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Arbitragem em direito societário   Pedro A. Martin   fls. 1 até 119

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da arbitragem para fazer incidir 
leis imperativas ou até de ordem pública, que serão aplicadas pelo árbitro, 
tendo este, para tal fim, a mesma competência que o juiz. Em segundo lugar, 
o árbitro é um juiz sem poder coercitivo, podendo, pois, praticar todos os atos 
e tomar as decisões que cabem ao judiciário. Somente sofre eventuais limita-
ções quando se trata da execução coativa das decisões, necessitando, pois, do 
apoio do Poder Judiciário. Uma das ideias-força da tese é, pois, a existência de 
urna parceria público-privada com vistas à prestação dos serviços judiciários, 
que, no entendimento do autor, fortalece e até rejuvenesce a arbitragem. 
Outro aspecto da tese que nos parece da maior relevância é a visão que o 
autor tem do caráter de verdadeiro instrumento social da arbitragem e da 
função teleológica do árbitro. Reconhecendo, com a melhor doutrina recente, 
que a ordem pública societária se caracteriza pela sua relatividade e incerteza, 
o autor atribui ao árbitro a função não só de resolver as disputas, mas também 
de fazê-lo de modo eficiente e equitativo. Trata-se de não olhar somente para 
o passado, mas de encontrar fórmulas equilibradas para a convivência dos 
sócios e a sobrevivência da sociedade- se possível - no presente e no futuro. A 
doutrina arbitral deve, assim, adotar os princípios que regem o nosso Código 
C ivil: a eticidade, a solidariedade e a socialidade. 
Não se trata mais de examinar cada cláusula do contrato e os litígios dela 
decorrentes como constituindo uma unidade, um átomo, mas é preciso colo-
cá-los no contexto das relações entre as partes, examinando o passado das 
mesmas e construindo o seu futuro. Adotando a lição de Eduardo J. Couture, 
o autor considera que "interpretar é alguma coisa mais do que descobrir, é 
relacionar", e, também, de acordo com E mílio Betti, é o ufficio di vivificare. 
Do mesmo modo, inspirando-se na doutrina francesa, vê na jurisdição 
arbitral mais do que um instrumento para a solução de angústias conflituosas, 
pois almeja garantir a paz social, sendo catalizador da mesma. O árbitro, como 
o juiz, abandona, assim, o papel passivo que tinha no passado, para "encami-
nhar soluções, enfatizar o que é útil e sancionar os abusos". Ao juiz pacifica-
dor, que se limita a ouvir as partes e a verificar se as regras legais foram 
devidamente aplicadas, substitui-se, assim, o juiz ativo, construtor e indutor 
ou criador de soluções adequadas, que já se denominou "o juiz treinador" (!e 
juge entraineur}. 
Há, assim, três funções que são exercidas pelo árbitro. Em primeiro lu-
gar, cabe-lhe resolver o litígio que lhe é submetido de modo eficiente ou, 
conforme o caso, induzir as partes a encontrarem soluções negociadas que, 
algumas vezes, não podem ser determinadas pelo tribunal arbitral. Em segun-
do lugar, ele participa da construção da jurisprudência arbitral, cuja evolução 
se reveste de maior importância, especialmente nas fases de grandes transfor-
mações sociais ou tecnológicas, nas quais se torna maior o atraso da legislação 
e da jurisprudência em relação aos fatos. 
Finalmente, ele é um garantidor da paz social, e, especialmente, da so-
brevivência da empresa num clima construtivo e de harmonia. Pode-se, até, 
concluir que, na arbitragem societária, ele tem, ou pode ter, uma competência 
maior do que a do juiz, quando ela lhe é atribuída pelas partes, para encontrar e 
aplicar soluções inspiradas no pragmatismo ético. Cabe-lhe conciliar a eficiên-
cia e a rapidez exigidas pelos problemas da companhia, com a escala de valores 
que se impõe nas relações comerciais, a função social da empresa e a segurança 
jurídica. Para tanto, poderá recorrer não só à legislação aplicável ao contrato, 
mas, também, à sqft law e à !ex mercatoria, cujos princípios estão, hoje, conso-
lidados em vários instrumentos internacionais. 
