As estruturas econômicas Idade Média - Hilario Franco Jr.
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As estruturas econômicas Idade Média - Hilario Franco Jr.


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de qualidade inferior e mais baratos. 
O segundo grande centro era a Itália, cuja indústria lanifícia ganhou 
importância a partir de fins do século XIII, com o declínio flamengo. A lã 
manufaturada nas cidades italianas da Toscana (especialmente Florença) e 
da Lombardia (sobretudo Milão) era importada da Espanha e da 
Inglaterra, de onde famílias de banqueiros como os Bardi e os Peruzzi 
compravam toda a produção dos mosteiros cistercienses com um ou dois 
anos de antecedência, superando dessa forma os flamengos, que não 
tinham capital para tanto. A maior produtora era Florença, que na 
primeira metade do século XIV empregava 30.000 pessoas nas suas oficinas 
têxteis. Em fins da Idade Média, a produção de tecidos de seda chegou a 
ultrapassar a de lã em Florença, Milão, Siena e Luca. 
A terceira grande área era a Inglaterra, até meados do século XIII 
mera fornecedora de matéria-prima, depois produtora de destaque graças 
às dificuldades econômicas de Flandres e sociais de Florença (revolta dos 
artesãos florentinos na segunda metade do século XIV). Interessada 
naquela expansão industrial, a monarquia inglesa passou a taxar mais 
pesadamente as exportações de lã (33%) do que as de tecidos (apenas 2%). 
Tendo assim lã abundante e de boa qualidade, a produção têxtil inglesa 
tornou-se forte concorrente da italiana, que precisava importar sua 
matéria-prima. 
A produção industrial nas cidades estava organizada em associações 
profissionais que chamamos de corporações de ofício, conhecidas na Idade 
Média apenas por \u201cofícios\u201d (métiers na França, ghilds na Inglaterra, 
Innungen na Alemanha, arti na Itália). Suas origens são controvertidas, 
mas as razões para o agrupamento são claras: religiosa, daí muitas vezes 
ter derivado de confrarias, isto é, de associações que desde o século X 
existiam para cultuar o santo patrono de uma determinada categoria 
profissional e para praticar caridade recíproca entre seus membros; 
econômica, procurando garantir para eles o monopólio de determinada 
atividade; político-social, com a plebe de artesãos tentando se organizar 
diante do patriciado mercador que detinha o poder na cidade. 
Contudo, não se deve exagerar o papel das corporações. As mais 
antigas eram apenas de comerciantes, as de artesãos generalizaram-se 
somente após 1120. Em Flandres, importante centro artesanal, a formação 
dos ofícios foi ainda mais tardia devido à oposição dos grandes 
comerciantes, desejosos de manter seu poder sobre o setor produtivo. Em 
suma, as corporações não foram tão difundidas na Idade Média quanto se 
imaginou, sendo na verdade mais representativas da economia 
mercantilista da Época Moderna. Lyon, por exemplo, grande centro 
artesanal, simplesmente as desconhecia. Existia um razoável contingente 
de mão-de-obra não engajado em corporações de ofício, artesãos que para 
defender seus interesses ocasionalmente se reuniam em grupos chamados 
compagnonnages na França e Gesellenverbände na Alemanha. 
Na sua organização interna, cada corporação era constituída por 
várias oficinas, as únicas que podiam produzir uma determinada 
mercadoria na cidade. Cada oficina pertencia a um indivíduo conhecido 
por mestre, dono da matéria-prima, das ferramentas e do resultado 
econômico gerado pela produção. Os vários mestres formavam um colegiado 
que dirigia a corporação, isto é, fiscalizava o respeito aos regulamentos 
corporativos. O mais importante destes era impedir qualquer diferenciação 
de produção (e portanto concorrência) entre as oficinas: o tipo de matéria-
prima, a quantidade produzida, o preço de venda, tudo devia ser 
rigorosamente igual. O fundamental era manter o espírito de cartel da 
associação. 
