fiquei sem dente fica ruím de apitar e por isso convidei o Ademir para fazer um teste, ele fica como um segundo mestre. Mas quando é para saír para fora eu vou como mestre. 
E o apito como é usado? 
- O apito é usado pelo mestre para iniciar e finalizar o canto no congo. Oberva nas músicas e você vai perceber. 
Como o Congo é passado para as crianças? 
- As crianças aprendem junto com o pessoal. Geralmente as crianças vão junto quando a gente faz as apresentações, pegam o tambor e batem. Eles aprendem vendo e batendo, descobrem como bate tambor

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.