Violência sexual no Brasil Perspectivas e Desafios - 2005
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Violência sexual no Brasil Perspectivas e Desafios - 2005


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Violência Doméstica e Familiar contra as Mulheres nos Fóruns Municipais
e no Distrito Federal. Trata-se de medida absolutamente indispensável à
eficácia social da lei pois apenas a especialização de juízes e dos demais
funcionários da justiça, adequadamente capacitados, proporcionará o
eficaz tratamento das vítimas pelo sistema de justiça. Por sua amplitude, o
anteprojeto inova, ao adotar uma Política de Prevenção dirigida ao Poder
Público e à sociedade, com políticas capazes de promover mudanças
culturais para a superação da desigualdade entre homens e mulheres.
j) n. 04.419/01, que obriga a realização de exame de corpo de delito em
vítimas de violência sexual em hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS).
Dentre estes diversos projetos de lei, destacamos ainda, pelo seu potencial
inovador nas políticas, os projetos descritos acima nas letras b, h e j. O
primeiro, letra b, trata de iniciativas que visam dar suporte a políticas de
segurança de casas-abrigos para mulheres em situação de violência
doméstica. O segundo projeto, mencionado na letra h, dispõe sobre o
afastamento do agressor do lar. O terceiro, letra j, prevê que os médicos
do SUS possam realizar os exames de corpo de delito nas vítimas de
violência sexual.
Além de dois Projetos de Lei que foram transformados em leis:
a) Lei n. 10.455/2002, que altera o artigo 69 da Lei n. 9.099/95, incluindo
parágrafo único, que para casos de violência doméstica, o juiz poderá
determinar, como medida de cautela, seu afastamento do lar, domicílio ou
local de convivência com a vítima;
b) Lei n. 10.224 /01, que dispõe sobre o crime de assédio sexual.3
Destacamos também a iniciativa da sociedade civil que, através das
organizações não governamentais Advocaci, Agende, Cepia, CFemea, IPÊ/
Cladem e Themis, juntamente com especialistas em direito, formaram um
consórcio que vem trabalhando na construção de uma lei nacional que
contemple todas as especificidades da violência doméstica e familiar contra
a mulher. Desta iniciativa surgiu uma minuta de Anteprojeto de Lei sobre
Violência Doméstica. Este consórcio de entidades iniciou seus trabalhos
há dois anos e, neste intervalo de tempo, realizou um importante processo
de discussão e estudos voltados para as peculiaridades do contexto
3 Ver na parte sobre Código Penal, artigo 216a.
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Cecília de Mello e Souza - Leila Adesse Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios
\u2018vida\u2019, justificando moralmente a absolvição de acusados de homicídio
através da tese da \u2018legítima defesa da honra\u2019. A conclusão desta pesquisa
apontou que a política adotada pelo Judiciário é estimuladora da violência
de gênero, nos casos em que as vítimas e réus são cônjuges ou companheiros
(Hermann, Barsted, 1995).
Além da política institucional do Judiciário ser discriminatória e contribuir
para a perpetuação da situação de desigualdade de poder entre homens
e mulheres, principalmente na esfera doméstico-familiar, o próprio texto
legal do Código Penal afirma a subordinação feminina. Por exemplo, nas
hipóteses elencadas no artigo 107, sobre extinção da punibilidade,4 inclui-
se o casamento da vítima com o agente, nos crimes contra os costumes
(crimes sexuais), inciso VII, e na hipótese seguinte, inciso VIII, o casamento
da vítima com terceiro, nestes mesmos crimes, se cometidos sem violência
real ou grave ameaça, desde que a ofendida não requeira o prosseguimento
do inquérito policial ou da ação penal no prazo de 60 dias a contar da
celebração. Através desta leitura, está implícita a noção de recuperação
da \u201chonra\u201d perdida através do casamento, que recoloca a vítima mulher
na sua posição social tradicional: a de esposa. O critério \u201chonestidade\u201d
também revela um padrão discriminatório na análise dos crimes sexuais
pelo Judiciário.
