FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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inviolável segredo sobre o que 
lhe digo." Essa didática do mundo comporta três capítulos; 
uma teoria da im pertinência (jogo da imitação servil com uma 
singularidade pactuada, em que o imprevisto não supera os há­
bitos, e o inconveniente importa como acesso ao jogo porque 
seu jogo é agradar); uma teoria da fa tu id a d e , com suas três tá­
ticas maiores (se fazer valer, dar voluntariamente, e principal­
mente, no último absurdo, "sustentar" uma conversação man­
tendo-a na primeira pessoa), um sistema de bom tom que exige 
estouvamento. maledicência c presunção. Mas isto nada mais 
ainda e do que um amontoado de minucias". O essencial esta 
sem dúvida cm uma lição diagonal que ensina o que Crébillon 
mais sabe; o uso da palavra.
A linguagem do mundo é aparentemente sem conteúdo, intei­
ramente sobrecarregada de inutilidades formais, ao mesmo 
tempo ritualizadas em um cenário mudo - "algumas palavras 
favoritas, alguns rodeios preciosos, algumas exclamações" - e 
multiplicadas pelos achados imprevistos que lhe enfraquecem 
o sentido com mais certeza - \u201ccolocar a finura em seus volteios 
e perigo em suas idéias\u201d . E, no entanto, é uma linguagem satu­
rada e rigorosamente funcional: toda frase ali deve ser uma for­
ma concisa de julgamento; vazia de sentido, ela deve se sobre­
16 Miclu-l Foucault - Ditos e Escritos
carregar com o maior peso possível de avaliação: \u201cNada ver., 
que nào se desdenhe ou louve em excesso.\u201d Essa palavra tagare­
la. incessante, difusa tem sempre iim objetivo econômico: um 
certo efeito sobre o valor das coisas e das pessoas. Ela assume 
entáo seus riscos: ataca ou protege: sempre se expõe; tem sua 
coragem e habilidade: deve manter posições insustentáveis, se 
abrir e se esquivar da réplica, do ridículo; ela é beligerante. 0 
que sobrecarrega essa linguagem não é o que ela quer dizer, 
mas fazer. Nada dizendo, é totalmente animada pelos suben­
tendidos. e remete a posições que lhe dão seu sentido, pois por 
si mesma ela não o tem; indica todo um mundo silencioso que 
não chega jamais às palavras: essa distância indicadora é a de­
cência. Como mostra tudo o que não se diz, a linguagem pode e 
deve tudo recobrir, e não se cala jamais, pois ela á a economia 
viva das situações, sua visível nervura: \u201cVocês observaram que 
não se parava de falar no mundo... É que não existe mais reser­
va para esgotar." Os próprios corpos no momento do seu mais 
vivo prazer não estão mudos; o vigilante Sopha já o havia obser­
vado, quando sua indiscrição espreitava os ardores de seus 
hóspedes: "Embora Zulica não cessasse de form a alguma de fa­
lar, não me foi mais possível entender o que ela dizia.\u201d
Mal escapulido do discurso capcioso de Versac, Meilcour cai 
nos braços de Lursay; ali ele redescobre seus balbucios, sua 
franqueza, sua indignação e sua idiotice, enfim, a contragosto, 
desidiotizada. Sua lição, contudo, não foi inútil, pois ela nos 
vale o relato em sua forma e em sua ironia. Meilcour, contando 
a aventura de sua inocência, não a distingue mais, a não ser no 
afastamento em que ela já está perdida: entre sua ingenuidade e 
a consciência imperceptivelmente diferente que tem dela, todo 
o saber de Versac escapou, com esse uso do mundo em que "o 
coração e o espírito são forçados a se arruinar\u201d .
A iniciação de Pauliska se faz através de grandes mitos mu­
dos. O segredo do mundo estava na linguagem e em suas regras 
de guerra; o das seitas está em suas cumplicidades sem pala­
vras. É por isso que sua vítima, jamais verdadeiramente inicia­
da, é sempre mantida no duro e monótono estatuto do objeto. 
Pauliska, obstinada noviça, escapa perpetuamente do mal do 
qual ela transpõe, sem que o queira, as barreiras; suas maos, 
que esmagam seu salvador, o corpo que ela oferece a seu algoz 
em uma extrema loucura são apenas os inertes instrumentos
1962 - Um Satwr Tão Cruel 17
de sua tortura. Pauliska, a incorruptível, é totalmente esclareci­
da, já que no final das contas ela sabe: mas ela não é jamais ini­
ciada, já que sempre se recusa a se tornar o soberano sujeito do 
que ela sabe; conhece a fundo a infelicidade de sentir em uma 
mesma inocência a oportunidade de ser advertida e a fatalida­
de de permanecer objeto.
