Conservação da Natureza - E eu com isso?
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Conservação da Natureza - E eu com isso?


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b) a 
construção do Linhão levando energia elétrica a parte do Marajó, que 
brevemente funcionará, ainda tem muito a avançar.
 Some-se a estes fatores, a gravidade do isolamento, dificultando 
a mobilidade regional, bem como a capacidade de mobilização em 
prol de questões de interesse comum para o Marajó. A verdade é que 
os municípios possuem pouco contatos uns com os outros. Aqueles da 
região norte baseiam-se, principalmente, em Macapá; e para aqueles (o 
sul e sudeste) Belém é o centro regional. 
A Economia
 O Marajó é uma das regiões mais pobres do Brasil e encontra-se 
mergulhado em profunda crise econômica, mais precisamente, encontra-
A exclusão social é generalizada e 90% da população vive em 
situação de pobreza e miséria. A educação segue dentro do 
mesmo padrão, com 80% dos adultos considerados analfabetos, 
a maioria da população tem menos de 2 anos de estudos.
102 103CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
se em colapso. Todo o PIB do Marajó é inferior a US$550 milhões e 
representa apenas 2,7% da economia do Pará (2009). O PIB per capta/ano 
de 2006 bem demonstra o contraste entre regiões de mineração (região de 
Carajás R$14.331,00), centros de serviços (Região Metropolitana de Belém 
R$7.514,00) e o Marajó, R$2.255,00 (7 vezes inferior a Carajás e 2,5 vezes 
a Belém). 
 Nas últimas décadas os métodos de produção tradicionais do 
Marajó se mantiveram quase que estáveis no tempo, mostrando forte 
resiliência às diferentes fases de produção agrícola que ocorreram na 
Amazônia. Mesmo com uma retomada recente tanto na questão da fruta 
do açaí ou exportação de gado bubalino, pouca diferenciação tem sido 
observada na economia rural do Marajó. A economia ainda se baseia, em 
sua maior parte, na exploração predatória de recursos naturais \u2013 florestais, 
dos campos naturais e aquáticos. 
 A exploração madeireira predatória e, especialmente seu 
processamento, foram abruptamente interrompidos pela patente ilegalidade 
da maior parte de seus atores. O potencial de fruticultura, rizicultura ou de 
borracha são etapas que alternam na lógica produtiva sem trazer grandes 
modificações às condições de desenvolvimento socioeconômico, onde a 
região do Marajó ainda enfrenta grandes desafios causados em parte pela 
forte desigualdade social e conflito fundiário.
 Quatro atividades podem ser compreendidas como as mais 
abrangentes e entre as de maior potencial de produção. As atividades de 
produção de mandioca, a manipulação do fruto do açaí, a pecuária de corte 
e a pesca artesanal compreendem grande parte da economia do Marajó na 
zona rural. Importante comentar que a economia do Marajó encontra-se 
estagnada e, em alguns casos, em declínio acentuado, em contraponto ao 
boom econômico brasileiro. A mandioca está presente em diversas regiões 
de terra firme, no entanto, sua baixa produtividade leva à importação de 
cerca de 2/3 das necessidades regionais de consumo. Desde a introdução 
acidental da bubalinocultura que o Marajó reúne o maior rebanho brasileiro 
de búfalos (este já chegou a mais de 500 mil cabeças e hoje seria inferior a 
200 mil), além de pecuária bovina (que diminuiu de cerca de 800 mil na 
década de 1970 para os atuais 500 mil).
 
