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Malatesta A lógica das provas em matéria criminal

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modo de ser 
ordinário das coisas, chega-se apenas a conclusões prováveis; 
partindo ao contrário da premissa do modo de ser constante das 
coisas chega-se a deduções certas. E fecho o parêntesis. 
Concluindo, o raciocínio presuntivo deduz o conhecido do 
 
 
188 A Lógica das Provas em Matéria Criminal 
desconhecido por ria do princípio da identidade; o raciocínio 
indicativo por via do princípio de causalidade. 
Mas qnereis uma contraprova da verdade da nossa tese? 
A contraprova está na íorma diversa em que costuma expressar-se 
a presunção e o indício; forma diversa, que só se explica com a 
nossa teoria. 
O raciocínio indicativo reduz-se ordinàriamente a um enti-
mema, em que a maior é omitida; costuma dizer-se, por exem-
plo: Ticio fugiu; logo é culpado. O raciocínio presuntivo, ao 
contrário, reduz-se ordinàriamente à simples conclusão, supri-
mindo-se as duas premissas, maior e menor; costuma dizer-se, 
por exemplo, simplesmente: o argüido presume-se inocente. 
Na nossa teoria é clara a razão. Está no diverso caminho que 
se toma para chegar ao conhecido, a razão porque ao enunciar 
como prova a presunção, se costumam omitir ambas as premissas, e 
ao enunciar como prova o indício, se costuma suprimir 
ùnicamente a maior. Vejamos. 
Tanto o raciocínio presuntivo como o indicativo teem sem-
pre uma maior, que é dada pela experiência comum. Referiudo--
nos aos exemplos precedentes, tanto o princípio específico da 
identidade, expresso pela proposição: os homens são ordinària-
mente inocentes; como o princípio específico da causalidade 
expresso pela proposição: a fuga em certas condições dadas ê 
ordinàriamente ejeito da consciência do crime', tanto um prin-
cípio como o outro, dizia, são atingidos pela experiência comum, 
e julga-se por isso inútil enunciá-los. Eis porque a maior, tanto 
no raciocínio presuntivo como no indicativo, pode omitir-se igual-
mente: ela supõe-se em tôdas as consciências. 
Quanto à menor, o caso é diverso, para ambos os raciocínios. 
No raciocínio presuntivo, a maior só afirma a compreensão 
da pessoa ou da coisa particular no sujeito da maior, para poder 
em seguida atribuir à pessoa ou à coisa particular o que se atri-
bui ao sujeito da maior. Assim, depois de se afirmar na maior 
do raciocínio, que os homens são ordinàriamente inocentes, 
passa-se na menor a afirmar que o argüido é um homem, para 
poder-se em seguida concluir que êle é tomado como inocente 
 
 
A Lógica das Provas em Matéria Criminal 189 
até prova em contrário. Ora, tanto nêste caso, como no de qual-
quer outro raciocínio presuntivo, a compreensão do particular no 
geral, a continência do indivíduo na espécie, é uma percepção de 
consenso comum: é compreendido por todos intuitivamente: e eis 
porque se crê também completamente inútil enunciar a proposi-
ção que afirma esta continência, e se omite a menor como a maior. 
Êste raciocínio presuntivo, como qualquer outro, costuma reduzir-
se, por isso, na linguagem comum, à simples conclusão, e 
enuncia-se, ùnicamente, com as palavras: o argüido presu-me-se 
inocente. 
Já assim não é, relativamente à menor do raciocínio indi-
cativo. No raciocínio indicativo, a menor afirma em primeiro 
lugar tôda a verificação de ura efeito particular, para atribuir-lhe 
em seguida a causa que na maior se atribui ao efeito específico, 
em que por intuição se compreende o efeito particular. Por isso, 
depois de têrmos enunciado na maior do raciocínio que a fuga, à 
primeira suspeita, é ordinàriamente causada pela consciência do 
crime, passa-se na menor a afirmar a fuga do acusado, para poder 
depois concluir que êle tem a consciência da sua criminalidade, e é, 
conseguintemente culpado. Na menor dêste raciocínio admite-se, 
por isso, sempre em primeiro lugar um facto particular, a que se 
quer atribuir uma dada causa; trata-se sempre de afirmar ou 
verificar um efeito particular, e todos vêem que não pode omitir-se 
a menor nêste caso. Não sé é necessário enunciar a menor; mas, 
mais ainda, é necessário prová-la; é necessário provar que aquele 
dado facto particular que se considera como efeito, de onde se 
quer subir ao conhecimento da causa, que aquele dado facto, que 
constitui o material do indício, se tenha verificado. 
Conseguintemente, na enunciação do raciocínio indicativo, se é 
permitido omitir a maior, nunca pode permitir-se a omissão da 
menor; é necessário dizer, pelo menos: o acusado fugiu, logo é réu. 
Nêste caso sucede o mesmo que no raciocínio indicativo; não se 
pretende deduzir a causa do efeito, mas o efeito da causa: a 
menor, em vez de conter a afirmação de um facto particular que 
se considera como efeito, deve conter a afirmação de um- facto 
particular que se considera como causa. 
 
