A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
116 pág.
A legislação e o marketing de produtos que interferem na amamentação

Pré-visualização | Página 6 de 44

com fome, chorando, pode deixar a mãe tensa e insegura, criando um círculo vicioso que pode 
levá-la rapidamente a aceitar a introdução da alimentação artificial. Portanto, o papel do profissional de saúde 
é fundamental para o início e a manutenção da amamentação (KING, 1998). 
2.3 A história do desmame 
Um olhar histórico sobre o declínio do aleitamento materno nos últimos cento e cinquenta anos revela 
que milhões de bebês morreram por diarréias, infecções respiratórias e desnutrição como consequência da 
falta de amamentação. 
Muitos fatores (PALMER, 1988) podem ser apontados como responsáveis pelo desmame precoce que 
assolou o mundo nos séculos XIX, XX e continuam presentes neste século: o movimento higienista introduziu 
rotinas hospitalares de separação impeditivas do início do aleitamento natural ao nascimento, o uso de berços, 
a limpeza dos mamilos, os horários fixos e a abolição das mamadas noturnas; o empoderamento dos médicos 
nos cuidados com as crianças, com suas crenças de que a prática de amamentar debilitava a saúde das mães; a 
desvalorização do saber das mulheres que levou à perda dos conhecimentos sobre a posição e a pega no seio; a 
revolução industrial com a entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho; e o avanço das estratégias de 
marketing das empresas de alimentos infantis que incentivavam o uso da alimentação artificial. 
17
A saída para as mulheres com problemas para amamentar ou para as que desconheciam a importância 
de fazê-lo era a introdução de leites de outras espécies ou o uso de amas de leite, geralmente mulheres das 
periferias das cidades ou do campo, nem sempre facilmente disponíveis.
Em 1853, houve o lançamento do “leite condensado” (um leite de vaca desnatado, adoçado e condensa-
do) como um alimento apropriado para bebês. Para as mães essa parecia ser a solução de seus problemas, pois 
esse leite não necessitava de geladeira para conservação e seus bebês podiam ser alimentados em casa: uma 
vaca na prateleira (PALMER, 1988). Por volta de 1872 não haviam dúvidas de que esses leites eram respon-
sáveis por altas taxas de mortalidade infantil na Grã-Bretanha. Em 1911, num relatório (COUTT, 1911) 
sobre o seu uso, Coutts fez as seguintes declarações: “É necessário que sejam examinadas cuidadosamente as 
afirmações que aparecem nos rótulos e anúncios, para observar até que ponto tais afirmações são verdadeiras 
ou enganosas e até que ponto elas tendem a encorajar alguma ação não desejada ou até mesmo perigosa”.
O estudioso descobriu casos em que as mulheres eram enganadas intencionalmente, por exemplo, um 
leite condensado e desnatado era vendido sob a marca “GOAT” (cabra) e tinha a figura de uma cabra na lata, 
que levava as mães a pensarem que se tratava de leite de cabra enlatado, considerado como o melhor substitu-
to do leite materno na época. A partir de suas observações, Coutts propôs a obrigatoriedade de adicionar uma 
afirmação nos rótulos do leite condensado: “LEITE IMPRÓPRIO PARA CRIANÇAS”, que foi aceita. No 
entanto, quarenta anos se passaram e muitas vidas se perderam, desde a identificação do problema até o início 
de alguma ação para enfrentá-lo.
Em 1890, médicos da Universidade de Harvard diluíram o leite de vaca e adicionaram compostos quí-
micos variados (SOKOL, 1999), na tentativa de adequar esse alimento, conforme a percepção que tinham 
acerca das necessidades dos bebês em várias idades. Nasceu a “Fórmula Infantil”. A partir daí, várias fórmulas 
genéricas foram desenvolvidas e amplamente promovidas pela indústria de alimentos. Consequentemente, as 
fórmulas personalizadas perderam lugar para as industrializadas, gerando um grande descontentamento no 
meio médico, que passou a desaconselhar seu uso. A indústria reconheceu que o afastamento desses influen-
tes profissionais ia contra seus interesses econômicos. Os fabricantes concordaram em não incluir instruções 
