A ARTE DE AMAR ERICH
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A ARTE DE AMAR ERICH


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arco e flecha \u201ccomeça fazendo exercícios respiratórios. (Zen 
in the Art of Archery, E. Herrigel, Londres, Routledge, 1954). Se alguém quer tomar-
se mestre em alguma arte, deve ter a vida inteira devotada a ela, ou pelo 
menos relacionada com ela. A própria pessoa se toma um instrumento para a 
prática da arte e deve ser conservada em condições adequadas, de acordo com 
as funções específicas que tem a desempenhar. Com relação à arte de amar, 
isto significa que quem aspire a tomar-se mestre nessa arte deve começar por 
praticar a disciplina, a concentração e a paciência, em todas as fases de sua 
vida. 
Como se pratica a disciplina? Nossos avós estariam muito melhor 
preparados para responder a esta pergunta. Sua recomendação era levantar-se 
cedo pela manhã, não se comprazer em prodigalidades desnecessárias, 
trabalhar duro. Este tipo de disciplina tinha deficiências evidentes. Era rígido e 
autoritário, centralizado em tomo das virtudes da frugalidade e da poupança, e 
de muitos modos hostil à vida. Mas, em reação a essa espécie de disciplina, 
tem havido uma tendência crescente a suspeitar de qualquer disciplina, a fazer 
da complacência indisciplinada e ociosa pelo resto da vida o contrapeso e o 
equilíbrio do modo rotinizado de vida que nos é imposto durante as oito 
horas de trabalho. Levantar-se a hora regular, dedicar razoável parte do 
tempo, durante o dia, a atividade como meditar, ler, ouvir música, passear; não 
ceder, pelo menos não além de certo mínimo, a atividades escapistas como 
histórias de mistério e fitas de cinema, não comer nem beber demais \u2014 são 
algumas regras evidentes e rudimentares. É essencial, contudo, que a disciplina 
não seja praticada como regra imposta do exterior, e sim que seja a expressão 
da vontade própria de alguém; que seja sentida como agradável, e que a pessoa 
vagarosamente se acostume a uma espécie de comportamento que acabaria 
por esquecer se parasse de praticá-lo. Um dos aspectos infelizes de nosso 
conceito ocidental de disciplina (como das outras virtudes) é ode supor-se sua 
prática algo dolorosa, só podendo ser \u201cboa\u201d se for dolorosa. O oriente 
reconheceu há muito tempo que aquilo que é bom para o homem \u2014 para seu 
corpo e sua alma \u2014 deve também ser agradável, ainda que no princípio se 
torne necessário superar certas resistências, 
A concentração é bem mais difícil de praticar em nossa cultura, em que 
tudo parece agir contra a capacidade de concentrar-se. O passo mais 
importante no aprendizado da concentração é aprender a ficar só consigo 
mesmo, sem ler, sem ouvir rádio, sem fumar, sem beber. Na verdade, ser 
capaz de concentrar-se significa ser capaz de ficar só consigo mesmo \u2014 e esta 
capacidade é precisamente uma condição da capacidade de amar. Se me ligo a 
outra pessoa porque não posso suster-me por meus próprios pés, ele ou ela 
podem ser um salva-vidas, mas a relação não é a de amor. Paradoxalmente, a 
capacidade de ficar só é a condição da capacidade de amar. Quem quer que 
tente ficar só consigo mesmo descobrirá quão difícil isso é. Começará a 
sentir-se inquieto, nervoso, ou mesmo a experimentar considerável ansiedade. 
Estará disposto a racionalizar sua má vontade em continuar com essa prática 
pensando que ela não tem valor, é simplesmente tola, toma muito tempo, e 
assim por diante. Observará também que lhe vêm à mente todas as 
espécies de pensamento, que tomam conta dele. Ver-se-á a pensar em 
seus planos para o resto do dia, ou numa dificuldade no trabalho que tem a 
fazer, ou aonde ir à noite, ou em qualquer número de coisas que lhe encherão 
a mente \u2014 em lugar de permitir que ela se esvazie. Seria útil praticar uns 
poucos e muito simples exercícios como, por exemplo, sentar-se em 
posição repousada (nem espreguiçada, nem rígida), fechar os olhos e tentar 
ver em frente deles uma tela branca, tentar remover todos os pensamentos e 
imagens que interferem, tentar acompanhar a própria respiração; não pensar 
a respeito dela, nem forçá-la, mas simplesmente acompanhá-la \u2014 e, ao fazê-
lo, senti-la; tentar, além do mais, ter o senso do seu \u201cEu\u201d; eu = mim mesmo, 
como o centro de minhas forças, como o criador de meu mundo. Dever-se-
ia, pelo menos, fazer esse exercício de concentração todas as manhãs durante 
vinte minutos (se possível, mais) e todas as noites antes de deitar-se. 
