Violência sexual no Brasil Perspectivas e Desafios - 2005
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Violência sexual no Brasil Perspectivas e Desafios - 2005


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A \u201cviolência
ou grave ameaça\u201d consiste no emprego ou não de força física capaz de
impedir a resistência da vítima. Assim, o estupro é um crime que só pode
ser praticado por um homem contra uma mulher, incluídas, nesse caso,
meninas e adolescentes.2
No artigo 214, o atentado violento ao pudor é caracterizado como
\u201cconstranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou
permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal\u201d.
Aqui, todas as situações diferentes do coito vaginal são incluídas, como:
mordidas, sucção das mamas, manobras digitais eróticas e a cópula anal
ou oral. Desta forma, o atentado violento ao pudor pode ser praticado
contra vítimas de ambos os sexos, sob as mesmas formas de
constrangimento válidas para o estupro (Drezett, 2000).
Como já foi dito antes, algumas formas de violência necessitam de
denominações especiais por possuírem especificidade na relação agressor-
vítima (Drezett, 2000), como por exemplo: o incesto, a pedofilia e a
Apesar dos avanços, ainda existem muitas lacunas no que diz respeito ao
conhecimento que temos do problema, à identificação de casos, ao
atendimento que prestamos, à formação de profissionais, e à prevenção a
partir da infância.
Além das dificuldades conceituais e as limitações já apontadas, também
se verifica uma ambigüidade na identificação da violência sexual por
parte das mulheres, no âmbito doméstico e com homens conhecidos.
Pesquisas (Berger, 2003) revelam como são nebulosas, para as brasileiras,
as fronteiras entre o contato sexual desejado e o consentido e cedido a
partir de contextos complexos, em que o desejo da mulher não é expresso
livremente. Os dados da dissertação de Berger também revelam como a
violência doméstica de natureza não sexual está atrelada à violência
sexual conjugal, apontando para uma complexidade que precisa ser mais
bem compreendida e que é fundamental para a definição do problema.
Para o movimento de mulheres com uma perspectiva de direitos humanos,
a violência de gênero é definida como \u201ctodo ato que resulta em dano
ou sofrimento físico, sexual ou psicológico, incluindo ameaças, coerção
e privação da liberdade\u201d (Heise et al., 1994). A violência sexual pode
ser definida, de maneira ampla e genérica, como uma violência de gênero
que se \u201ccaracteriza por um abuso de poder no qual a vítima (criança,
adolescente e mulher) é usada para gratificação sexual do agressor sem
seu consentimento, sendo induzida ou forçada a práticas sexuais com
ou sem violência física\u201d (Ballone e Ortoloni, 2003). Esta violência pode
ser exercida com o uso de força, intimidação, coerção, chantagem,
suborno, manipulação, ameaça ou qualquer outro mecanismo que anule
ou limite a vontade pessoal. \u201cO conceito também inclui o agressor obrigar
a vítima a realizar alguns desses atos com terceiros\u201d (Ministério da
Saúde, 2000).
2 www.violênciasexual.org.br/18demaio/legislação.htm
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Cecília de Mello e Souza - Leila Adesse Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios
2. Metodologia de Pesquisa
2.1. Fontes de Informação Disponíveis
No Brasil, nota-se um avanço no reconhecimento do problema da violência
doméstica contra a mulher (Almeida et al., 2003), na produção do
conhecimento sobre o tema, na formulação de programas e na criação
de instituições voltadas para o atendimento nessa área. No entanto, a
violência sexual não tem destaque ou visibilidade na formulação do
problema da violência contra a mulher, nem na produção acadêmica,
nem no movimento feminista (Grossi, 1994), recebendo atenção apenas
recentemente. Ademais, o enfoque doméstico exclui as formas de violência
no espaço público. Assim, a produção sobre violência doméstica é muito
extensa, mas há ainda muito pouco sobre violência sexual, havendo uma
grande necessidade de investigações quantitativas e qualitativas para
melhor compreender e dimensionar o problema. As fontes disponíveis por
nós utilizadas incluem documentos jurídicos; artigos, livros e teses sobre
violência sexual e de gênero; relatórios e documentos oficiais pautando
políticas públicas e compromissos de governo; além de sites institucionais
auxiliam a pesquisa, com dados estatísticos e informações mais recentes
sobre o tema. O detalhamento destas fontes se encontra na bibliografia.
