FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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afasta a figura central para o fundo onde as linhas se embara-
¿ Michel Foucault * Ditos e Escritos
lham, recua para o mais longe possível o lugar de onde se faz a 
revelação e o momento em que ela se faz, mas reaproxima 
como pela mais extrema miopia, aquilo que está mais afastado 
do instante em que ela fala. À medida que se aproxima dela pró­
pria, ela se adensa em segredo.
Segredo duplicado: pois sua forma solenemente última, o cui­
dado com que ela foi, ao longo de sua obra, retardada para che­
gar a termo no momento da morte transforma em enigma o 
procedimento que ela revela. O lirismo, meticulosamente exclu­
ido de Commentj\u2019ai écrit certains de m es livres (as citações de 
Janet, utilizadas por Roussel para falar do que foi, sem dúvida, 
a experiência nodal de sua vida, mostram o rigor dessa exclu­
são), aparece invertido - simultaneamente negado e purificado
- nessa estranha figura do segredo que a morte guarda e anun­
cia. 0 \u201ccomo\u201d inscrito por Roussel no título de sua obra derra­
deira e reveladora nos introduz não apenas no segredo de sua 
linguagem, mas no segredo de sua relação com tal segredo, não 
para nos guiar até ele, mas para nos deixar, pelo contrário, de­
sarmados e no mais absoluto embaraço quando se trata de de­
terminar a forma de reticência que manteve o segredo nessa re­
serva subitamente desfeita.
A primeira frase: \u201cSempre me propus a explicar de que ma­
neira eu havia escrito alguns de meus livros\u201d indica com bas­
tante clareza que essas relações não foram acidentais nem esta­
belecidas no último instante, mas que fizeram parte da própria 
obra e do que havia nela de mais constante, de mais oculto em 
sua intenção. E já que essa revelação de última hora e de primei­
ro projeto forma agora o limiar inevitável e ambíguo que dá iní­
cio à obra, concluindo-a, ela zomba de nós por não prever isto: 
fornecendo uma chave que desarma o jogo, esboça um segundo 
enigma. Para ler a obra, ela nos prescreve uma consciência in­
quieta: consciência na qual não se pode repousar, pois o segre­
do não é para ser decifrado nessas adivinhações ou charadas 
que Roussel tanto amava; ele é cuidadosamente desfeito para 
um leitor que tivesse, antes do fim do jogo, entregue os pontos. 
Mas é Roussel quem faz os leitores entregarem os pontos; ele os 
força a conhecer um segredo que eles não tinham reconhecido, 
e a se sentirem capturados por uma espécie de segredo flutuan­
te, anônimo, dado e tirado, e jamais de fato demonstrável: se 
Roussel voluntariamente disse que havia \u201csegredo\u201d, pode-se tani
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bém supor que ele o suprimiu radicalmente, dizendo-o e dizen­
do qual é. ou que ele o multiplicou deixando secreto o princípio 
do segredo e de sua supressão. A impossibilidade aqui de deci­
dir liga qualquer discurso sobre Roussel não apenas ao risco 
comum de se enganar, mas àquele, mais sutil, de sê-lo - e pela 
própria consciência do segredo, sempre tentada a encerrá-lo 
nele próprio e a abandonar a obra a uma noite fácil, totalmente 
contrária ao enigma do dia que a atravessa.
Roussel, em 1932, havia encaminhado ao editor uma parte 
do texto que iria se tornar, após sua morte, Comm entj ai écrit 
certaíns de m es livres.1 Estava combinado que essas páginas 
não deveriam de modo algum ser publicadas durante sua vida. 
Elas não esperavam sua morte; esta, na realidade, estava implí­
cita nelas, ligada sem dúvida à instância da revelação que elas 
continham. Quando, em 30 de maio de 1933, determina como 
deve ser a organização da obra, ele havia há muito tempo deci­
dido não retornar a Paris. No mês de junho se instala em Paler­
mo, cotidianamente drogado e em uma grande euforia. Tenta se 
matar ou se fazer matar, como se agora tivesse tomado \u201co gosto 
pela morte, que antes temia\u201d. Na manhã em que devia deixar 
seu hotel para um tratamento de desintoxicação em Kreuzlin- 
gen, é encontrado morto; apesar de sua fraqueza, que era extre­
ma, ele havia se arrastado com seu colchão contra a porta de 
comunicação que dava para o quarto de Charlotte Dufresne.
