As estruturas econômicas Idade Média - Hilario Franco Jr.
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As estruturas econômicas Idade Média - Hilario Franco Jr.


DisciplinaHistoria Economica Geral e do Brasil41 materiais202 seguidores
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terrenos tinham sido criados para utilidade da espécie humana. 
Utilidade que se concretiza através da propriedade privada, perfeitamente de 
acordo com o direito natural, pois (retomando argumentos de Aristóteles) o 
sentimento de propriedade estimula o indivíduo ao trabalho e a ordem 
social fica garantida quando cada um tem seu próprio bem para governar. 
Contudo, não há propriedade absoluta, o bem deve ser administrado 
visando ao interesse coletivo. 
O princípio de equilíbrio pretendia tornar justas as relações 
econômicas entre os homens, daí sua preocupação com a usura e o preço 
justo. A condenação da usura \u2014 entendida pelos medievais como todo 
empréstimo a juros, não apenas os extorsivos como no sentido atual \u2014 
baseava-se na teoria aristotélica da esterilidade do dinheiro. Partindo da 
idéia de que \u201cdinheiro não engendra dinheiro\u201d, os teólogos argumentavam 
que ao emprestar a juros a pessoa estava na verdade vendendo tempo (aquele 
durante o qual o devedor fica com a moeda). Ora, como o tempo apenas a 
Deus pertence, desde o século IV a usura estava vedada aos clérigos, 
proibição estendida aos leigos em fins do século VI ou princípios do VIL A 
noção de preço justo não era tão clara para os teólogos, sofrendo várias 
interpretações, até que se impôs aquela adotada por Tomás de Aquino: 
preço justo é simplesmente o preço de mercado. Em razão disso, criticavam-
se as corporações de ofício pelo fato de poderem impor seu preço ao 
controlar totalmente a oferta dos bens que produziam. 
O pré-capitalismo medieval 
Em suma, a Idade Média Central foi uma época de mudanças, de 
expansão econômica, o que levou parte da historiografia por muito tempo a 
falar num \u201ccapitalismo medieval\u201d. Expressão, no mínimo, problemática. 
Contudo, adotando-se uma definição ampla de capitalismo \u2014 por exemplo, 
sistema econômico centrado na posse privada de capital (mercadorias, 
máquinas, terras, dinheiro, conhecimento técnico) empregado de maneira a 
se reproduzir continuamente, ficando os desprovidos dele obrigados a 
vender sua força de trabalho \u2014 poderíamos talvez aceitar sua existência 
nos últimos séculos da Idade Média. 
Mas nesse caso devemos lembrar que, no conjunto da Europa, ele 
não era nem o único sistema econômico, nem sequer o dominante. Ele 
coexistia com o sistema doméstico, representado por pequenos artesãos 
independentes, e com o sistema senhorial, baseado em mão-de-obra 
dependente. O melhor talvez seja recorrer à fórmula cuidadosa de Léopold 
Génicot, que fala na existência, para aquela época, de \u201cpremissas do 
capitalismo\u201d (56: 247). Se se preferir, poderíamos falar em pré-capitalismo, 
isto é, num capitalismo ainda não acabado, cujos elementos essenciais já 
podiam, porém, ser vislumbrados. 
Realmente, o \u201ccapitalismo medieval\u201d estava limitado pelas próprias 
condições do tempo. De início, faltava uma estrutura política que fornecesse à 
\u201cclasse capitalista\u201d todos os pré-requisitos básicos para sua expansão 
constante e regular, o que só ocorreria mais tarde com a formação do Estado 
moderno e sua política mercantilista. Em segundo lugar, o pensamento 
econômico de então punha obstáculos a uma atuação verdadeiramente 
capitalista, ainda que, na prática, as proibições fossem com freqüência 
contornadas. Por fim, a própria mentalidade* colocava barreiras a atitudes 
tipicamente capitalistas. Um exemplo disso \u2014 analisado por Roberto Lopez 
\u2014 ocorreu em Beauvais, sede de um distrito agrícola muito rico do norte 
francês, cidade produtora de tecidos de lã célebres cm toda a Europa, cujo 
progresso subitamente cessou em meados do século XIII. A razão talvez 
tenha sido a magnífica catedral, que de um ponto de vista estritamente 
econômico (e não cultural) representou a imobilização estéril de grandes 
capitais (19: 1952, 435-436; 70: 266). 
