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A (in)tangibilidade contratual: o pacta sunt servanda  X teorias revisionistas - Uma reflexão acerca dos arts. 317, 478 a 480, do Novo Código Civil e do art. 6º, VI, do CDC

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A (in)tangibilidade contratual: o pacta sunt servanda X teorias revisionistas - Uma reflexão acerca dos arts. 317, 478 a 480, do Novo Código Civil e do art. 6º, VI, do CDC

A (in)tangibilidade contratual: o pacta sunt servanda X teorias revisionistas - Uma reflexão acerca dos arts. 317, 478 a 480, do Novo Código Civil e do art. 6º, VI, do CDC 
Luciane Maria Padoin Dias�
O princípio da obrigatoriedade dos contratos� ou também denominado pacta sunt servanda, partindo-se de uma visão exclusivamente liberal, informa que os contratos devem ser cumpridos pela mesma razão que a lei deve ser obedecida. Em outras palavras, implica na impossibilidade das partes desvincularem-se do contrato, ou seja, o disposto no contrato tem valor de lei entre as partes estipulantes�. 
Perquirindo-se sobre a origem do princípio da obrigatoriedade dos contratos, tem-se que o mesmo advém do direito canônico. Segundo Caio Mário da Silva Pereira, apud Arnaldo Rizzardo�, os canonistas imbuídos do espiritualismo cristão, interpretavam a norma de direito romano animados de um inspiração mais elevada. No tocante ao contrato, raciocinaram que o seu descumprimento era uma quebra de compromisso, equivalente à mentira; e como esta constituía ‘peccatum’, faltar ao obrigado atraía as penas eternas. Não podia ser, para os jurisconsultos canonistas, predominante a sacramentalidade clássica, mas sobretudo prevalecia o valor da palavra, o próprio consentimento.
John Gilissen� afirma, quanto à origem desse princípio, que já no início do séc. XVII, o teólogo espanhol Suarez (1548-1617) insistia sobre o livre-arbítrio e considerava que a regra pacta sunt servanda era o princípio de base de todo o direito natural. Mas foi sobretudo o jurista holandês Grócio que desenvolveu a nova teoria: a vontade é soberana; o respeito da palavra dada é uma regra de direito natural; pacta sunt servanda é um princípio que deve ser aplicado não apenas entre os indivíduos, mas mesmo entre as nações. 
No Código Napoleônio de 1804, a obrigatoriedade dos contratos tornou-se dispositivo legal: Art. 1.134/1. As convenções formadas legalmente valem como lei para aquelas que as fizerem.
A obrigatoriedade, segundo Cláudia Lima Marques�, vai ser reconhecida pelo direito e vai se impor frente à tutela jurisdicional. Ao juiz não cabe modificar e adequar à equidade o contrato, ao contrário. Aliás, como corolário da liberdade e autonomia da vontade, a força obrigatória dos contratos fica limitada às pessoas que dele participam, isto é, os efeitos só atingem as partes participantes do ajuste. 
Através desse princípio o contrato torna-se intangível, impossibilitando sua revisão via judicial; somente podendo ser alterado por vontade comum das partes�.
Nesse sentido, Rogério Ferraz Donnini� explica que, para a prestação assumida num contrato não se tornasse, algumas vezes, a ruína de um dos contraentes e, quase sempre, o enriquecimento sem causa do outro, diante de um acontecimento imprevisível e extraordinário, é que foi criada a cláusula rebus sic stantibus, modernamente denominada teoria da imprevisão. Trata-se da flexibilização do princípio da intangibilidade contratual, visando o equilíbrio das prestações, por meio de intervenção judicial que tem por objetivo a revisão da avença ou sua resolução.
