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Arbitragem em direito societário   Pedro A. Martin   fls. 1 até 119

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seus litígios societários pda via arbitral, na Câmara de Arbitragem do 
Mercado. Ou seja, todos os conflitos societários de expressivo número de com-
panhias abertas serão, necessariamente, decididos mediante arbitragem. 
No direito societário, as duas questões mais importantes na decisão dos 
conflitos mediante arbitragem são: a arbitrabilidade subjetiva e a arbitrabilidade 
objetiva. Ou seja, saber quem se submete à arbitragem - questão complexa pois 
envolve o alcance da cláusula compromissória estatutária- e quais as matérias do 
direito societário que, por tratarem de direitos disponíveis, podem ser decididas 
pela via arbitral. O Autor enfrenta com grande proficiência, utilizando argu-
mentos teóricos e práticos, as duas questões. Também analisa, de forma bastante 
completa, a vinculação à cláusula compromissória estatutária dos cessionários de 
ações, bem como dos novos acionistas em hipóteses de reestruturação societária 
decorrente de transformação, incorporação, fusão e cisão. 
São ainda objeto do seu estudo outras questões de direito societário rele-
vantes como: a utilização da arbitragem pelas sociedades de economia mista; a 
arbitrabilidade dos conflitos surgidos na constituição da companhia; a arbi-
trabilidade de questões envolvendo o direito de recesso; a utilização da arbi-
tragem na dissolução e na recuperação da empresa. 
No trato de todas as matérias o Autor, além de revelar-se um entusiasta da 
arbitragem na solução dos conflitos societários, demonstra enorme conhecimento 
teórico do direito brasileiro e do direito comparado e vivência prática na matéria. 
Assim, é com grande entusiasmo que recomendo a leitura desta obra 
pioneira de Pedro Batista Martins. 
NELSON EIZIRIK 
NoTA oo AuToR 
Enquanto no prelo o presente trabalho, a Lei Espanhola de Arbitragem 
(Lei n. 60/2003) mencionada em certas passagens neste livro foi alterada pela 
Lei n. 11, de 20 de maio de 2011, inclusive para inserir artigos sobre arbitra-
gem estatutária. 
Nesse particular, dita lei fixou quorum qualificado - a nosso ver, excessi-
vo - de "dois terços dos votos correspondentes às ações ou participações em que se 
divide o capital social" para a introdução de cláusula compromissória nos esta-
tutos sociais. Incluiu também dispositivo autorizando a sujeição à arbitragem 
das controvérsias que envolvam "a impugnação dos acordos sociais pelos sócios ou 
administradores"". 
Essas alterações - a rigor - não são de todo relevantes para o presente 
estudo, visto que as referências nele constantes à doutrina e decisões espanho-
las quanto a essas alterações são anteriores à Lei n. 11/2011, momento no 
qual as discussões travadas não se encontravam positivadas, tal qual a atual 
realidade brasileira. 
Lei Espanhola n. 11 /201 1, art. 11.bis. (2). Tradução livre. De acordo com o art. 1o da Lei 
Espanhola de Sociedades de Capital, o capital das sociedades anôn imas e de comand1ta por 
ações é dividido em "ações", enquanto o capital das sociedades limitadas e m "participações. 
Le i Espanhola n. 11/2011 , art.11.bis.(3). Tradução livre. Nos te rmos da Lei Espanhola de 
Sociedades de Capital, "acordos sociais" são as deliberações da Assemble1a Geral. 
INTRODUÇÃO 
Abordagem Metodológica 
e Estrutura do Trabalho 
20- ARBITRAGlM NO 0 1RCITO SOCIETÁRIO 
O presente trabalho de investigação tem por objeto analisar e propor 
construções jurídicas sobre questões que envolvem a adoção do instituto da 
arbitragem no seio das sociedades anônimas abertas, notadamente no que diz 
com o direito brasileiro e espanhol. 
Trata -se, portanto, de estudo voltado para os temas e obstáculos que 
surgem na adoção da arbitragem para a solução de conflitos interna corporis. 
Com isso restam afastadas, portanto, as matérias atinentes ao uso da arbitra-
gem nas relações das empresas com terceiros, sejam parceiros, fornecedores ou 
contraparte em atos de comércio e demais negócios empresariais. 