A obra de Pedro Batista Martins não se limita, pois, a ser urna excelente 
consolidação do que de melhor se escreveu na matéria, mas também abre 
novos caminhos para a arbitragem no direito societário e o faz com coragem, 
excelente argumentação e lógica irrefutável. Na batalha que se trava pela com-
pleta aceitação da arbitragem nos conflitos societários, o livro evidencia a vitó-
ria dos que defendem a tese pro arbitrandum. 
Em conclusão, cabe lembrar a lição de Tullio Ascarelli, quando ensina 
que, ''na atual crise de valores, o mundo pede aos juristas ideias novas, mais do que 
sutis interpretações". São essas ideias novas e construtivas que encontramos na 
obra de Pedro Batista Martins. 
ARNowo W ALD 
NoTAS I NTRoouTóRIAs 
Foi com grande prazer que aceitei o convite do Autor para escrever estas 
notas de introdução ao seu excelente livro. 
Pedro Batista Martins tem participado de maneira brilhante do desen-
volvimento da arbitragem. Foi coautor do anteprojeto que resultou na L ei 
9.307/1996, escreveu vários livros e artigos sobre a matéria e tem destacada 
atuação na prática da arbitragem, quer como advogado, quer como árbitro. 
A arbitragem tem inequivocamente apresentado enorme desenvolvimento 
nos últimos anos, entre nós, particularmente após a declaração de sua constitu-
cionalidade pelo STF, em 2011. ~em quer que atue na área do Direito E m-
presarial sabe que praticamente não há acordo de acionistas ou contrato de 
maior complexidade em que não se preveja cláusula compromissória. 
O Autor enfrenta no presente livro tema de maior atualidade, uma vez 
que cada vez mais os litígios societários, por sua própria natureza, serão resol-
vidos pela via arbitral. 
A Lei das Sociedades por Ações sofreu alterações importantes com a 
promulgação da Lei n° 10.303/2001, a qual introduziu uma série de modi-
ficações, com intuito de adequar o mercado de capitais brasileiro às práticas 
de governança corporativa mais avançadas. Uma das alterações mais impor-
tantes foi a inserção do §3° ao artigo 109 da Lei das S.A., permitindo que as 
companhias prevejam em seus estatutos cláusulas compromissórias aplicáveis 
a disputas oriundas das relações entre a companhia e seus acionistas ou entre 
os acionistas minoritários e o acionista controlador. 
A arbitragem no direito societário é mais vantajosa do que a solução de 
litígios pela via do Judiciário, pois permite que as relações corporativas possam 
ser mantidas a longo praw. Essa situação decorre do fato de a arbitragem ser um 
mecanismo alternativo de solução de controvérsias em que as partes podem 
determinar a lei aplicável ao mérito do litígio e controlar os custos do procedi-
mento, buscando desenvolver um comportamento mais cooperativo entre elas. 
Ainda que a arbitragem não seja financeiramente adequada para todo e 
qualquer litígio, relações decorrentes de contratos de execução prolongada ou 
situações em que as partes já são antigas parceiras comerciais se ajustam me-
lhor a esse procedimento, que permite a indicação de árbitros especializados 
na matéria. Ademais, permite a solução rápida dos conflitos, o que é de funda-
mental importância para as companhias e os empresários, que não podem ficar 
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à espera de decisões por muito tempo, pelos prejuízos evidentes que ocasionam 
tais demoras ao desenvolvimento normal das atividades empresariais. 
O Novo Mercado, segmento especial de listagem das companhias aber-
tas na BM&FBOVESPA, alcançou enorme desenvolvimento nos últimos seis 
anos. Particularmente no ano de 2007 verificamos um significativo aumento 
no número de ofertas públicas de ações; naquele ano, o volume total de recur-
sos captados em ofertas primárias (59 registros) e secundárias (103 registros) 
situou-se na faixa de 67 bilhões de reais. 
Temos, presentemente, 144 companhias abertas com ações listadas no Novo 
Mercado e no Nível2 da BM&FBOVESPA. Tais companhias, dentre outras 
boas práticas de governança corporativa que devem seguir, comprometem-se a 
resolver

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