FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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E talvez La doublure , texto escrito durante a primeira gran­
de crise, em "uma sensação de glória universal de uma intensi­
dade extraordinária\u201d, dê, na medida mesmo em que ela é sem 
método, a imagem mais exata do Segredo: as máscaras do car­
naval de Nice se mostram, escondendo; mas sob este papelão 
multicolorido, com as grandes cabeças vermelhas e azuis, os 
gorros, as cabeleiras, na abertura imóvel dos lábios ou na 
amêndoa cega dos olhos, uma noite ameaça. O que sc vê só e 
visto sob a forma de um signo desmesurado que designa, mas- 
carando-o, o vazio sobre o qual o lançamos. A máscara é oca e 
mascara esse oco. Tal é a situação frágil e privilegiada da lin­
guagem: a palavra adquire seu volume ambíguo no interstício 
da máscara, denunciando o duplo irrisório e ritual da cara de 
papelão e a negra presença de uma lace inacessível. Seu lugar é 
esse intransponível vazio - espaço flutuante, ausência de solo, 
'mar incrédulo" - onde, entre o ser oculto c a aparência desar­
mada. a morte surge, mas onde. aliás, dizer tem o poder mara­
vilhoso de dar a ver. É aí que se cumprem o nascimento e a per- 
diçáo da linguagem, sua habilidade em mascarar e conduzir a 
morte em uma dança de papelão multicolorido.
Toda a linguagem de Roussel - e não apenas seu texto derra­
deiro - é "póstuma e secreta". Secreta já que, sem nada escon­
der. ela c o conjunto escondido de todas as suas possibilidades, 
de todas as suas formas que se esboçam e desaparecem em sua 
transparência, como os personagens esculpidos por Fuxier nos
12 Míi hei Foucault - DiIiks <- Kst ritos
líamos de uva. Póstuma, pois circula entre a imobilidade das coi- 
sas e, unia vez cumprida sua morte, narra seus ritos de ressur­
reição: desde o nascimento, ela está do outro lado do tempo 
Essa estrutura cruzada do \u201csegredo\u201d e do \u201cpóstum o\u201d comanda 
a mais alta figura da linguagem de Roussel; proclamada no mo­
mento da morte, ela é o segredo visível do segredo revelado; faz 
comunicar o extravagante procedim ento c o m todas as outras 
obras; designa uma experiência maravilhosa e sofredora da lin­
guagem que se abriu para Roussel no desdobramento de La 
doublure e fechou, quando o \u201cduplo\u201d da obra foi manifestado 
pelo desdobramento da revelação final. Realeza sem mistério do 
Rito, que organiza soberanamente as relações da linguagem, da 
existência e da repetição - todo esse longo desfile das máscaras.
1962
Um Saber Tão Cruel
&quot;Um saber tão cruel\u201d . Critique, n2 182. julho de 1962, ps. 597-611. (Sobre C. 
Crébillon. Les égarem enls du coeur et de 1'esprit. texto estabelecido e apresen­
tado por Étiemble, Paris, A. Colin, 1961, e J.-A. de Révéroni Saint-Cyr, Pauíis- 
ka ou la perversité m oderne. Paris, 1798.)
Révéroni Saint-Cyr (1767-1829) era um oficial de engenharia que desempe­
nhou um papel muito importante no início da Revolução e sob o Império: foi ad­
junto de Narbonne em 1792, depois ajudante de ordem do marechal Berthier; 
escreveu um grande número de peças de teatro, uma dezena de romances 
(como Sabina d'Herfeld, em 1797. Nos fo lies , em 1799) e vários tratados teóri­
cos: Essai sur le perjectionnem ent des beaux-arts ou Calculs et hypothèses 
sur la poésie, la pe in tu re et la musique (1804); Essai sur le rnécanisme de la 
guerre (1804): Exam en critique de l equ ilibre social européen. ou Abrégé ríe 
staiistique po litique et littéra ire (1820). (Nota de M. Foucault (N.E.).)
A cena se passa na Polônia, ou seja, em qualquer lugar. Uma 
condessa desgrenhada foge de um castelo em chamas. Solda­
dos, em pressa, estriparam as criadas e pagens entre as está­
tuas que, antes de se espatifarem, voltaram lentamente para o 
céu seus belos rostos vazios; os gritos, por tanto tempo reper­
cutidos, se perderam nos espelhos. Um véu desliza sobre um 
peito, véus que mãos reatam e rasgam com os mesmos movi­
mentos desajeitados. Os perigos, os olhares, os desejos e o 
medo, se entrecruzando, form am um entrelaçamento de lâmi­
nas, mais imprevisto, mais fatal do que o dos estuques que aca­
bam de desabar. Talvez esta parede do salão fique por muito 
tempo erguida, onde uma náiade azul tenta escapar de Netuno, 
a cabeça bem ereta, de frente, olhos plantados na porta aberta, 
o busto e os dois braços voltados para trás onde se enlaçam em 
uma luta indecisa com as mãos indulgentes, ágeis, imensas de 
um velho inclinado sobre um assento de conchas leves e tritões. 
