FATO ORGANIZACIONAL COM FATO SOCIAL
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FATO ORGANIZACIONAL COM FATO SOCIAL


DisciplinaAbordagem Sócio Política das Organizações13 materiais32 seguidores
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RAP R io de Ja ne ir o 35(3):131-52, Ma io / J un . 2001
O fato organizacional como fato social total*
Maurício Serva**
S U M ÁR I O: 1. Introdução; 2. Fato social em Durkheim; 3. Fato organizacio-
nal como fato social; 4. Fato social total em Mauss; 5. Sociedade de orga-
nizações e sociedade salarial; 6. Fato organizacional como fato social total;
7. Conclusões.
PA L AV R AS - C H AV E : fato organizacional; fato social total; teoria das organi-
zações. 
Atualmente parece ser consenso que nunca vivemos numa sociedade em
que o indivíduo depende tanto da ação de organizações formais para a satis-
fação de suas necessidades. Assim, analisar as organizações passa a ser uma
tarefa desafiadora, necessitando a teoria das organizações do apoio das
demais ciências humanas, tal como a antropologia e a sociologia. Baseado
nos estudos de Marcel Mauss, Émile Durkheim e Guerreiro Ramos, propo-
nho o tratamento do fato organizacional como fato social total, visando
aperfeiçoar os estudos e ampliar os horizontes da teoria das organizações.
The organizational fact as a total social fact
There seems to be a consensus that never have we lived in a society in which
the individual depended so much in the action of formal organizations for
the satisfaction of its needs. Thus, the analysis of organizations becomes a
challenging task, and organizational theory needs the support of the other
human sciences, such as anthropology and sociology. Based on the studies
by Marcel Mauss, Émile Durkheim and Guerreiro Ramos, this paper pro-
poses to analyze the organizational fact as a total social fact, seeking to
improve the organizational theory.
* Artigo recebido em jun. 2000 e aceito em mar. 2001. 
** Doutor em administração pela EAESP/FGV e professor titular da Unifacs. O autor agradece
ao professor Pedro Jaime Júnior pelas críticas e sugestões à primeira versão deste texto. Entre-
tanto, a responsabilidade pela versão final é unicamente do autor.
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1. Introdução
Desde os anos 1950, as organizações, seus fenômenos intrínsecos e suas inter-
faces com a sociedade vêm sendo objeto de estudo da sociologia. Baseados na
obra de Max Weber, autores como Talcott Parsons, Amitai Etzioni, Philip Selz-
nick, Peter Blau e Robert Merton desenvolveram vários estudos que vieram a
constituir o campo da sociologia da burocracia, mais tarde ampliado e rebatiza-
do como sociologia das organizações. A partir de então, ficou implícito que todos
os autores filiados a tais campos de estudos consideravam o fato organizacio-
nal como um fato social, pois digno de ser objeto da sociologia.
Todavia, a necessária explicitação do fato organizacional como fato so-
cial, apontando devidamente as conseqüências epistemológicas deste ponto
de vista analítico, não foi fornecida por nenhum dos autores mencionados, e
sim pelo sociólogo brasileiro Alberto Guerreiro Ramos. Em sua abordagem do
\u201cfato administrativo\u201d \u2014 como ele mesmo o denominava \u2014, Guerreiro Ramos
retorna à tradição durkheimiana, sintetiza os elementos que compõem o refe-
rido fato e apenas sinaliza rapidamente que o considera também um \u201cfenô-
meno social total\u201d, na acepção de Marcel Mauss. Ao fazê-lo, Guerreiro Ramos
elege a categoria da totalidade como fundamental para a análise científica de
qualquer fenômeno; em seguida, o autor envereda pelo tratamento da totali-
dade inerente ao fato administrativo pautando-se na teoria de sistemas.
