Conservação da Natureza - E eu com isso?
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Conservação da Natureza - E eu com isso?


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de fontes poluentes 
na matriz energética. Ironicamente, em um país no qual as condições 
naturais favorecem o investimento em energias renováveis, o governo 
decide investir mais de 160 bilhões de reais no pré-sal.
 A ampliação do uso de recursos energéticos renováveis em nossa 
matriz elétrica depende de vários fatores. O primeiro deles é a vontade 
política para a implementação de políticas públicas que favoreçam esse 
desenvolvimento. Mas a implementação dessas políticas parte de nosso 
engajamento enquanto cidadãos e de como nos posicionamos para exigí-
las. A informação sobre os diversos potenciais energéticos brasileiros, as 
reservas energéticas disponíveis e sua duração subsidiam a comunicação 
social de um desenvolvimento econômico e sustentável.
 
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 Outra proposta descentraliza o licenciamento ambiental, 
retirando poderes do IBAMA e passando-os para órgãos ambientais 
estaduais ou municipais.
 Toda vez que alguém propõe algo assim, a alegação é sempre 
a mesma: o país se encontra numa nova situação, numa nova fase de 
crescimento acelerado, e a legislação ambiental existente seria antiga e 
ultrapassada. Mudanças na legislação, eles dizem, são necessárias para 
adaptar o país a um mundo em contínua transformação, são parte da 
modernidade. 
 Não estou nem um pouco convencido disso. Não há nada de 
errado em princípio com mudanças na legislação para acompanhar as 
transformações do mundo; isso acontece em qualquer sociedade humana. 
Porém, é preciso ter bem claro que as mudanças propostas representam 
um baita retrocesso. Para entender por que, acho que é crucial entender 
como elas se encaixam na \u201ctragédia dos comuns\u201d, uma situação conhecida 
há muito tempo \u2013 há quase dois mil e quinhentos anos, na verdade \u2013 
e que traz sérios problemas. Essa discussão bastante antiga infelizmente 
parece cada vez mais atual no Brasil de hoje.
 
O nascimento da idéia
 No quinto século antes de Cristo, na Grécia antiga, o grande 
historiador Tucídides já havia percebido claramente o mecanismo da 
tragédia dos comuns. Ele escreveu: \u201cEles devotam uma fração muito 
pequena do seu tempo à consideração de qualquer objetivo público, e a 
maior parte dele a perseguir seus próprios objetivos. Enquanto isso todos 
imaginam que nenhum mal vai vir dessa negligência, que é problema de 
alguém mais cuidar disso ou daquilo para ele; e portanto, uma vez que 
a mesma noção é a que cada um tem separadametne, a causa comum 
imperceptivelmente se degrada.\u201d Seu compatriota Aristóteles, no século 
seguinte, também manifestou preocupações similares. Muito depois, 
a idéia foi expressa com toda clareza em 1833 pelo economista inglês 
William Forster Lloyd. 
 Lloyd propôs uma pequena fábula sobre uma vila medieval 
inglesa que ilustra bem o raciocínio da tragédia das áreas de uso comum. 
Cada vila assim tradicionalmente possuía uma área usada coletivamente 
por todos os habitantes, por exemplo para pasto. Em uma vila imaginária, 
o pasto produzia forragem suficiente para alimentar mil bois. A vila tinha 
mil pastores, e se cada um tivesse um boi, o pasto seria capaz de se manter 
* Texto originalmente publicado em www.oeco.com.br
1 Biólogo, PhD en Ecologia pela Universidade de Durham (Inglaterra), Professor do Departamento de Ecologia da UFRJ, seu 
principal interesse em ensino e pesquisa é a Biologia da Conservação. 
O ATAQUE À LEGISLAÇÃO 
AMBIENTAL E A ATUALIDADE DA 
TRAGÉDIA DOS COMUNS*
Nunca antes na história deste país se viu uma tão grande e bem 
coordenada ofensiva contra a legislação ambiental. O maior 
exemplo, claro, é o do Código Florestal. Ao mesmo tempo, surgem 
mais e mais propostas para recategorizar Unidades de Conservação 
de modo a diminuir seu grau de proteção, ou até para reduzir suas 
áreas.
Fernando Fernandez1
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por manejo local eficiente de recursos de propriedade compartilhada, 
como no caso de extrativismo ou pesca por exemplo. No entanto, isso 
na prática é bastante difícil em muitos casos, especialmente em situações 
onde o \u201crecurso\u201d em questão é um serviço ambiental difuso, como a água, 
o ar ou o clima. Não há dúvida que o mais sábio é evitar, sempre que 
possível, cair em situações que favoreçam o aparecimento da tragédia dos 
comuns.
 Um aspecto bem conhecido da tragédia dos comuns é o 
efeito da escala: o risco de problemas tende a aumentar à medida que 
aumenta o tamanho do sistema que estamos analisando. Não importa 
quão grande seja o sistema, os benefícios de uma exploração irresponsável 
de seus recursos continuam igualmente evidentes, porque por serem 
individualizados são facilmente perceptíveis por cada um. Os prejuízos 
coletivizados, por sua vez, parecem cada vez mais difusos e portanto 
difíceis de perceber. A vantagem que desmatar uma margem de rio traz 
para um agricultor pode ser muito evidente, mas o efeito que esse ato terá 
sobre a piora da qualidade da água, embora exista, será bem menos óbvio.
Tudo isso parece familiar? Pois é. Se você pensar bem, é difícil pensar em 
qualquer problema ambiental que não se encaixe nessa lógica \u2013 o que 
torna cada vez mais fundamental tê-la em mente quando discutimos o 
mundo de hoje.
As mudanças na legislação e a tragédia dos 
comuns
 
