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2  Sociologia Juridica

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uma companheira — será a instituição da poli-
ginia. Polígamos serão, aí, os chefes políticos, os sacerdotes, os
nobres, os guerreiros, os burgueses, enfim, a fina flor da sociedade,
a sua nata, e o que dela se aproxime.
Mas, vamos supor ainda que, um dia, no seio mesmo dos des-
possuídos, surja um Cristo, e que, à base de sua pregação moral ou
religiosa, ele valorize a instituição da monogamia, considerando-a
a mais moral ou a mais de acordo com a lei divina, ou algo por
este estilo. Por certo que a sociedade — e, dentro dela, especial-
mente, a sua elite, porque mais diretamente atingida nos seus inte-
resses, direitos e privilégios — irá opor, ao profeta dos pobres,
uma reação talvez tenaz e impiedosa. Se não há condições objetivas
— especialmente económicas — para que a inovação logre vigência,
por certo ela será rechaçada sem maiores repercussões. Mas, se
condições objetivas existem que tendam a favorecer a mudança
proposta — se, por exemplo, uma transformação social ou ecológica
determinou ou vem determinando que a prática da poligamia se
apresente agora como um costume assaz dispendioso, difícil de manter
mesmo para os mais ricos — não será impossível que as valorações
coletivas vão, aos poucos, transformando-se, e que, em breve, os
costumes jurídicos ou as próprias íeis vão ratificar a prática da
monogamia como único sistema matrimonial válido e garantido pela
sociedade.
Assim, interatuam sociedade e indivíduo. Este último nasce,
cresce e vive no meio social, e sofre, de logo, o influxo socializador
desse meio em que se vai formando a sua personalidade. Se, para
efeito apenas didático, personificássemos a sociedade, diríamos que
seu intuito é lograr a socialização integral de todos os indivíduos
que a compõem. Mas, esse intento é frustrado em muitos pontos,
a socialização integral sendo, mesmo, uma meta impossível, além de
indesejável de um ponto de vista ético, porque seria a vitória da
massificação e, com ela, do marasmo e da imobilidade mais absolu-
los. Como certas zonas da vida individual não chegam a ser intei-
ramente socializadas, elas operam o milagre da inovação, tendo que
contar, embora, com a oposição da inércia social que, ao menos
inicialmente, irá atuar contra a novidade sempre intranqiiilizadora e
perturbadora da tradicional acomodação coletiva. Se logra, porém,
S O C I O L O G I A J U R Í D I C A 143
nono
social da consciência coletiva
de maneira coercitiva.
é em suas linhas muito gerais, a mecânica da mteracao
do social e do individual.
CAPÍTULO Hl
SOCIEDADE E DIREITO
1) OS VÁRIOS SABERES JURÍDICOS
Representante ilustre da filosofia jurídica, contemporânea, que
reivindica a fundamentação da autonomia de uma série de inda-
gações de caráter filosófico-jurídico, por oposição às concepções posi-
tivistas e evolucionistas que durante a passada centúria tentaram
absorver as questões filosófico-jurídicas na problemática das várias
ciências que tematizam o jurídico, desde suas obras de juventude,
Recaséns se tem preocupado, seja com a fundamentação e sistemati-
zação da problemática filosófica do direito, seja também com a
classificação e diferenciação dos vários saberes jurídicos de caráter
científico.
Desde, portanto, Los Temas de Ia Filosofia dei Derecho \e
1943, até Vida Humana, Sociedad y Derecho2, sua obra mais mo-
derna e mais conhecida, passando pelos Estúdios de Filosofia dei
Derecho3, que agregou ao compêndio de Giorgio dei Vecchio, pelo
Tratado General de Sociologia4, e chegando até o mais recente
Tratado General de Filosofia dei Derecho'', Recaséns tem se ocupado
constantemente de estabelecer as relações e as distinções entre os
vários saberes jurídicos.
1. Luís RECASÉNS SICHES, Los Temas de Ia Filosofia de Derecho en
Perspectiva Histórica y Vision de Futuro, Ed. Bosch, Barcelona, 1934, Caps.
I e II.
2. Luís RECASÉNS SICHES, Vida Humana, Sociedad y Derecho — Fun-
damentación de Ia Filosofia dei Derecho, Ed. Porrúa, 3-' ed., México, 1952,
Cap. I, n." 3. Esta é a edição mais completa e, pois, definitiva da obra;
a primeira edição é de 1940.
