A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
60 pág.
Arbitragem em direito societário   Pedro A. Martin   fls. 1 até 119

Pré-visualização | Página 6 de 37

aos diretores estatutários e membros dos 
Conselhos de Administração e Fiscal. 
Mais adiante, nesse mesmo Capítulo 3, o presente trabalho procura de-
monstrar a efteácia continuativa da cláusula compromissória estatutária na hi-
pótese de cessão de participação acionária. Essa análise teve por suporte argumentos 
jurídicos embasados na doutrina e na jurisprudência internacional. 
Nessa seara, o trabalho enuncia a vinculação dos novos acionistas ao convênio 
de arbitragem por força de operações de incorporação, fusão e cisão, bem como 
algumas ponderações sobre a arbitrabilidade subjetiva no que tange aos conflitos 
derivados de acordos que aprovam os atos societários antes mencionados. 
Ao fim, uma breve referência à arbitrabilidade subjetiva oriunda de con-
flitos resultantes da transformação do tipo societário, situação que encerra 
algumas das considerações adotadas aos atos societários antes referidos. 
Dada as características e peculiaridades que ditam as sociedades anôni-
mas sob controle estatal, a arbitrabilidade subjetiva a elas atinentes foi tratada 
em capítulo apartado. Foi dado um enfoque contemporâneo do cenário em 
que elas se encontram inseridas e o da alegada incapacidade jurídica dessas 
empresas se comprometerem, ausentes certas condições prévias. Os princípios 
foram expostos, bem como a nova visão do direito administrativo e a partici-
pação dessas sociedades no comércio internacional. Tudo de forma a afastar 
teses conservadoras que tendam a boicotar a arbitragem nas relações envol-
vendo ditas sociedades. 
Passando-se ao Capítulo 6 e último do trabalho, são enfrentadas certas 
matérias que normalmente resultam em conflitos no seio das sociedades anô-
nimas. A relevância do estudo, nesse particular, diz com o debate existente 
quanto à arbitrabilidade dessas questões. 
Com efeito, dado que somente os direitos disponíveis são passíveis de sujei-
ção à arbitragem, o estúdo enfoca, em seu início, as nuances e diferenças existen-
tes entre as normas de ordem pública e o conceito de indisponibilidade, visto 
que, não raro, alguns doutrinadores os encerram em um mesmo e único campo e, 
consequentemente, postulam pela inarbitrabilidade de grande parte dos confli-
tos societários à luz das normas de ordem pública insertas na lei do anonimato. 
Outra matéria também debatida na seara da arbitrabilidade objetiva des-
ponta dos conflitos de natureza negociai e a possibilidade de o árbitro resolvê-
-los dado que, nesses casos, não se estaria aplicando o direito ao caso concreto. 
26- ARBITRAGI:M NO DIREITO SOCIFTÁRIO 
Em outros termos, ao árbitro somente seria possível dirimir controvérsias de 
direito. O estudo procura mostrar a nova tendência do exercício jurisdicional 
e a irrazoabilidade que esse entendimento resta por gerar. 
Os direitos políticos também são tratados à vista do requisito da patrimo-
nialidade constante da lei de arbitragem brasileira. O voto, expressão maior 
desses direitos, é analisado sob o ângulo do seu exercício finalístico no âmbito 
das sociedades anônimas, de interesse patrimonial, ao reverso daquele exercido 
como expressão da cidadania. Daí se concluir pela possibilidade de sujeição das 
disputas da espécie à resolução por arbitragem. 
Não passa em branco o debate sobre a possibilidade de solução por arbi-
tragem dos conflitos relativos à constituição da sociedade e daquelas objeto de 
impugnações de deliberações assembleares. Nesse contexto, o estudo aborda o 
tema da anulação e da nulidade, bem como a vinculação de todos os acionistas 
à decisão arbitral, pouco importando se tenham ou não sido partes integrantes 
do processo. 
E vai mais além ao tratar, também, das hipóteses em que a decisão as-
semblear questionada atinge direitos de terceiros, tema esse que transita tanto 
pelo plano jurídico quanto pelo prático. A doutrina não olvida o debate e o 