 Por que esta questão parece mais atual que nunca no Brasil?
Os \u201ccommons\u201d da nossa história são a nossa água (nossos rios, lagos 
e mares), os ambientes críticos como margens dos rios e encostas 
florestadas, a nossa atmosfera, a nossa biodiversidade. Tudo isso são 
recursos compartilhados que geram serviços ambientais para todos.
A água é essencial para tudo, claro, inclusive para a própria agricultura. 
 Proteger as margens dos rios protege sua qualidade, e impede 
seu açoreamento e degradação. As florestas protegem os solos contra a 
erosão, e nos morros impedem tragédias como as que tantas vezes temos 
visto em encostas desmatadas e irresponsavelmente ocupadas. As florestas 
em geral melhoram a qualidade do ar e os microclimas locais e regionais. 
Além disso preservam grande parte do que ainda resta de biodiversidade 
e portanto os serviços que ela presta, incluindo a polinização de muitas 
indefinidamente, garantindo sustento para todos eles. Agora imagine 
que um dos pastores decidisse colocar não um, mas três bois no pasto. 
Do ponto de vista individual, seria uma decisão perfeitamente racional, 
porque ele iria triplicar seu faturamento, e dois boizinhos a mais, afinal 
de contas, não iriam fazer nenhuma diferença. Onde pastam mil bois, 
pastam mil e dois.
 Nosso pastor teria toda razão, se não fosse por um pequeno 
detalhe: outras pessoas à volta dele inevitavelmente vão pensar da mesma 
forma. Se por exemplo metade dos pastores pensasse assim, e colocassem 
três bois cada, já teríamos 1500 bois desses, mais os 500 dos demais. 
Mas onde pastam mil bois, não pastam dois mil. Desse momento em 
diante, numa situação assim, a tragédia está em pleno curso: é inevitável 
que haja sobrepastoreio, que o pasto seja degradado, e que por fim seja 
impiedosamente destruído pela erosão. O que no início parecia a decisão 
racionalmente mais correta para cada um trouxe a ruína - econômica e 
ambiental - para todos.
Benefícios individualizados e prejuízos coletivizados
 
 Esta expressão tem sido traduzida em português como \u201ca tragédia 
das áreas de uso comum\u201d, ou simplesmente \u201ca tragédia dos comuns\u201d.
Hardin formalizou e estendeu as idéias de Tucídides, Aristóleles e Lloyd, 
utilizando o exemplo da vila e do pasto que havia sido proposto por 
este último. Hardin argumentou que o que chamamos de problemas 
ambientais tendem a surgir em situações onde o benefício é individualizado 
e o prejuízo é coletivizado. Numa situação assim, o estímulo para 
superexplorar é muito maior que o estímulo para conservar.
 Tanto Hardin como a americana Elinor Ostrom \u2013 que ganhou 
recentemente