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O Mistério da Atlantida   Charles Berlitz

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a se intrometerem em seu comércio. Eles queriam perpetuar a
afirmação de Platão de que "é impossível passar por aquela parte do mar, devido à grande
quantidade de lama existente... remanescente da ilha que submergiu..."
O poeta cartaginês Avienus conta-nos sobre um relato de viagem pelo Atlântico feito pelo
Almirante Himilco em 500 a.C:
"Nenhuma brisa sopra, tão morto é o vento desse mar preguiçoso... Há tantas algas que o
navio não pode seguir em frente... O mar não é muito profundo, e a superfície da terra mal é
coberta por uma fina camada de água... Monstros marinhos movem-se continuamente,
ameaçando os navios..."
Um relato sobre viagens pelo Atlântico é atribuído a Pausânias, em Descrição da Grécia,
onde ele cita Eufemo, o carian (fenício). O relato de Eufemo desencoraja qualquer viagem
pelo Atlântico, especialmente para mulheres:
 
"Em sua viagem para a Itália ele saiu de seu curso devido aos ventos e/oi carregado
para o mar aberto, além das rotas dos navegadores. Afirma que havia muitas ilhas
desabitadas, enquanto outras eram habitadas por selvagens... As ilhas eram chamadas
Satíridas pelos marinheiros, e os habitantes tinham cabelos vermelhos e rabos quase do
tamanho dos de cavalos. Logo que viram os visitantes correram para o navio sem dar um
grito e atacaram as mulheres. Finalmente os marinheiros, amedrontados, atiraram uma
mulher estrangeira na ilha. Os sátiros se aproveitaram dela não só da maneira usual, mas
também da maneira mais chocante... "
 