Desde a entrada desse jogo brutal, sua armadilha - a não- 
dialética - foi anunciada. Uma noite, conduziram Pauliska a 
uma reunião de emigrantes poloneses que se propõem justa­
mente o que mais querem, restaurar a patria e fazer reinar nela 
uma ordem melhor. Pelas persianas entreabertas, ela espreita 
o estranho conciliábulo: a sombra gigantesca do grande mestre 
oscila na parede; um pouco curvado na direção do auditorio. 
ele permanece silencioso, com uma gravidade sonhadora de 
animal: à sua volta rastejam acólitos fervorosos: a sala esta re­
pleta de silhuetas baixas. Ali se fala certamente de justiça resta­
belecida, de terras partilhadas e da vontade geral que laz, em 
uma nação livre, nascerem homens livres Homens? Pauliska 
se aproxima: na luz fosca, reconhece uma assembleia de cães 
presidida por um asno: eles latem, se jo^am uns contra os ou­
tros, dilaceram o miserável burrego. Sociedade benfeitora <los 
homens, algazarra de animais Esta cena a la Goya mostra a 
noviça a verdade selvagem e antecipada do que vai lhe aconte­
cer: em sociedade (nas sociedades), o homem e apenas um cão 
para o homem; a lei e o apetite da besta.
Sem dúvida, a narrativa de iniciação deve o mais forte dos 
seus prestígios eróticos aos laços que ela torna sensível entre o 
Saber e o Desejo. Laço obsc uro, essencial, sobre o qual nos en­
ganamos ao so lhe dar estatuto no platonismo . ou seja. na ex­
clusão de 11111 dos seus dois termos. De fato. eada epoea tem seu 
sistema de &quot;conhecimento crotico\u201d. que poe cm jogo (em um so 
e mesmo jogo) a prova do Limite e a da Luz. Esse jogo obedece a 
uma geometria profunda revelada, na historia, por situações 
precaria.s ou objetos fúteis como o veu. a corrente, o espelho, a 
gaiola (figuras nas quais se compõem o luminoso e o intranspo­
nível).
*
O saber que usam com os belos inocentes aqueles que, em 
Crébillon. não o são mais tem vários aspectos:
1 8 Michel Foucault - Ditos e Escritos
- estar advertido e conduzir sutilmente a ignorância fingindo 
se desorientar com ela (seduzir);
- ter reconhecido o mal aí onde a inocência ainda só decifra 
pureza, e fazer esta servir àquele (corrom per );
- prever e preparar a saída, como o velhaco dispõe os recur­
sos da armadilha que ele arma para a ingenuidade (abusar);
- estar &quot;a par\u201d e aceitar, para melhor confundi-lo, entrar no 
jogo. embora se tenha apreendido bem o artifício que a prudên­
cia opõe em sua fingida simplicidade (tentar).
Essas quatro figuras venenosas - todas elas florescem no jar­
dim dos Égarements - crescem ao longo das belas formas sim­
ples da ignorância, da inocência, da ingenuidade, da prudência. 
Amoldam-se às suas formas, cobrem-nas com uma vegetação 
inquietante: em torno de sua nudez, cultivam um pudor redo­
brado - estranha vestimenta, palavras secretas e de duplo sen­
tido. armadura que guia os golpes. Todas elas aparentam o ero­
tismo do véu (o véu do qual o último episódio do Sopha abusa 
de forma tão vantajosa).
O véu, essa fina superfície que o acaso, a pressa, o pudor co­
locaram e se esforçam por manter: mas sua linha de força é ir­
remediavelmente ditada pelo vertical da queda. O véu desvela, 
por uma fatalidade que é a do seu tecido leve e de sua forma fle­
xível. Para desempenhar seu papel de cobrir e ser exato, o véu 
deve forrar, da maneira mais justa, as superfícies, reexaminar 
as linhas, percorrer sem discursos supérfluos a extensão dos 
volumes e multiplicar por uma brancura cintilante as formas 
que despoja de sua sombra. Suas dobras acrescentam apenas 
uma desordem imperceptível, mas esse fervilhar de tecido é 
apenas a antecipação de uma nudez próxima: ele é,