nas embalagens e, em vez disso, aconselhavam as mães a procurarem seu médico antes de usar o produto. 
Assim surgiu a associação “Médicos-Indústria”. 
As estratégias usadas para conquistar o mercado consumidor foram se ampliando e, em 1939, Cicely 
Williams (SOKOL, 1999), a pediatra que primeiro associou o kwashiorkor à deficiência de proteínas, decla-
rou que as mortes decorrentes das propagandas dos alimentos infantis deveriam ser consideradas como “um 
assassinato em massa”. A Dra. Williams já havia documentado anteriormente o dano causado pelas “enfermei-
ras vendedoras” (estratégia utilizada pela indústria de colocar suas funcionárias vestidas como enfermeiras) 
que orientavam mães trabalhadoras na Grã-Bretanha a usarem o leite condensado. 
Enquanto os rótulos tornavam-se mais atraentes, com lindos bebês mostrados com mamadeira estampa-
dos nas latas, os anúncios das fórmulas infantis em jornais e revistas leigas se intensificavam. Adjetivo como 
“leite maternizado” foi criado, por exemplo, para definir uma certa fórmula de leite de vaca em pó. As propa-
gandas tornaram-se mais criativas e foram sendo associadas às autoridades médicas e científicas. Elas também 
gradativamente invadiram as revistas médicas, especialmente as pediátricas (GOLDENBERG, 1988). 
18
Nas escolas médicas o ensino da amamentação era quase nulo. As indústrias tinham acesso direto aos 
alunos e ministravam aulas demonstrativas sobre o preparo de fórmulas e o uso de seus produtos. Uma série 
interminável de presentes era generosamente distribuída, todos com nome ou logotipo do fabricante, para 
garantir que a marca fosse facilmente reconhecida pelo médico. As empresas forneciam impressos e materiais 
variados como réguas, balanças, antropômetros, relógios, equipamentos, mobiliários, salas de recreação, etc. 
Quando os pediatras se tornavam pais, as companhias os presenteavam mensalmente com fórmulas infantis, 
em quantidade suficiente para alimentar o bebê durante todo o primeiro ano de vida. Também ofereciam 
bolsas para pesquisas, promoviam reuniões científicas, concursos literários, almoços, viagens, diversão e uma 
infinidade de favores e serviços (GOLDENBERG, 1988). 
As visitas dos propagandistas aos médicos eram realizadas nos consultórios, clínicas, universidades e am-
bulatórios e o uso de seus produtos era reforçado por palestras de profissionais patrocinados pelos fabricantes 
e pela subvenção aos médicos, para que assistissem às conferências, o que ( JELLIFFE, 1971) considerou ser 
uma “manipulação para garantir presença”. 
Muitas latas de leite foram doadas para serem distribuídas nas unidades de saúde. As mães frequente-
mente ganhavam uma lata de leite em pó à saída da maternidade, estivesse ou não a criança em aleitamento 
natural. Era comum receberem também uma receita de leite artificial para dar continuidade ao produto usado 
no berçário, ou para introduzi-lo se necessário, antes mesmo da primeira consulta de acompanhamento da 
criança (GOLDENBERG, 1988). 
As unidades de saúde aceitavam de bom grado os cartazes dos fabricantes para decorar as paredes mo-
nótonas das suas salas. As indústrias produziam livretos sobre “orientação alimentar” para serem distribuídos 
às mães. Tais cartazes e livretos muitas vezes continham instruções de como preparar os leites artificiais e 
alimentar com mamadeira ou sobre a introdução precoce de alimentos para o bebê (SOKOL, 1999). 
A tendência à alimentação artificial por mamadeira espalhou-se muito rapidamente. O México (SOKOL, 
1999) por exemplo, onde quase 100% dos bebês de 6 meses eram amamentados em 1960, passou a apresentar 
uma taxa de amamentação inferior a 9% em 1970. Derrick Jelliffe ( JELLIFE, 1971) criou a expressão “des-
nutrição comerciogênica” para descrever o impacto das estratégias de promoção comercial das indústrias de 
alimentos sobre a saúde das crianças. 
Em 1974, Mike Muller (MULLER, 1995) documentou as consequências do marketing das indústrias: 
Esses resultados podem ser vistos nas clínicas

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.