Houve outro incidente que desencorajou bastante os navegadores gregos. Alexandre o
Grande, depois de conquistar Tiro. na Fenícia, enviou uma frota ao Oceano Atlântico para
conquistar outras cidades fenícias que fossem encontradas além do Mediterrâneo. A frota saiu
para o mar e nunca mais se ouviu falar dela.
Os cartagineses fizeram o possível para manter suas rotas comerciais do Atlântico em
segredo dos gregos e egípcios, e principalmente dos romanos. Quando as lendas sobre
monstros não conseguiam desencorajar a competição, eles tomavam medidas mais drásticas.
Sabemos de ocasiões em que navios cartagineses, seguidos por navios romanos através do
Estreito de Gibraltar, preferiram pôr-se a pique a revelar seu destino. Em outras ocasiões, os
cartagineses resolviam o problema afundando o navio concorrente e matando seus tripulantes.
Entre as terras do Atlântico visitadas pelos cartagineses estava, segundo Aristóteles, a Ilha
de Antilia, um nome bastante semelhante a Atlântida. Os cartagineses eram tão preocupados
em manter isso em segredo, que a simples menção desse nome era punida com a morte.
Acredita-se que os cartagineses tenham conquistado Tartessos, uma cidade rica e civilizada na
costa oeste da Espanha, junto à foz do rio Guadalquivir. Essa cidade talvez seja a Tarshish
citada na Bíblia por Ezequiel, que disse: "Tarshish era vosso mercado devido à quantidade
existente de todos os tipos de riqueza; com prata, ferro, estanho e chumbo eles comerciavam
em vossas feiras." Tartessos e sua cultura desapareceram no século VI a.C. Se essa cidade
era, como foi dito, uma das colônias da Atlântida, sua destruição representa ainda uma
possível ligação com aquela civilização.
Os povos que habitam o litoral leste do Atlântico possuem mitos de terras perdidas e ilhas
cujos nomes são freqüentemente semelhantes ao da Atlântida, como no caso de Avalon,
Lyonesse, Antilia, e em outras ocasiões bastante diferentes, como em Ilha de São Brendan e
Brasil. Em algumas ocasiões é simplesmente descrita como "a ilha verde que está sob as
ondas".
Os irlandeses tinham tanta certeza da existência da Ilha de São Brendan que seis
expedições foram organizadas para sua busca durante a Idade Média; além disso fizeram-se
tratados escritos para a divisão da ilha, quando ela finalmente fosse encontrada.
Os hispânicos pensavam que Antilia, a ilha sobre a qual os cartagineses guardavam
segredo, fosse um lugar utilizado como refúgio durante a conquista moura na Espanha. Os
refugiados, fugindo dos mouros, teriam navegado para oeste, liderados por um bispo, e
alcançado Antilia, onde construíram sete cidades. Sua posição, nos mapas antigos, é
geralmente o centro do Oceano Atlântico.
Os esforços dos fenícios e cartagineses em fechar o Atlântico a outras nações navegadoras
tiveram como conseqüência a perpetuação da idéia de que o Atlântico era um mar de morte.
Mas a humanidade nunca se esqueceu das terras perdidas. Ela sempre aparecem em mapas
anteriores a Colombo, perto da Espanha ou no extremo ocidente do mundo — Atlântida,
Antilia, as Hespérides e as "outras ilhas"; como diz Platão, "e das ilhas pode-se passar
através de todo o continente que rodeia o verdadeiro oceano".
Enquanto os homens se lembram da Atlântida através de lendas, alguns animais, aves e
seres marinhos, parecem conservar uma lembrança instintiva. O lemo, um roedor norueguês,
tem um comportamento curioso: sempre que, devido ao crescimento excessivo da população,
há falta de alimento, eles se juntam em bandos e atravessam o país até chegar ao mar. Então
entram na água, nadando para oeste, até se afogarem. Lendas locais confirmam o que os
atlantologistas sugerem: os lemos tentam chegar a uma terra que existia a oeste, e onde havia
comida em abundância.
Um comportamento ainda mais curioso, talvez motivado pela memória do instinto, tem
sido observado em pássaros migratórios que cruzam o oceano, da Europa para a América do
Sul: quando se aproximam dos Açores começam a voar em círculos concêntricos, como se
procurassem uma terra onde estivessem acostumados a repousar. Não achando a terra,
continuam seu caminho; mas na volta repetem o mesmo comportamento. Não se estabeleceu
ainda se eles procuram terra, comida, ou ambas as coisas. O ponto mais interessante disso é
que o homem atribui aos animais convicções que ele próprio possui, voltando aos dias
lendários em que homem e animais falavam entre si.
Outra lembrança animal, embora não se tenha uma prova conclusiva, ainda é mais
impressionante. Refere-se ao modo de vida das enguias européias. É curioso que o próprio
Aristóteles, descrente das idéias de Platão sobre a Atlântida, tenha se interessado por esse
problema, que é freqüentemente citado como prova da existência daquela civilização.
Aristóteles, interessado em todo fenômeno natural, foi o primeiro naturalista de que se tem
notícia a trazer à tona a pergunta sobre a reprodução das enguias. Onde procriam?
Aparentemente em algum lugar no oceano, já que as enguias européias, a cada dois anos,
deixam seus lagos e rios e saem para rios maiores que desembocam no oceano. Isto era tudo o
que se sabia sobre o local onde as enguias procriavam, até que Aristóteles fez essa pergunta,
há mais de dois mil anos. Apenas nos últimos vinte anos descobriu-se o lugar exato da
procriação. Há séculos que elas vão para o Mar dos Sargaços — um mar cheio de algas no
Atlântico Norte, em torno das Bermudas — e cujo tamanho corresponde à metade dos Estados
Unidos.
A travessia do Atlântico pelas enguias pôde ser seguida devido às gaivotas e tubarões que
as acompanhavam. O cardume leva mais de quatro meses para atravessar o Atlântico. Depois
de pôr os ovos no Mar de Sargaços, a uma profundidade de quinhentos metros, a enguia fêmea
morre e as enguias recém-nascidas começam a voltar para a Europa, onde vivem por dois
anos, até que o processo se repita.
Há teorias de que essa migração das enguias pode ser explicada por um instinto que faz
com que elas voltem para o seu lugar de origem para desovar. Esse lugar pode ser a foz de um
grande rio que atravessava a Atlântida, assim como o Mississipi atravessa os Estados Unidos.
Esse instinto das enguias poderia ser comparado, na dificuldade de realização, ao dos
salmões do Alasca, que precisam lutar contra a corrente, enquanto a enguia deve seguir o leito
de um rio que atravessava um continente submerso há milhares de anos.
O Mar dos Sargaços foi diretamente descrito