Resumo Filosofia 2
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OAB XIX 1ª FASE 
Filosofia 
Bernardo Montalvão 
1 
TEORIA DO ORDENAMENTO JURÍDICO: 
UMA BREVE ABORDAGEM EM TORNO DA 
DOGMÁTICA DAS FONTES DE DIREITO. 
TEORIA DO ORDENAMENTO JURÍDICO: 
UMA BREVE ABORDAGEM EM TORNO DA 
DOGMÁTICA DAS FONTES DE DIREITO. 
1. INTRODUÇÃO. 
 
As normas jurídicas não são válidas em si 
mesmo, pois são vinculadas a um contexto, 
ou seja, são dependentes da relação da 
norma com as outras normas do contexto. 
Ferraz Júnior assenta que o contexto tem de 
ser reconhecido como uma \u201crelação ou 
conjunto de relações globais de autoridade\u201d. 
De uma forma técnica, poder-se-ia dizer que 
a validade da norma jurídica depende do 
ordenamento em que está inserida. 
Com espeque em Ferraz Jr., o ordenamento 
jurídico brasileiro é o conjunto de todas as 
suas normas, incluídas aqui todas as 
espécies classificadas anteriormente. Estão 
também incluídos no ordenamento os critérios 
de classificação (como as classificações 
legais dos bens segundo o artigo 79 e ss. do 
Código Civil), embora não sejam normas em 
face da inexistência de uma imposição 
vinculante e institucionalizada. 
 
Encontram-se no ordenamento também as 
definições (como a definição de doação 
segundo o Código Civil no artigo 538), os 
preâmbulos (considerações de ordem 
valorativa e fática, como o da Constituição de 
1988), as exposições oficiais dos motivos (em 
que o legislador revela as razões pelas quais 
foram estabelecidas as normas). 
O conceito de ordenamento é 
operacionalmente importante para a 
dogmática jurídica: ele permite a integração 
das normas num conjunto, dentro do qual é 
possível identificá-las como normas jurídicas 
válidas. É um \u201csistema dinâmico\u201d (Kelsen), 
que, em oposição ao estático, capta as 
normas dentro de um processo de 
transformação contínua. Normas são 
promulgadas; atuam; são substituídas; são 
revogadas ou perdem sua atualidade em face 
de alterações nas situações normatizadas etc. 
Para dizer se a norma é válida, é necessário 
integrá-la nesse conjunto sistêmico. 
 
2. O ORDENAMENTO JURÍDICO SEGUNDO 
KELSEN 
 
Para Kelsen, o ordenamento é um sistema 
unitário, marcado por um princípio que 
organiza e mantém o conjunto como um todo 
homogêneo (a norma fundamental). As 
normas do ordenamento compõem séries 
escalonadas. 
 
No escalão mais alto está a primeira norma 
da série, de onde todas as demais derivam. 
A estrutura do ordenamento jurídico, para 
Kelsen, é piramidal: 
 
 
 
A sentença é a norma elementar da pirâmide. 
Kelsen a denomina de \u201cnorma específica\u201d. A 
norma jurídica pode ser genérica ou 
específica. A sentença é a norma mais 
específica possível. Acima dela, estão as leis 
(ordinárias e complementares). Acima das 
leis, as emendas constitucionais e, acima 
destas, a Constituição. 
 
Registre-se que a Constituição não é a norma 
fundamental para Kelsen, tampouco é a 
norma mais importante ou relevante da 
estrutura piramidal. A norma mais importante 
para Kelsen é a Norma Fundamental. A 
norma fundamental é o princípio que organiza 
e mantém o ordenamento jurídico como um 
todo homogêneo. 
 
É com base na estrutura piramidal que se 
pode entender a explicação kelseniana de 
validade: uma norma vale em relação a outra 
norma, que a antecede hierarquicamente. 
Essa relação norma/norma é uma relação de 
validade (relação sintática). E identificar a 
 
 
 
 
 
 
 
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validade de uma norma significa verificar sua 
relação de subordinação em decorrência de 
outra norma. 
 A sentença é válida porque encontra apoio 
na norma que lhe é imediatamente superior, a 
lei. A lei é válida porque está conforme a 
norma imediatamente superior, as emendas 
constitucionais. As emendas constitucionais 
são válidas porque estão conforme uma 
norma imediatamente superior, a 
Constituição. 
 