3. GIORCIO DEL VECCHIO y RECASÉNS SICHES, Estúdios de Filosofia dei
Derecho, 2 vols., Ed. LHeha, México, 1946, págs. 25-81.
4. Luís RECASÉNS SICHES, Tratado..., cit., Cap. XXXI, ns. l e 2;
cf., também, Lecciones.. ., cit., Cap. XL, n"? 1.
5. Luís RECASÉNS SICHES, Tratado General de Filosofia dei Derecho,
Ed. Fornia. México 1959, Cap. III, n." 5.
W! A. L. M A C H A D O H t T O
Nessa última formulação, Recaséns, aceitando o tridimensiona-
lismo do Prof. Miguel Reale, acata também a divisão tripártite dos
estudos jurídicos, seja no plano empírico (ciência), seja no filosófico:
"El Derecho, como norma humana con vivência formal, será
estudiado filosoficamente por Ia Teoria General o Fundamental dei
Derecho, y cientificamente será estudiado por Ia Ciência Jurídica
Dogmática o Técnicos de Ias diversas partes de un orden jurídico
positivo.
"El Derecho, considerado como un conjunto de peculiares echos
humanos sociales, será estudiado filosoficamente por Ia Culturología
lurídica, y cientificamente por Ia Sociologia dei Derecho, en tér-
minos generales, y por Ia Historia dei Derecho, en sus concreciones
particulares.
"Los ternas axiológicos sobre el Derecho serán estudíados, filo-
soficamente por Ia Estimativa Jurídica, y en cuanto a Ias aplicacio-
nes concretas y particulares por Ia Política dei Derecho"*.
Embora seja esta a última formulação do problema em Recaséns,
antes de aderir ao esquema de Reale a sua exposição era mais
explícita, detendo-se nos pormenores da diferenciação de perspectivas
de cada um dos saberes jurídicos. Por esse motivo, vamos acom-
panhar as suas exposições anteriores, pois sendo mais explícitas
quanto ao tema das in te r-relações, melhor contribuem para o escla-
recimento da localização da sociologia jurídica no sistema das ciên-
cias do direito.
Assim é que, nos Estúdios que acompanham a tradução da obra
de Giorgio dei Vecchio, encontramos uma melhor caracterização
do cometimento teórico de cada um dos grandes saberes jurídicos
e de seus respectivos cultores: a ciência dogmática do direito, a
sociologia e a história do direito e, finalmente, a filosofia jurídica;
tarefas, respectivamente, do jurista, do sociólogo e do historiador
do direito e, por fim, do jusfilósofo ou filósofo do direito.
Do jurista, enquanto puro jurista e não mais que isso, dirá
Recaséns que expõe qual é o direito vigente, como devemos enten-
dê-lo, interpretá-lo e aplicá-lo, não podendo deter-se, nessa condição
de puro jurista, na explicação da essência do jurídico e de suas
formas e supostos fundamentais, nem empreender a tarefa estima-
tiva ou valorativa do ordenamento vigente, que há de aceitar
dogmática mente 7.
6. Luís RECASÉNS SICHES, Tratado General de Filosofia..., cit.f pág. 162.
7 GIORGIO DEL VECCHIO, apud Lufs RECASÉNS SICHES, Filosofia ..-, cit.,].? vol. pág. 30.
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Suas tarefas — todas dogmáticas — serão: encontrar a norma
vigente; interpretá-la; construir a estrutura da instituição; e, final-
mente, sistematizar o ordenamento em seu conjunto 8.
Bem outra é a perspectiva empírica do sociólogo e do historia-
dor do direito. Enquanto o jurista move-se no campo de uma
ciência normativa e, como tal, ciência de ideias ou do logos, no
entender tanto de Recaséns como da epistemologia jurídica norma-
tivista ou racionalista, o sociólogo e o historiador do direito enfren-
tam realidades empíricas, condutas humanas objetivas, vida humana
objetivada, que tratarão, generalizadora ou individualizadoramente,
consoante a diversa índole de suas respectivas ciências. Se, na pers-
pectiva da ciência dogmática do direito, este era encarado como puro
sentido, como pura norma, na perspectiva empírica da sociologia e
dfl história do direito, ele nos aparece sob a forma de fato social.
Já a filosofia jurídica teria por