A essência da cláusula rebus sic standibus, que é um cláusula implícita em todo contrato, é viabilizar a revisão contratual, em virtude de sobrevinda à contratação de condições que impeçam a alguma das partes o cumprimento fiel da obrigação ou a sobrecarreguem de forma a criar um sacrifício insuportável. Etimologicamente, rebus sic stantibus é uma locução latina e que significa o mesmo estado das coisas�. Quanto à sua origem é difícil apontá-la. Donnini� refere, quanto à origem dessa cláusula, que a possibilidade de revisão existe há muito tempo, notavelmente no Código Hamurabi (2.300 a.C.), na Babilônia. Por outro lado, alguns doutrinadores atribuem aos canonistas e glosadores, na Idade Média. Porém, referida cláusula afirmou-se mesmo nos séculos XIV a XVI, e teve seu período máximo de aplicação no século XVIII. A admissão do princípio era possível, nesse período, a exemplo do que hoje ocorre nos contratos que dependiam do futuro, contratos esses de prestações continuadas ou de trato sucessivo, que seriam dependentes da situação fática existente quando da celebração da avenca. Entretanto, há doutrinadores que sustentam não ser esse princípio limitado apenas à existência de prestações continuadas, na medida em que sua aplicação era mais generalizada. 
Osvaldo de Carvalho Monteiro� diz ser obscura a criação desta teoria. Destaca que o direito romano apenas lançou seus germes, tendo a regra passado mesmo no embrião para o direito canônico, que a formulou sob a influência da filosofia escolástica, com os discípulos de S. Tomaz. Mas este princípio admitido na doutrina não chegou a constituir regra jurídica no direito romano. 
Posteriormente, no final do século XVIII e início do século XIX, com o advento do liberalismo – império do individualismo jurídico e, por conseguinte, da rigidez contratual, houve um declínio na utilização dessa cláusula; uma vez que o princípio da pacta sunt servanda era incompatível com a revisão contratual.
Após a Primeira Guerra Mundial, com a instabilidade econômica mundial (gerada pela própria guerra), conforme aduz Donnini�, fez ressurgir a cláusula rebus sic standibus, que, por obra dos tratadistas do final do século XIX, já era conhecida como teoria da imprevisão. Esta tem como escopo investigar a revisão ou resolução dos pactos, por meio do juiz, pela superveniência de fatos imprevistos e imprevisíveis por ocasião da formação do vínculo contratual, e que modifiquem o estado de fato no qual ocorreu a convergência da vontades, causando onerosidade excessiva para um dos contratantes.
Ratificando o ressurgimento da cláusula, Osvaldo de Carvalho Monteiro�, comentando, em um artigo escrito em 1943, portanto, ainda sob fortes efeitos do período de guerra, sobre a aplicação da teoria da imprevisão no direito inglês, após a primeira Grande Guerra, utiliza um trecho de uma publicação daquele país, onde se constata o seguinte:
A imensa deslocação dos negócios produzidos pela grande guerra induziu, ou trouxe à luz, um outro desenvolvimento da doutrina que uma radical mudança de circunstâncias pode libertar um contratante de suas obrigações. Esse novo desenvolvimento é conhecido como a doutrina frustration of adventure. Quando, por exemplo, um contrato celebrado antes da guerra teve, por efeito da guerra, o cumprimento tornado ilícito, fisicamente impossível, ou exequível, somente com um prejuízo ruinoso do devedor, as Côrtes, em circunstâncias não muito bem definidas, exoneraram o devedor do cumprimento dessas obrigações. É uma extensão da doutrina de rebus sic stantibus, que se entendeu governar a aplicação dos tratados internacionais. É uma doutrina perigosa, mas quase inevitável em certos tempos. 
O autor, citado no parágrafo anterior, demonstra o pensamento pós-guerra, uma vez que fora escrito no afã desse período. É interessante observar, no final do texto, a afirmação de que a teoria da imprevisão é uma doutrina perigosa, mas quase inevitável em certos tempos. Tal afirmativa decorre do choque entre a lei – no caso o princípio da obrigatoriedade dos pactos – e a realidade. Em outras palavras, a imutabilidade dos contratos não correspondia mais à realidade da qual se apresentava. O período pós-guerra alterou a economia dos países europeus, o que implicou na necessidade dos contratos serem revistos para adaptar-se à nova situação econômica; tornando-se, assim, inevitável a aceitação desse teoria, embora perigosa, não havia outra solução.
A teoria da imprevisão proporcionou o surgimento de outras teorias revisionistas, dentre as quais a teoria da base do negócio jurídico, idealizada pelo alemão Paul Oertmann�, a qual foi, posteriormente mais desenvolvida por Karl Larenz. Essa prevê, segundo expõe Donnini�, que, enquanto estiver vigendo a base do negócio, vale dizer a manifestação mental dos contraentes no momento da conclusão do ajuste, conhecida