Por suposto, não é pretensão deste trabalho esgotar todas as matérias e 
debates que podem surgir de tema tão amplo, notadamente no que toca a 
arbitrabilidade objetiva das controvérsias societárias, razão pela qual o estudo 
se concentra em determinados temas de relevância e cuja prática societária é 
mais usual. 
Não se está a pretender fazer uma análise profunda e conceitual dos dis-
tintos institutos e hipóteses de direito societário, exceto no limite necessário de 
se verificar seu potencial impacto positivo ou negativo no que tange a eficácia da 
cláusula compromissória constante dos estatutos sociais da companhia. 
Para levar a cabo esse objetivo, é preciso, previamente, fazer uma breve 
referência à terminologia empregada. Muito embora o estudo trate de hipóte-
ses atinentes aos direitos espanhol e brasileiro, a bem da verdade tanto os 
conceitos como os nomen juris insertos no direito arbitral quanto no direito 
societário de cada um desses países bastante se aproximam a despeito de certas 
nuances e diferenciações. 
Por essa razão, em grande parte do trabalho me refiro ao tema objeto de 
atenção a partir de uma proposição comum aos distintos sistemas jurídicos. 
Tal é possível dada a universalização dos princípios que norteiam a arbitra-
gem e a aproximação de muitos dos conceitos lançados nas leis brasileira e 
espanhola de arbitragem, respectivamente, dos anos de 1996 e 2003. 
Nesse particular, ressaltem-se os princípios da autonomia da cláusula com-
promissória e o da Kompetenz-Kompetenz amplamente difundidos em matéria 
de direito arbitral. A autonomia da vontade e a disponibilidade dos direitos são 
outros dois dos pressupostos comuns às legislações espanhola e brasileira. 
O mesmo se pode dizer da orientação jurídica que norteia as legislações 
do anonimato espanhola e brasileira. O regime comum da civillaw as aproxi-
PEDRO A. BATISTA MARTINS - 21 
ma no seu todo, sem embargo de certas distinções naturais mas que pouco 
impactam os fins pretendidos com o presente trabalho. 
O princípio majoritário das deliberações sociais é pressuposto particular, 
relevante e universal às sociedades anônimas. A estruturação das sociedades 
anônimas, com os órgãos que a compõem, os direitos de voto e de fiscalização, 
a responsabilidade dos administradores e a sua dissolução e liquidação estão 
presentes no direito do anonimato espanhol e brasileiro. 
Esses pontos de contacto entre os direitos arbitral e societário de ambas 
as jurisdições, autorizam, regra geral, o desenvolvimento do presente trabalho. 
Sob o ângulo da originalidade do tema como justificativa para sua elabo-
ração penso que esta se afirma tanto do ponto de vista teórico quanto prático. 
Deve-se, de início, a crescente utilização pelas empresas da arbitragem como 
método de resolução de seus conflitos. Conquanto esse incremento seja perce-
bido nas relações que envolvem negócios comerciais com terceiros, o fato é que 
a opção pela arbitragem já se faz notar fortemente nos acordos parassociais (v.g. 
acordos de acionistas) o que tem resultado na sua inserção interna corporis. 
Cresce, portanto, o número de sociedades anônimas que incorporam cláu-
sula de arbitragem nos seus estatutos sociais como forma de solucionar, de modo 
célere e confidencial, os conflitos existentes entre sócios e entre estes e a socieda-
de, incluindo os impasses nas deliberações de seus órgãos sociais. 
Não obstante a difusão da arbitragem no campo societário, ainda é incipien-
te a atuação legislativa nesse particular e também tímida a doutrina a respeito das 
relevantes questões de ordem teórica que se apresentam no seu enfrentamento. 
Em 2003 a Itália dispôs sobre o tema em seu direito positivo; o mesmo 
aconteceu, mais recentemente, no Perú, no ano de 2008. O Brasil tratou da 
matéria de forma genérica, com a introdução de um parágrafo ao art. 109 da 
sua Lei do Anonimato, em 2001. 
A matéria, contudo, é ainda esquecida do legislador

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