Conservação da Natureza - E eu com isso?
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Conservação da Natureza - E eu com isso?


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funções e objetivos.
 Não há parâmetros prévios quanto ao número de Áreas 
Protegidas que possam ou devam compor um Mosaico, tampouco 
indicativos de dimensões mínimas, máximas ou \u201crecomendáveis\u201d. Dentre 
os Mosaicos instituídos até o momento, o número de UCs/APs envolvidas 
varia de 05 a 34 áreas protegidas. Na Mata Atlântica, dentre os Mosaicos 
reconhecidos ou em processo de construção, as dimensões variam entre 
100.000 ha e 2.000.000 ha, incluindo entre 5 e 34 áreas protegidas. Na 
Amazônia chega a 10.000.000 ha.
 Este quadro mostra a diversidade de situações e enseja que se 
busquem alguns critérios norteadores na delimitação desses territórios. 
Como proposta sugere-se alguns indicadores apontados a seguir no 
quadro abaixo, brevemente comentados:
Critérios Norteadores
Identidade territorial 
Funcionalidade 
ecossistêmica
Operacionalidade 
logística
Viabilidade	político-
institucional
Exemplos de indicadores
\u2022	pré-existência	de	\u201cmarca\u201d	regional	associada	a	
produtos e serviços
\u2022	auto	reconhecimento	da	unidade	do	conjunto	pelos	
gestores e outros agentes regionais
\u2022	aspectos	ambientais,	sociais,	culturais,	históricos	
comuns
\u2022	recortes	territoriais	reconhecidos	(Bacia	
Hidrográfica, Reserva da Biosfera, Corredor, etc)
\u2022	objetivo	comum
\u2022	dimensões	suficientes	para	cumprir	suas	funções	
ambientais
\u2022	diversidade	de	ambientes	e	de	categorias	de	manejo
\u2022	facilidade	de	acessos	entre	suas	áreas
\u2022	recursos	humanos	e	materiais	nas	áreas	protegidas	
abrangidas
\u2022	sistemas	de	comunicação
\u2022	outros
\u2022	parcerias	existentes,	projetos	integrados
\u2022	vontade	política
\u2022	apoio	de	lideranças,	comunidades	locais
54 55CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
 A análise desses e outros parâmetros pode assegurar uma maior 
qualidade na proposta de delimitação do Mosaico e uma maior eficácia do 
mesmo na consecução de seus objetivos.
 Várias outras questões se colocam nas discussões de 
territorialidade como dúvidas sobre a possibilidade de superposição 
entre Mosaicos, o que já ocorre na prática, e sobre o território de ação ou 
de influência do Mosaico como um espaço geográfico e político mais 
amplo que seu território físico. Também esse ultimo aspecto tem sido 
respondido positivamente na prática da gestão e tem respaldo nas funções 
e competências dos Mosaicos estabelecidos no próprio Decreto 4.340 de 
22 de agosto de 2002 em seu capitulo III.
 Assim o Conselho do Mosaico da Bocaina, por exemplo tem 
se manifestado formalmente em relação à usina nuclear Angra III , sobre 
o pré sal, sobre o decreto que permitia o adensamento de edificações na 
orla de Angra dos Reis, questões situadas em áreas externas aos limites 
físicos do Mosaico mas com indiscutível influência na qualidade sócio-
ambiental da região na qual se insere o Mosaico.
 Da mesma forma, se multiplicam as contribuições dos diversos 
Mosaicos na criação de novas unidades de conservação, destacando-se 
aqui o Mosaico Central Fluminense- RJ, Mosaico Ilhas e Áreas Marinhas 
Protegidas do Litoral Paulista- SP e Mosaico dos Manguezais da Baía de 
Vitória-ES. São também significativas as contribuições na resolução de 
conflitos entre unidades e moradores locais, no ordenamento territorial 
da região, no desenvolvimento sustentável de comunidades tradicionais, 
com destaque aqui para o Mosaico Jacupiranga/SP. Para o processo 
de restauração da Mata Atlântica e conexão de fragmentos, já existem 
contribuições dos Mosaicos a exemplo do Jacupiranga, que em parceria 
com o Pacto de Restauração da Mata Atlântica, RBMA e Conservação 
Internacional têm implementado o Projeto Conectando Áreas Protegidas.