2.2. Pesquisa de Campo
Procurou-se entrar em contato com profissionais, gestores e ativistas que
trabalham com violência sexual a partir de diferentes áreas e inserções
profissionais. Os contatos iniciais partiram de uma listagem do Ipas,
elaborada a partir do II Fórum da Região Norte de Assistência às Mulheres
exploração sexual (prostituição infantil). O incesto consiste na união sexual
ilícita entre parentes consangüíneos, afins ou adotivos, sendo cinco os
tipos de relações incestuosas clássicas: pai-filha, irmão-irmã, mãe-filho,
pai-filho e mãe-filha (Ferreira, 1986). Por pedofilia, termo aplicado à prática
do agressor, entende-se a atração sexual de adultos por crianças, variando
desde o exibicionismo até a violência agressiva e a sodomia.
Já a prostituição infantil se caracteriza pela comercialização da prática
sexual com crianças e adolescentes com fins lucrativos. São considerados
exploradores o cliente, que paga pelos serviços sexuais, e os intermediários,
que induzem, facilitam ou obrigam crianças e adolescentes a se
prostituírem. O que diferencia a prostituição infantil do turismo sexual é o
fato de que, nesse último, a exploração sexual e comercial destina-se a
servir a turistas nacionais e estrangeiros. Esta forma de exploração é muito
comum no Norte e Nordeste, quando, muitas vezes, as vítimas fazem parte
de pacotes turísticos ou são traficadas como mercadoria para outros países.
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Cecília de Mello e Souza - Leila Adesse Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios
Os crimes sexuais são pouco denunciados e há falta de instrumentos
adequados para registrar estatisticamente o problema, dificultando a
produção de um diagnóstico nacional exato sobre a violência doméstica e
sexual no Brasil.1 O número real de casos é muito superior ao volume
notificado à Polícia e ao Judiciário. Estudos do Departamento de Medicina
Legal da Unicamp, de 1997, indicam que apenas 10% e 20% das vítimas
denunciam o estupro (Drezett, 2000).
O Ministério da Saúde reconhece que menos de 10% dos casos de violência
sexual são notificados nas delegacias (Ministério da Saúde, 1999), apesar
de os dados mostrarem índices muito altos de estupro, como a ocorrência
de 11.000 deles em Delagacias Especializadas de Atendimento à Mulher
(DEAM) de 12 cidades do país (Ministério da Saúde, 2001). A pesquisa
sobre estupro feita por Ana Maria Costa e Maria Aparecida Vasconcelos
Moura, na Universidade de Brasília, ressalta que a grande maioria dos
casos intrafamiliares de estupros não são denunciados \u201cseja por
constrangimento, seja por medo de alguma implicação nas relações
familiares\u201d (Articulação de Mulheres Brasileiras, 2000). No entanto, 43%
das mulheres pesquisadas pela Fundação Perseu Abramo em 2001, em
todo o território nacional, relataram que já sofreram alguma forma de
violência sexual e doméstica, sendo que 13% relatam ter sofrido estupro
em Situação de Violência Sexual e Doméstica. Também foi solicitado aos
entrevistados que indicassem profissionais em seu município, estado e
região para serem entrevistados.
Foram realizadas 13 entrevistas semi-estruturadas em profundidade. As
entrevistas procuraram coletar dados sobre o histórico e o engajamento do
profissional com a questão, a natureza do problema em seu estado e/ou em
nível nacional, os recursos, programas e políticas existentes com sua
caracterização e qualidade. As entrevistas foram realizadas no primeiro
trimestre de 2003, por telefone com as pessoas da região Norte (oito), e no
local de trabalho e pelo telefone em Brasília (duas), e no local de trabalho,
residência e por telefone no Rio de Janeiro (três).