Neste estudo, pretendemos demonstrar que o fato organizacional \u2014
como preferimos denominar o que Guerreiro Ramos chamava de fato adminis-
trativo \u2014 pode ser tratado como um fato social total. Primeiramente, nos re-
portamos a Durkheim e sua definição clássica de fato social, para situar o fato
organizacional no âmbito dos fatos sociais, como o fez Guerreiro Ramos. Em
seguida, visitamos o trabalho de Mauss, sintetizando a gênese do seu conceito
de fato social total para acoplá-lo aos conceitos de sociedade de organizações e
de sociedade salarial, ambos difundidos pela sociologia. Assim, afastamo-nos re-
lativamente da abordagem de Guerreiro Ramos, pois, embora tratemos o fato
organizacional como fato social total, não o fazemos a partir da teoria de siste-
mas, e sim da antropologia de Mauss. Ao final, apontamos algumas implicações
que uma abordagem dessa natureza pode ter para a atual teoria das organizações.
2. Fato social em Durkheim
Na introdução do seu famoso estudo As regras do método sociológico, publica-
do em 1895, Durkheim lamenta que grandes teóricos que o antecederam, tais
como Spencer e Mill, tivessem elaborado estudos genéricos sobre a natureza
das sociedades sem demonstrar qualquer preocupação com o método que
aplicavam à análise dos fatos sociais. Fazia, então, apenas dois anos da divul-
gação de Da divisão do trabalho social, trabalho que notabilizou Durkheim nos
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meios científicos e que já manifestava implicitamente o cuidado do autor com
as questões metodológicas. Não satisfeito, Durkheim julga por bem demons-
trar os princípios metodológicos da observação e análise sociológicas numa
obra à parte, destinada a submetê-los à discussão. Imbuído desta intenção, o
autor escreve As regras, uma demonstração detalhada e rigorosa de como deve-
ria o sociólogo proceder na construção definitiva da sociologia como ciência.
A forte preocupação de Durkheim é perfeitamente compreensível: àque-
la época, a sociologia ainda não ocupava um espaço plenamente reconhecido
no conjunto das ciências. Com a publicação de As regras, Durkheim fornece a
primeira grande sistematização da sociologia, estabelece os contornos desta
disciplina científica e faz escola, dando prosseguimento à aplicação rigorosa
desta metodologia em vários estudos posteriores, como é o caso de O suicí-
dio, publicado em 1897.
Logo no título do primeiro capítulo de As regras, Durkheim lança a se-
guinte questão: o que é um fato social? Argumenta o autor que, antes de dis-
cutir qual é o método adequado ao estudo dos fatos sociais, se deve conhecer
os fatos assim designados. Daí, elabora a seguinte definição: \u201cé um fato social
toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indiví-
duo uma coação exterior; ou ainda, que é geral no conjunto de uma dada so-
ciedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das
suas manifestações individuais\u201d (Durkheim, 1978:92-3).
Para Durkheim, as características distintivas do fato social são a sua ex-
terioridade em relação às consciências individuais e a ação coerciva que ele
exerce sobre o indivíduo. Assim, exterioridade e coerção compõem a essência
do fato social. A primeira característica indica que os fatos sociais são fenô-
menos coletivos e, como tais, brotam da vida em comum; levando esta carac-
terística às últimas conseqüências, Durkheim isola totalmente a emergência
do fato social do nível do indivíduo e chega a afirmar que a primeira e a mais
fundamental regra para a observação desses fatos é considerá-los como coi-
sas. Uma tal reificação do fenômeno social sofreu críticas severas ao longo do
desenvolvimento das ciências sociais, enquanto a indicação da segunda carac-
terística \u2014 a coerção \u2014 tem sido aceita sem maiores restrições. De todo modo,
a contribuição de Durkheim representou o marco definitivo do estabelecimen-
to da sociologia como uma ciência autônoma.
Após esta sumária apresentação da definição elaborada por Durkheim,
tomamos por base o estudo de Guerreiro Ramos para caracterizar o fato orga-
nizacional como fato social.
3. Fato organizacional como fato social
Apesar do notável desenvolvimento da sociologia das organizações observa-
do nos EUA em meados do século passado, deve-se ao sociólogo brasileiro
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Guerreiro Ramos o detalhamento do fato organizacional