 Os Mosaicos de Áreas Protegidas, de uma forma geral, também 
têm contribuído diretamente na implementação do ecoturismo, na 
valorização de gestores e unidades antes isoladas, na capacitação de 
atores locais, na elaboração e implementação de políticas públicas, na 
valorização do SISNAMA, na medida em que cria sinergia entre diferentes 
órgãos de distintas esferas na busca da conservação e do desenvolvimento 
sustentável.
Novos desafios e prioridades
 Os próprios Mosaicos têm definido suas prioridades, sendo 
recorrentes as preocupações com a sustentabilidade financeira e 
fortalecimento institucional, com a capacitação continuada dos gestores, 
com a definição de planejamento estratégico, com o desenvolvimento das 
comunidades e com processos de aumento da efetividade da conservação 
e recuperação dos ecossistemas. 
 Definir os territórios de Mosaicos de Áreas Protegidas como 
prioritários para os investimentos e implementação de programas e 
projetos voltados à conservação e fomento do uso adequado dos recursos 
naturais está se tornando uma estratégia de diversas organizações 
nacionais e internacionais. Destacamos aqui as iniciativas mais recentes 
nos Mosaicos da Mata Atlântica a exemplo do Projeto Gerenciamento 
Integrado do Ecossistema da Baía da Ilha Grande \u2013 GEF/FAO, com 
atuação no Mosaico da Bocaina; a GIZ e o GEF Mangue, com atuação 
no Mosaico Lagamar; as iniciativas da Conservação Internacional e 
da própria Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, que definiu em seu 
planejamento estratégico os territórios de Mosaicos como áreas prioritárias 
de intervenção e vem direcionando e buscando integrar seus programas 
permanentes (Turismo Sustentável; Mercado Mata Atlântica, Restauração 
Ecológica, Costa e Mar Mosaicos e Corredores Ecológicos) com os 
planos de ação dos Mosaicos, em estreita articulação com seus Conselhos 
Gestores, ressaltando as ações de restauração ecológica, capacitação de 
gestores, fortalecimento do mercado e turismo sustentável nos Mosaicos.
Também tem merecido destaque a necessidade de aprofundar os 
estudos para a aplicação de instrumentos econômicos como pagamento 
por serviços ambientais, a aplicação de compensações ambientais e o 
aprimoramento de seus instrumentos de planejamento estratégico e 
monitoramento de efetividade.
 Em uma escala mais geral, o desafio maior, além da criação 
de novos Mosaicos em todos os biomas e a consolidação dos existentes, 
está no aprimoramento de forma participativa e consensuada, do Marco 
Regulatório e das estratégias de gestão integrada de Áreas Protegidas, 
respeitando toda a diversidade de situações, a autonomia das instâncias 
municipais, estaduais e federais, potencializando e consolidando os 
Mosaicos como um dos principais instrumentos da política ambiental 
brasileira.
56 57CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
5RPPN \u2013 O QUE VOCÊ GANHACOM ISSO?João Bosco Priamo Carbogim1
 Esse tipo de pergunta reflete exatamente a visão \u201ceconômica\u201d que 
se tem da natureza. Uma obviedade em se tratando de um sistema sócio-
econômico que tem na ganância pelo lucro a qualquer preço a sua razão de 
ser. Na realidade, a decisão de conservar a natureza foge a esse parâmetro 
por se tratar de uma questão de valores e tem a ver com a percepção que se 
tem da vida e do que estamos fazendo no planeta terra.
 Na introdução do livro \u201cA Vingança de Gaia\u201d (LOVELOCK, 
2006), Crispin Tickell, comentando a respeito do conceito de Gaia, afirma 
que o mesmo pode ser estendido ao pensamento atual sobre valores, ou 
seja, a forma como encaramos e julgamos o mundo à nossa volta. Acima de 
tudo, como nos comportamos. Isso tem uma aplicação especial ao campo 
da economia, em que ilusões populares sobre a supremacia das forças do 
mercado estão tão profundamente arraigadas e a responsabilidade dos 
governos de proteger o interesse público é tantas vezes ignorada.
 O autor é, também, taxativo ao enfatizar que somos perigosamente 
ignorantes da nossa própria ignorância e, poucas vezes, tentamos ver 
as coisas como um todo, numa perspectiva sistêmica. Segundo ele, se 
quisermos alcançar uma sociedade humana em harmonia com a natureza, 
devemos nos guiar por um respeito maior por ela. Está passando da hora 
de a espécie humana fazer as pazes com o resto do mundo em que vivemos.