Pauliska abandona aos Cossacos da imperatriz suas terras in­
cendiadas, suas camponesas atadas ao tronco esbranquiçado
14 Miditi Foucault Ditos c Kscrilos
dos bordos, seus serviçais mutilados, a boca cheia de sangue 
Ela vem buscar refúgio na velha Europa, em uma Europa de 
pesadelos que, de um só golpe, lhe prepara todas as suas ar­
madilhas. Armadilhas estranhas, nas quais mal se reconhe­
cem aquelas, familiares, dos galanteios, dos prazeres munda­
nos. das mentiras quase voluntárias e cia inveja. O que se urde 
aí é um mal bem menos &quot;metafísico\u201d , bem mais \u201cinglês&quot; do que 
\u201cfrancês\u201d, como dizia o tradutor de Hawkesworthy1, um mal 
bem próximo do corpo e a ele destinado. \u201cPerversidade mo­
derna.\u201d
Como o convento, o castelo proibido, a floresta, a ilha inaces­
sível, a &quot;seita\u201d é, desde a segunda metade do século XVIII, uma 
das grandes reservas do fantástico ocidental. Pauliska percorre 
todo o seu ciclo: associações políticas, clubes de libertinos, 
quadrilhas de malfeitores ou de falsários, corporações de es­
croques ou de místicos da ciência, sociedades orgíacas de mu­
lheres sem homens, esbirros do Sacro-Colégio, enfim, como é 
de praxe em todos os romances de terror, a ordem ao mesmo 
tempo mais secreta e mais estrepitosa, a infinita conspiração, o 
Santo Ofício. Nesse inundo subterrâneo, as desgraças perdem 
sua cronologia e reúnem as mais velhas crueldades do mundo. 
Pauliska, na realidade, foge de um incêndio milenar, e a parti­
lha de 1795 a precipita em um ciclo sem idade; ela cai no caste­
lo dos malefícios onde os corredores se fecham, os espelhos 
mentem e observam, o ar destila estranhos venenos - labirinto 
do Minotauro ou caverna de Circe; ela desce aos Infernos; ali 
conhecerá uma Jocasta prostituída que estupra uma criança 
sob carícias de mãe, uma castração dionisíaca e cidades maldi­
tas em chamas. É a paradoxal iniciação não ao segredo perdi­
do, mas a todos aqueles sofrimentos dos quais o homem jamais 
se esquece.2
Sessenta anos antes, Les égarem ents da coeur et de 1\u2019esprit. 
que o Sr. Étiemble teve a grande lucidez de reeditar, narrava 
uma outra iniciação que não era a do infortúnio. Meilcour foi in­
troduzido na \u201csociedade\u201d, a mais brilhante mas talvez a mais
1. (N.A.) Hawkesworthy, Ariana ou la Patience réconipensée. trnd. Ir,, l\u2019allv 
1757. Nola do tradutor, p. VIII.
2. (N.A.) Révéroni propôs uma teoria da mitologia moderna em seu Essaisur h 
perjecíioniienwnl ríes beaux-arts.
1962 - Urn Saber Tão Cruel 15
difícil de decifrar, a mais aberta e a mais bem defendida, aquela 
que finge, para tirar vantagem, escapatorias pouco sinceras, 
quando o noviço tem nome importante, fortuna, um belo rosto, 
urna estatura admirável e não tem 18 anos. O &quot;mundo&quot; é tam­
bém uma seita; ou melhor, as sociedades secretas, no fim do 
século, mantiveram o papel que a hierarquia do mundo e seus 
mistérios fáceis haviam desempenhado desde o início da Idade 
Clássica. A seita é o mundo na outra dimensão, suas saturnais 
no rés do chão.
\u2666
O que Versac, na penúltima cena dos Égarernents (último 
desvio, primeira verdade), ensina ao neófito é uma &quot;ciência do 
mundo&quot;. Ciência que não se pode aprender por si mesmo, pois 
se trata de conhecer não a natureza, mas o arbitrario e a estra­
tégia do ridículo; ciência iniciatória, já que o essencial de sua 
força está em se fingir ignorá-la, e aquele que a divulga seria, se 
o descobrissem, desonrado e excluído; &quot;Estou persuadido de 
que você há de guardar o mais