estudo expressa, ainda, visão mais contemporânea no sentido de se flexibilizar 
a participação voluntária de terceiros, à vista dos novos paradigmas da teoria 
geral dos contratos, tais como a mitigação do princípio da relatividade e do 
individualismo. 
A arbitrabilidade dos conflitos que implicam em responsabilização de 
administradores é tratada sob o prisma das ações social e individual com as 
devidas reservas quanto ao efetivo alcance da cláusula compromissória nas 
hipóteses em que o acionista demanda diretamente e em nome próprio contra 
o administrador. 
As questões que envolvem violação a direitos de informação e de recesso, 
assim como aquelas que se referem à dissolução da sociedade, concluem o 
presente estudo e foram objeto de análise conceitual e doutrinária. 
CAPÍTULO 1 
Arbitragem Como 
Paradigma de Justiça para 
Os Grupos Sociais. 
Uma Visão Filosófica 
28- ARBITRAGEM NO DIREITO SOCIETÁRIO 
1. INEXISTE MONOPÓLIO jUDICIÁRIO 
O instituto da arbitragem, na concepção jurídica do termo, ordena siste-
maticamente o conjunto de regras e princípios que norteiam a solução extra-
judicial dos conflitos. 
A finalística do instituto, per se, ressalta toda a sensibilidade sociopolítica 
que envolve a arbitragem. Com ela se busca a solução dos conflitos fora da 
arena estatal. Se, por um lado, a arbitragem funciona como um equivalente da 
justiça comum, em cooperação com o Estado na realização de uma de suas 
tarefas básicas - pacificação dos litígios - , por outro, justamente por essa equi-
valência e imbricamento com uma das funções do Estado, ainda gera (embora 
hoje em rota decrescente) reações políticas e ideológicas de pessoas e grupos 
que não enxergam legitimidade no instituto, reduzindo-o a mera instância 
co~ciliadora, sem qualquer efeito legal, ou mitigando a aplicação de seus pre-
ceitos, de forma a reduzir seu vigor jurídico. 
Essa corrente que minimiza o alcance jurídico da arbitragem sustenta 
seu entendimento na existência de um monopólio do Poder Judiciário, no 
trato da solução das controvérsias, que o coloca como único órgão capaz de 
ditar a definitividade do direito. 
Desse pensamento monopolista do Judiciário se pode abstrair o modelo 
ideológico em que se sustenta essa corrente doutrinária, qual seja, a da valori-
zação do Estado como ente supremo na condução da sociedade e, particular-
mente, na pacificação de suas crises interpessoais. O ponto nevrálgico do modelo 
está na supremacia do Estado frente à vontade individual dos seus jurisdicio-
nados. Somente o Estado pode pacificar os conflitos porque o Estado é o 
único ser legítimo e capaz para executar essa função. 
Esse modelo ideológico, conquanto embasado em fundamentos de Direito aca~a. por dar guarida ao Estado-Providência, de muito paternalismo e pouc~ 
efetlVldade, e a subtrair do cenário jurídico o princípio da autonomia privada que 
dá vida às qualidades individuais, com retorno positivo à sociedade, sob a singela 
alegação da existência de um monopólio Judiciário na realização da justiça. 
E aqui reside um de seus equívocos. Nesse ponto, discordo do pressuposto 
de que todas as crises de relacionamento devam ser objeto de análise judicial. 
Não é razoável se admitir que os litígios somente possam, e devam ser 
resolvidos, efetivamente, pela justiça comum. 
PCDRO A. BATISTA MARTINS - 29 
De antemão, em contraponto a essa pretensa exclusividade judiciária, vê-se 
o cidadão, com certa frequência, no cotidiano de suas relações jurídicas, transa-
cionar o direito e a obrigação objeto da demanda, de modo a prevenir o litígio. 
Mesmo estando em curso o processo judicial, a própria lei autoriza (quiçá, in-
centiva) as partes a transacionarem sobre o objeto em que se funda a ação. 
Com a transação, os interessados põem em marcha, sem a interveniência 
estatal, a autorregulação dos seus interesses individuais, com a resolução do con-
flito por manifestação própria de vontade. Sob outro prisma, a transação exclui a 
participação do Estado e, nem por isso,

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.