 
 O açaí (Euterpe olereacea), presente na maior parte das florestas 
alagáveis da região, inicialmente procurado pelo seu palmito (até a década 
de 1990), vem experimentando forte procura por seu fruto (para fazer o 
vinho, a polpa), o que aumenta a procura por regiões onde está presente 
naturalmente. A intensificação da produção de açaí está associado ao maior 
emprego de mão-de-obra infantil, fortalecimento do sistema de aviamento, 
abertura de canais e estradas, desmatamento de margens, extirpação de 
outras espécies (virola, andirobeira, pau mulato e de outras palmeiras como 
o buriti (Mauritia flexuosa), aumentando a monocultura do açaí, com riscos 
(fito-sanitários). 
 Quanto à pesca, poucos dividendos garantem às comunidades 
locais. A pesca comercial é altamente predatória e constante ameaça para a 
própria segurança alimentar local. A pesca artesanal não é capaz de entregar 
produto além da demanda local. 
 Merece comentário o turismo, que apesar do Marajó ser 
conhecido nacional e, até internacionalmente, sempre esteve associado ao 
turismo de sol e praia e de um turismo rural de grandes propriedades. O 
fato é que, mesmo com investimentos públicos, este nunca prosperou e 
demonstra fragilidades crônicas. Por parte da oferta há baixa compreensão 
da sustentabilidade e das questões ambientais, bem como baixa qualificação 
profissional e interesse empresarial. Da demanda, há falta de clareza acerca 
de nichos a atender e informações não estão acessíveis. O baixo e irregular 
fluxo turístico dificulta remunerar empreendimentos e profissionais. 
 A comissão espanhola acredita que a situação social da ilha, (...) os 
riscos de perda e degradação dos valores naturais com a exploração insustentável, 
unindo ao grande potencial ecoturístico que oferece, insuficientemente explorada, 
e a atual dimensão social e institucional existente para a promoção da atividade 
ecoturística, justificam a cooperação e o auxílio ao desenvolvimento do ecoturismo 
como ferramenta e estratégia que contribua ao desenvolvimento econômico das 
populações locais compatível à conservação ambiental. (Centellas/Velasco 06).
 As iniciativas de turismo rural e ecoturismo foram apenas iniciadas 
e necessitam de fortalecimento. Apesar de suas praias de rio, da beleza cênica 
de seus diversos ecossistemas, das possibilidades de avistagem de avifauna e 
das oportunidades de vivenciar a cultura tradicional, estas não se encontram 
devidamente organizadas como produtos turísticos. As poucas unidades de 
negócio são inviáveis, ou se mantém com outras fontes (ex: fazendas de 
gado). A precariedade do transporte para todo o Marajó fragiliza ainda mais 
o turismo \u2013 embarcações com conforto sofrível, dificuldade de aquisição de 
passagens, terminais desqualificados e atendimento inexistente (Centellas 
& Velasco, 2006).
Breves foi importante pólo processador de madeira, chegando 
a processar mais de 600 mil m3/ano até o início da década de 
2000, hoje resume-se a menos de 1/10 desta atividade, o que 
significou desemprego para mais de 5 mil pessoas.
104 105CONSERVAÇÃO DA NATUREZA10CORONELISMO HÍDRICO NA TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUASDO SÃO FRANCISCOA realidade hídrica, principalmente nos aspectos atinentes à oferta e uso das águas, é tema que, historicamente, tem marcado o debate sobre o semi-árido nordestino e motivado pesquisadores a buscarem compreender a relação existente entre o clima, o solo, a água e as plantas, bem como a sua importância para a população.João Suassuna1
 Após o agravamento da crise de abastecimento hídrico do 
Nordeste no ano de 1995, a transposição de águas do rio São Francisco 
passou a ser vista como a única alternativa possível de solução para esse 
problema. 
 Atualmente, existem dois cenários bem definidos com relação ao 
tema: o primeiro, o do imediatismo, bastante difundido na classe política, 
caracterizado pela ânsia de fazer chegar água, a todo custo, às torneiras da 
população, sem haver, no entanto, preocupação com as conseqüências 
impostas ao ambiente ao se adotar essa alternativa; o segundo é o cenário 
da ponderação, caracterizado pela preocupação constante, principalmente 
no meio técnico, com as limitações das fontes hídricas nesse processo 
transpositório. O primeiro cenário diz respeito às questões do Brasil 
virtual ou oficial e, o segundo, às questões do Brasil real.
 As observações realizadas nesse capítulo referem-se ao cenário 
do Brasil real.
Quantitativos hídricos
 
 O planeta Terra poderia ser chamado de planeta Água uma vez 
que possui, aproximadamente, 1.370.000.000 km³ de água, distribuídos 
sobre 2/3 de sua superfície. Os mares e oceanos, constituídos de águas 
salgadas, representam 97%