(Embora haja considerável volume de teoria e prática a este respeito nas 
culturas orientais, especialmente na indiana, alvos semelhantes têm sido 
objetivados em anos recentes, também no Ocidente. A escola de maior 
significação, a meu ver, é a de Gindler, cujo objetivo é sentir o próprio corpo. 
Para compreensão do método de Gindler, veja-se também a obra de Charlotte 
Selver, em suas conferências e cursos na \u201cNew School\u201d, em Nova York.) 
Além de tais exercícios, deve-se aprender a ficar concentrado em tudo o 
que se faz, em ouvir música, em ler um livro, em falar com uma pessoa, em 
ver uma paisagem. A atividade do momento presente deve ser a única coisa 
que importa, a que merece plena entrega. Se se está concentrado, pouco 
importa aquilo que se esteja fazendo; as coisas importantes, assim como as 
sem importância, assumem nova dimensão de realidade, porque detêm a 
integral atenção da pessoa. Aprender concentração , exige que se evite, tanto 
quanto possível, a conversação trivial, isto é, a conversação que não é genuína. 
Se duas pessoas falam a respeito do crescimento de uma árvore que ambas 
conhecem, ou do gosto do pão que acabam de comer juntas, ou acerca de 
uma experiência comum em seu serviço, tal conversa pode ser importante, 
desde que elas experimentem aquilo de que falam e não tratem disso de 
maneira abstraída; por outro lado, uma conversação pode tratar de assuntos 
de política ou religião e, contudo, ser trivial; isto acontece quando as duas 
pessoas falam usando lugares-comuns, quando seus corações -não estão 
naquilo que dizem. Poderia acrescentar aqui que tão importante quanto evitar 
a conversação trivial é evitar as más companhias. Por más companhias não me 
refiro apenas a pessoas que sejam viciadas e destruidoras; deve-se evitar a 
companhia destas porque sua órbita é venenosa e deprimente. Falo também 
da companhia dos zumbis, da gente que tem a alma morta, embora seu corpo 
esteja vivo; daqueles cujos pensamentos e conversas são triviais que tagarelam 
em vez de falar e que emitem opiniões estereotipadas em vez de pensar. Nem 
sempre, entretanto, é possível evitar a companhia de tal gente, e nem mesmo 
isso é necessário. Se não se reage de modo esperado \u2014 isto é, por \u201cmeio de 
lugares-comuns e trivialidades \u2014, mas direta e humanamente, muitas vezes se 
verá que tais pessoas mudam seu comportamento, ajudadas pela surpresa que 
o choque do inesperado causou. 
Ficar concentrado em relação aos outros significa, antes de tudo, ser 
capaz de ouvir. Muitas pessoas ouvem as outras, e até dão conselhos, sem 
ouvir realmente. Não levam a sério o que a outra pessoa fala, nem também 
levam a sério suas próprias respostas. Em conseqüência, a conversação deixa-
as cansadas. Têm a ilusão de que ficariam ainda mais fatigadas se ouvissem 
com concentração. A verdade, porém, é o oposto. Qualquer atividade, se feita 
de maneira concentrada, toma-nos mais despertos (embora depois sobrevenha 
um cansaço natural e benéfico), ao passo que qualquer atividade não 
concentrada nos deixa sonolentos \u2014 e ao mesmo tempo torna difícil 
adormecer ao fim do dia. 
Ficar concentrado significa viver plenamente no presente, agora, aqui, e 
não pensar na coisa seguinte a ser feita enquanto estou fazendo outra coisa 
neste instante. Desnecessário é dizer que a concentração deve ser praticada, 
acima de tudo, por pessoas que mutuamente se amam. Devem aprender a 
estar próximas uma da outra, sem fugir pelos muitos modos por que isso é 
costumeiramente feito. O começo da prática