Esse tipo de raciocínio, entretanto, levaria a 
um problema: o de regressão ao infinito. Essa 
série normativa (de encadeamento de 
normas) deve encontrar seu fim, isto é, a 
norma que fundamenta todas as demais. Se 
para encontrar a validade das normas, é 
preciso recorrer a uma hierarquia de normas, 
Kelsen recorre a uma norma básica 
(grundnorm) acima da própria Constituição, 
cuja função é outorgar-lhe validade, 
validando, desta forma, todo o conjunto. A 
norma fundamental é, portanto, o pressuposto 
lógico do ordenamento. 
 
Lembre-se que, para Kelsen, a explicação do 
que é norma jurídica e do que é ordenamento 
jurídico parte do raciocínio que a norma 
jurídica é um juízo lógico de natureza 
hipotética. 
Por isto, pode-se pensar que o ordenamento 
jurídico também é uma estrutura lógica. E, 
para que ele preserve sua coerência, acima 
de todas as normas deve haver uma primeira 
norma que não possui nenhuma outra norma 
que a anteceda e que justifique todas as 
normas que em razão dela existem no 
ordenamento jurídico. 
 
Esse é o pressuposto lógico do ordenamento. 
Pressuposto porque não é um conteúdo 
passível de comprovação, mas, sim uma 
premissa do raciocínio lógico. 
Do ponto de vista de uma análise empírica, a 
norma fundamental não existe. A norma 
fundamental é pura hipótese, desprovida de 
qualquer conteúdo ético ou empírico. 
 
Você não vai encontrá-la em qualquer texto 
de lei ou na Constituição, pois ela não está 
escrita em nenhum lugar. Ela é uma 
pressuposição lógica para que o ordenamento 
jurídico tenha coerência lógica. Enfim, ela tem 
forma, mas não conteúdo. 
A norma fundamental é responsável pela 
validade de todas as outras normas e possui 
uma qualidade diferente. 
 
Ela não á válida no mesmo sentido das 
demais. A validade é um conceito relacional 
para Kelsen (relação norma/norma, em que 
uma é válida porque está conforme outra que 
lhe é imediatamente superior) e, por isso, a 
norma fundamental (ou primeira norma) não 
pode se relacionar a outra, pois, senão, não 
seria a primeira. 
\u201cSe dissermos que a sentença de um juiz 
(norma individual) repousa sobre as normas 
gerais de competência e de obrigação, e 
estas, sobre as normas constitucionais, em 
que repousa a validade destas? As normas 
constitucionais, como as demais, são postas 
por uma autoridade competente, diz ele 
[Kelsen]\u201d. 
 
Para explicar sua validade, precisa-se admitir 
outra norma que não é posta, visto que não 
deve exigir outra norma que lhe confira 
validade. Desta forma, a norma fundamental é 
pressuposta. Ela prescreve que o \u201cjurista 
reconheça uma primeira norma posta como 
fundamento das demais normas postas e que 
raciocine a partir dela (por exemplo, a norma 
estabelecida por revolução ou pelo povo ou 
pela tradição etc.)\u201d. 
Como consequência, a norma fundamental 
possui uma espécie de validade que não é do 
tipo relacional, mas das condições do próprio 
pensamento: seria uma condição 
transcendental do pensar, segundo o próprio 
Kelsen. 
 
3. ORDENAMENTO JURÍDICO POR 
BOBBIO E POR HART 
 
A pressuposição de Kelsen foi muito criticada 
por filósofos do direito. A crítica fundamentou-
se, sobretudo, na abstração da construção da 
norma fundamental, ou seja, na falta de 
explicações de como se daria o pontapé 
inicial para a construção de um ordenamento 
jurídico. 
Isto levou Norberto Bobbio, mais tarde, a 
afirmar que a explicação de norma 
 
 
 
 
 
 
 
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fundamental de Kelsen não seria satisfatória. 
Bobbio observa que Kelsen procura o 
impossível com uma validade que não seja 
relacional e, com isto, propõe que a norma 
fundamental se identifique com um ato de 
poder. 
A norma primeira seria, portanto, posta por 
um poder fundante da ordem jurídica cuja 
característica é a efetividade: \u201cou o poder se 
impõe ou não é poder fundante e não se terá