Essa porta ficava aberta o tempo todo; foi encontrada fecha­
da à chave. A morte, o ferrolho e essa abertura fechada forma­
ram, naquele momento e para sempre, sem dúvida, um triân­
gulo enigmático no qual a obra de Roussel nos é ao mesmo tem­
po entregue e recusada. O que podemos entender de sua lingua­
gem nos fala a partir de um limiar onde o acesso não se dissocia 
do que constitui defesa - acesso e defesa equívocos, pois se tra­
ta, neste gesto não decifrável. de quê? De liberar essa morte por 
tanto tempo temida e subitamente desejada? Ou talvez também 
de reencontrar uma vida da qual ele havia tentado obstinada­
mente se libertar, mas que ele havia por tanto tempo sonhado 
prolongar infinitamente com suas obras e em suas próprias 
obras, através de construções meticulosas, fantásticas, infati-
1 (N.A.) Sobre Roussel. hoje. nada se pode dizer que não manifeste uma divida 
flagrante do ponto de vista de Michel Leiris: seus artigos, mas também sua obra 
inteira, são a introdução indispensável a uma leitura de Roussel.
gáveis. Chaves, haverá outras agora, além daquele texto últim0 
que esta lá. imóvel, contra a porta? Fazendo gesto de abrir? Oy 
o gesto de fechar? Segurando uma chave simples maravilhosa­
mente equívoca, capaz em uma só volta de trancar ou de abrir 
Fechando-se com cuidado em uma morte sem alcance possível 
ou talvez transmitindo, mais além dela, aquele deslumbramen­
to cuja lembrança nâo havia abandonado Roussel desde os 
seus 19 anos, e do qual ele havia tentado, sempre em vão, salvo 
talvez naquela noite, reencontrar a nitidez?
Roussel, cuja linguagem é de uma grande precisão, disse cu­
riosamente de Com m entj\u2019ai écrit certains de m es livres que se 
tratava de um texto \u201csecreto e póstumo". Ele queria dizer, sem 
dúvida - por baixo da significação evidente: secreto até a morte- 
várias coisas: que a morte pertencia à cerimônia do segredo, 
que ela era um limiar preparado para ele, sua solene conclu­
são; talvez o segredo ficasse também secreto até na morte, en­
contrando nela o socorro de um artifício suplementar - o \u201cpós­
tumo" multiplicando o "secreto\u201d por ele mesmo e inscrevendo-o 
no definitivo; ou melhor, que a morte revelaria que há um se­
gredo, mostrando não o que ele esconde, mas o que o torna 
opaco e impenetrável; e que ela guardaria o segredo revelando 
que ele é secreto, dando-lhe epíteto, mantendo-o substantivo. E 
não se tem mais nada na mão a não ser a indiscrição obstinada, 
questionadora de uma chave aferrolhada - cifra decifradora e 
cifrada.
Comment fa i écrit certains de m es livres oculta tanto, se­
não mais do que desvela a revelação prometida. Oferece quase 
que unicamente destroços em uma grande catástrofe de lem­
branças que obriga a \u201ccolocar reticências\u201d . Mas, por mais ampla 
que seja esta lacuna, ela ainda não passa de um acidente de su­
perfície ao lado de uma outra, mais essencial, imperiosamente 
indicada pela simples exclusão, sem comentário, de toda uma 
série de obras. \u201cÉ desnecessário dizer que meus outros livros, 
La douhlure. La vue e Nouvelles im pressions d'Afrique, são 
absolutamente alheios ao procedimento.\u201d Fora do segredo es­
tão também três textos poéticos, L \u2019inconsolable, Les têtes de 
carton e o poema escrito por Roussel, M on âm e. Que segredo 
encobre essa separação e o silêncio que se contenta em assina­
lá-la sem uma palavra de explicação? Escondem, essas obras, 
uma chave de uma outra natureza - ou a mesma, mas escondi­
da duplamente até a denegação de sua existência? E talvez haja
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uma chave comum da qual também dependeriam, segundo 
uma lei muito silenciosa, as obras cifradas - e decifradas por 
Roussel -, aquelas cuja cifra seria a de não ter cifra aparente. A 
promessa da chave, desde a formulação que a expõe, elude