Em relação à violência sexual contra as mulheres, uma pesquisa realizada
por Vera Regina de Andrade aponta para o fato de o Judiciário vitimizar
duplamente as mulheres. Além da ocorrência do crime sexual, a vítima
terá que se deparar com o sistema penal, considerado por Vera Regina
como um \u201cmeio ineficaz para a proteção da mulher\u201d, sendo um sistema
de violência institucional que trata desigualmente e de forma
discriminatória homens e mulheres. A utilização do critério \u201chonestidade\u201d
5.2 Políticas do Judiciário
A política do Judiciário para lidar com casos de violência contra a mulher
tem contribuído para manter a desigualdade nas relações entre homens e
mulheres no espaço doméstico-familiar, naturalizando os tradicionais papéis
do feminino e masculino, ou seja, a natureza masculina como violenta e a
natureza feminina como dócil e passiva. Além disso, a política adotada
pelo Judiciário sobre a violência contra a mulher na relação conjugal é
considerar este evento como um acontecimento de menor relevância.
Um dado importante, levantado na pesquisa realizada pelo IPÊ (Instituto
pela Promoção da Eqüidade) e Cladem (Comitê Latino-americano e do
Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher), sobre 50 processos judiciais
sobre estupro, em cinco regiões brasileiras, no período de 1996 a 1997,
aponta a recorrência da utilização da tese da legítima defesa da honra
pelos advogados de defesa dos acusados e a sua acolhida pelos tribunais
brasileiros, recentemente. Esta tese tem acolhida no texto do artigo 25 do
Código Penal, que estabelece ser legítima a defesa quando quem, usando
moderadamente os meios necessários, repele injusta agressão, atual ou
iminente, a direito seu ou de outra pessoa. A tese aplicada ao crime de
adultério por ser crime contra a organização familiar, legitima a ação
violenta do marido, justificando a alegação de que a honra do marido foi
ofendida e merece reparação, mesmo que através da violência ou
assassinato da esposa.
Em levantamento de processos de homicídio e lesões corporais contra
mulheres realizado pela Cepia (Centro de Estudos Pesquisa Informação e
Ação), constatou-se que o Judiciário procede a investigação sobre a vida
íntima da vítima, quando esta é a mulher, e o seu comportamento,
reforçando os estereótipos de gênero. Além disso, a política adotada pelo
Judiciário prioriza o bem jurídico \u2018família\u2019 em detrimento do bem jurídico
4 A extinção da punibilidade ou perdão judicial ocorre quando surgem fatos ou atos jurídicos que
impedem o direito de punir do Estado, ou seja, que extinguem a punibilidade em relação a
determinada conduta que é violatória da lei (Delmanto, 2003).
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Cecília de Mello e Souza - Leila Adesse Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios
seu funcionamento, bem como a falta de capacitação de seus funcionários
para qualificar a sua atuação (Barsted, 1994).
São Paulo lidera o país com 40,7% das DEAMs, seguido de Minas Gerais
com 13%. Em São Paulo também se encontra uma rede de assistência à
mulher vítima de violência doméstica e sexual. Estas são redes muito mais
ampliadas que na maioria dos municípios brasileiros. Já regiões como o
Grande Rio contam com seis DEAMs \u2013 Centro, Caxias, Nova Iguaçu, Zona
Oeste, Niterói e São Gonçalo. O estado do Rio de Janeiro conta com o
Cedim (Conselho Estadual dos Direitos da Mulher), onde funciona o CIAM
(Centro Integrado de Atendimento à Mulher). Nos municípios do interior
do estado do Rio de Janeiro, existem seis Núcleos Integrados de Atenção à
Mulher (Niams), apoiados pelo CEDIM. Há 23 Núcleos de Direito da Mulher
e de Vítimas da Violência na cidade, ligados à Defensoria Pública.
Além das DEAMse da criação dos Conselhos dos Direitos da Mulher, a
construção de casas-abrigo e centros de atendimento à mulher em situação
de violência também contribuíram para dar visibilidade às violações dos
direitos humanos das mulheres e garantir a sua proteção. A Secretaria
Executiva do CNDM/SEDH, através da ação de Apoio à Implantação de
Casas-abrigo, incluiu, entre os objetivos do Programa de Combate à
Violência Contra a Mulher, a ampliação cada vez maior da rede de entidades