Em cada oficina o mestre trabalhava com alguns outros artesãos. Os 
jornaleiros (ou companheiros) eram assalariados que ganhavam em dinheiro 
e em espécie, pois viviam na casa do mestre. Os aprendizes, apenas um 
ou dois por oficina, eram adolescentes que procuravam iniciar-se nos 
segredos da profissão, vivendo para isso ao lado do mestre e pagando a ele 
pelo aprendizado, pelo alojamento e pela alimentação. Enquanto perdurou a 
conjuntura econômica favorável, até fins do século XIII, um jornaleiro podia 
vir a ter sua própria oficina e se tornar mestre. Precisava para tanto do 
consentimento da corporação, de um pequeno capital para montar uma 
oficina, de habilidade comprovada na sua profissão (a chamada prova da 
obra-prima). Mas depois daquela data as dificuldades econômicas 
provocaram um enrijecimento das corporações, e a condição de mestre 
tendeu a se tornar hereditária. 
Outra importante transformação ocorrida na Idade Média Central 
foi uma acentuada monetarização da economia. Já vimos que nos séculos 
IV-X a atonia econômica levara a moeda a ser mais objeto de 
entesouramento que de circulação. Mas, face ao progresso iniciado em 
princípios do século XI, percebeu-se que as antigas espécies monetárias 
não satisfaziam naquele contexto diferente. Um primeiro problema era a 
grande diversidade, a existência de centenas de moedas senhoriais, cada 
uma delas circulando numa área restrita. Um segundo problema era o baixo 
valor das espécies, resultado da reforma monetária carolíngia do século 
VIII, que implantara o monometalismo de prata: o denarius, moeda de 
pequeno valor, adequava-se melhor àquela economia pouco produtiva e de 
lenta circulação. 
De um lado, a solução veio do fortalecimento do poder monárquico 
que então começava a ocorrer. Na França, por exemplo, as 300 oficinas de 
cunhagem existentes no início do século XI foram sendo reduzidas, até 
restarem apenas 30 no início do século XIV De outro, os metais preciosos 
que tinham sido entesourados foram aos poucos reentrando em 
circulação. Graças à expansão mercantil, entre início do século XII e 
meados do século XIII um afluxo de ouro muçulmano contribuiu para 
alargar o estoque metálico ocidental. Graças às novas técnicas de 
mineração, cresceu bastante a produção de prata da Europa central. 
Enfim, respondendo melhor às condições da época, em meados do século 
XIII reinstaurou-se o bimetalismo. Significativamente, as moedas de ouro 
reapareceram nas cidades mercantis italianas e só depois no resto do 
Ocidente cristão. 
Não por acaso também, a atividade bancária nasceu na Itália. Era 
interesse de seus comerciantes enfrentar a diversidade de moedas, 
facilitando sua uniformização e, portanto, os negócios entre pessoas de 
diferentes regiões. Assim, alguns mercadores passaram a dedicar-se ao 
câmbio (cambiare = trocar), ficando conhecidos por banqueiros, pois as 
diversas moedas a ser trocadas ficavam expostas em bancas, como outra 
mercadoria qualquer. Apenas num segundo momento, possivelmente no 
século XII em Gênova, os banqueiros ampliaram seu leque de atuação, 
aceitando depósitos reembolsáveis a qualquer momento, fazendo emprésti-
mos, transferindo valores de clientes de uma cidade para outra. Para atrair 
capitais, pagavam juros sobre os depósitos. Para evitar aos clientes os 
inconvenientes de transporte de valores até importantes praças comerciais, 
desenvolveram instrumentos de crédito, protótipos da letra de câmbio e da 
nota promissória. 
Por último, devemos lembrar de um elemento não propriamente do 
campo da economia, e sim da ideologia*, mas que teve repercussão sobre 
as atividades produtivas e financeiras. Trata-se da teoria econômica, que, 
como as demais funções intelectuais, foi por muito tempo monopolizada 
pela Igreja. A respeito, seu pensamento baseava-se em dois princípios, o 
distributivo e o de equilíbrio. O primeiro preocupava-se com a repartição 
das riquezas e da renda, com São Tomás de Aquino (1225-1274) acreditando 
que os bens