A depressão de fins da Idade Média 
A Baixa Idade Média, por fim, inaugurou um período de crise 
generalizada, facilmente perceptível no aspecto econômico. Contudo as 
razões disso não são igualmente claras, tendo gerado longos debates 
historiográficos. Muitas vezes a preocupação em buscar um fator 
determinante do fenômeno afastou os especialistas da compreensão de 
suas linhas básicas. Para nós, aqui, é secundário saber o ponto de partida 
do processo: estagnação tecnológica, excesso demográfico, fome metálica, 
depressão moral provocada pela peste, alterações climáticas ou efeitos de 
guerras prolongadas? Possivelmente todas essas explicações já aventadas 
tenham certa parcela de razão. 
Importa-nos mais buscar o entendimento da essência da crise. Sem 
dúvida, podemos afirmar que após uma fase A de crescimento econômico 
(1200-1316) a Europa ocidental entrou numa fase B depressiva, que se 
estenderia até fins do século XV no sul e princípios do XVI no centro e no 
norte. Nesses quase dois séculos, ocorreram crises em todos os setores da 
economia, ainda que com intensidade e elementos desencadeadores 
diferentes conforme as regiões. De qualquer forma, a crise resultou dos 
próprios princípios da economia extensiva e predatória da fase A. Para usar 
a linguagem dos economistas, ela fundamentava-se em N (recursos 
naturais) e T (força de trabalho) abundantes, e um K (capital) 
proporcionalmente pequeno. Ou seja, enquanto ainda havia terras férteis 
disponíveis e mão-de-obra em quantidade para trabalhá-las, o sistema 
funcionou bem. Mas a riqueza social global pouco crescia por falta de 
reinvestimento. Considerando o Ocidente cristão no seu conjunto, o setor 
agrícola contribuía com a maior porcentagem do produto total, e apesar 
disso os senhores de terra, estima-se que por razões culturais, reinvestiam 
apenas 1% ou 2% líquidos de sua renda. Logo, como N e T não poderiam 
crescer indefinidamente, mais cedo ou mais tarde viria a crise. 
No setor primário, a produção era relativamente estática (limites 
técnicos da agricultura medieval) e o consumo dinâmico (crescimento 
populacional). Dessa forma, entre oferta e procura de gêneros alimentícios 
havia um equilíbrio precário, que se via comprometido por qualquer 
acidente natural (estiagem, pragas etc). De fato, a busca de terras no 
período de expansão levara ao cultivo de áreas pouco férteis, de maneira 
que cresceu a produção em termos absolutos, mas não a produtividade. 
Assim, precisava-se lançar mão de mais terras, e em muitas regiões elas 
foram arrancadas ao gado: a transformação de pastos em zonas de cultivo 
diminuía a disponibilidade de adubo, prejudicando a produção agrária. 
Muitas vezes, terras de cultivo resultavam de um desflorestamento 
excessivo, o que alterava o regime local de chuvas, com óbvios reflexos 
negativos para a agricultura. Ocorreram assim diversos períodos de 
escassez, mais ou menos regionalizados: Portugal, por exemplo, de meados 
do século XIV a fins do século XV, conheceu 21 crises de subsistência. 
Ademais, verificaram-se pelo menos cinco períodos de fome generalizada 
em quase todo o Ocidente*, cada um deles de anos. 
Elevou-se a mortalidade, as tensões sociais tornaram-se mais 
agudas. Tudo isso, naturalmente, teve reflexos no setor secundário, pois à 
medida que cada indivíduo mais gastava com alimentação menos tinha 
recursos para consumir bens industriais. Mesmo depois da queda dos 
preços dos cereais (talvez devido à retração do consumo provocada pela 
peste negra), os dos produtos artesanais continuaram subindo, 
possivelmente porque neles os salários, em alta por causa da peste, repre-
sentassem uma parcela maior do custo. De toda maneira, isso prejudicava o 
consumo de artesanato. A indústria têxtil urbana sofria cada vez mais a 
concorrência da indústria rural, cuja mão-de-obra não estava agrupada em 
corporações e oferecia