 
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Isto não muda nada: será sempre igualmente necessário enun-
ciar e provar êste facto particular causal, se quere concluir-se a 
sua relação com um outro facto que se considera como seu efeito. I 
A diversa natureza, portanto, como nós a determinamos, do 
raciocínio presuntivo e do indicativo explica-nos a diversa maneira 
como costuma enunciar-se a presunção e o indício; coisa que 
serve de contraprova à verdade do que afirmamos. Mantenhamos, 
pois, as nossas noções como as determinamos sob o ponto de 
vista da classificação; o desenvolvimento particular de cada uma 
das classes esclarecerá e completará melhor o nosso pensamento. 
É necessário agora fazer um passo para trás. Começamos 
nêste capítulo por determinar a natureza lógica do argumento 
probatório, e vimos que se parte sempre de uma ideia geral, 
conhecida, pela qual, supondo um facto particular conhecido, se 
chega ao conhecimento de um facto particular ignoto; procura-
mos determinar que espécie de ideia geral serve de premissa às 
provas, e vimos que pelo argumento probatório só pode permi-
tir-se uma ideia geral experimental. 
Agora que determinamos também a natureza ontológica do 
argumento probatório, e aa classes em que conseqüentemente se 
divide a prova indirecta, julgamos oportuno tornar a considerar 
a natureza lógica especial da ideia geral de onde se parte, para 
poder em seguida referi-la a cada uma das classes da prova 
indirecta, à presunção e ao indício. 
 Qual é a regra lógica, pela qual o espírito humano se 
acha no direito de tirar de factos gerais uma conclusão 
particular? Deu-se um crime: os factos gerais da criação que 
ligação podem ter com esta individualidade criminosa, que 
chamamos delito? 
No grande e indefinido acervo dos factos físicos e morais, 
existem conformidades no modo de ser e de actuar físico e moral 
da natureza. Tôdas estas conformidades, atendidas sob o ponto 
de vista da causa que as produz, constituem as que chamamos 
leis naturais, leis físicas e leis morais. 
Se, ao contrário, atendermos a estas mesmas conformidades 
sob o ponto de vista da sua harmónica coexistência, constituem 
o que. se chama a ordem, que se concretiza no facto constante, 
 
 
A Lógica das Provas em Matéria Criminal 191 
ou no modo de ser e de actuar constante da natureza. É constante, 
o que se apresenta como verdadeiro em todos os casos particulares 
que se compreendem na espécie; é ordinário o que se apresenta 
como verdadeiro no maior número dos casos que se compreendem 
na espécie. Partindo da ideia de ordem como modo de ser e de 
actuar constante da espécie, deduzem-se conseqüên- 
cias certas 
relativamente ao indivíduo; partindo da ideia de ordem como modo 
de ser e de actuar ordinário da espécie, deduzem-se conseqüências 
prováveis relativamente ao indivíduo: o constante da espécie é lei 
de certeza para o indivíduo; o ordinário da espécie é lei de 
probabilidade para o indivíduo. 
Dissemos que o espírito partindo do conhecimento de uma 
coisa chega ao conhecimento de outra, quer sob