FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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sentido e do não-sentido, do significante e do significado, do 
símbolo e do signo\u201d (ver p. 115 neste volume). Este espaço dos 
simulacros, diz Foucault, é \u201co lugar contemporâneo, escondi­
do, da literatura\u201d (ver p. 123 neste volume).
Esse trabalho com o simulacro é o que dá à obra de Klos­
sowski \u201cseu aspecto sagrado e solar, desde que se encontre nela
* Le bain de Diane, Paris, Ed. Galltmard, p. 9.
** Le bain de Diane, p. 9.
Apresentação XI
o movimento nietzschiano em que se trata de Dionísio e do Cru­
cificado (pois eles são, como o viu Nietzsche, simulacros um do 
outro)\u201d (ver p. 115 neste volume).
Mas onde nasce a literatura? A literatura, em todo seu rigor, 
diz Foucault, tem precisamente seu lugar de nascimento ali, 
\u201cnesse fim do século XVIII, quando aparece uma linguagem que 
retoma e consome em sua fulguração outra linguagem diferen­
te, fazendo nascer uma figura obscura mas dominadora na 
qual atuam a morte, o espelho e o duplo, o ondeado ao infinito 
das palavras\u201d (ver p. 57 neste volume). O exemplo princeps 
dessa posição atual é o grande texto de Borges, La blbliothèque 
de Babel, cuja configuração é exatamente inversa da retórica 
clássica. Em La bib liothèque de Babel, \u201ctudo o que pode ser 
dito já foi dito: é possível encontrar ali todas as linguagens con­
cebidas, imaginadas, e mesmo as concebíveis, imagináveis; 
tudo foi pronunciado, mesmo o que não tem sentido... Entre­
tanto, acima de todas essas palavras, uma linguagem soberana 
as recobre, que as narra e na verdade as faz nascer: linguagem 
ela própria encostada na morte, já que é no momento de oscilar 
no poço do Hexágono infinito que o mais lúcido (o último, por 
conseqüência) dos bibliotecários revela que mesmo o infinito 
da linguagem se multiplica ao infinito, repetindo-se sem fim 
nas figuras desdobradas do Mesmo\u201d. Há, assim, uma oposição 
entre a retórica e a biblioteca. Se a retórica clássica não anun­
ciava as leis e as formas de uma linguagem, estabelecia relações 
entre duas palavras. A retórica repetia sem cessar, para criatu­
ras finitas e homens que iriam morrer, a palavra do infinito que 
não passaria jamais. \u201cHoje\u201d, diz Foucault, "o espaço da lingua­
gem não é definido pela Retórica, mas pela Biblioteca: pela sus­
tentação ao infinito das linguagens fragmentares, substituindo 
à dupla cadeia da retórica a linha simples, contínua, monótona 
de uma linguagem entregue a si mesma, devotada a ser infinita 
porque não pode mais se apoiar na palavra do infinito\u201d (ver p. 
58 neste volume). Quando começa a literatura? Quando o dile­
ma dos livros da biblioteca é transformado em paradoxo. No di­
lema há a alternativa: \u201cou todos os livros já estão na palavra e é 
preciso queimá-los, ou eles lhe são contrários é e preciso quei- 
iná-los também\u201d. A retórica surge como o meio de exorcizar o 
incêndio das bibliotecas. Então o paradoxo: Se fazemos um li­
vro que narra todos os outros livros, é ele mesmo um livro, ou 
não? É como se ele fosse um livro entre os outros que ele deve
XII Michcl Foucault - Ditos e Escritos
falar de si próprio? E se ele não se narra, o que pode ser, ele 
que tinha o projeto de ser um livro, e por que se omitir em sua 
narrativa, agora que ele tem de dizer todos os livros? Lugar en­
tão da literatura, \u201co livro não é mais o espaço onde a palavra ad­
quire figura (figuras de estilo, de retórica e de linguagem), mas 
o lugar onde os livros são todos retomados e consumidos: lugar 
sem lugar, pois abriga todos os livros passados neste impossí­
vel \u2018volume\u2019, que vem colocar seu murmúrio entre tantos outros
- após todos os outros, antes de todos os outros\u201d (ver p. 59 nes­
te volume).
Foucault publicou, em 1963, no número em que a revista 
Critique homenageava Bataille, seu grande artigo sobre o autor 
de M adam e Edwarda, de Erotism o e de E xp eriên c ia in terior, e 
que pretendeu fundar uma heterologia, ciência da experiên- 
cia-limite, experiência da transgressão dos limites, do gasto e 
do excesso.
Analisando a sexualidade moderna, ele nos diz que o que a 
caracteriza, de Sade a Freud, não é \u201cter encontrado a linguagem 
de sua razão ou de sua natureza, mas ter sido, e pela violência 
de seus discursos, desnaturalizada - lançada em um espaço va­
zio onde ela só encontra a forma tênue do limite, e onde ela não 
tem um para além nem prolongamento a não ser no frenesi que 
a rompe. Não se trata de que liberamos a sexualidade, mas do 
fato de que a levamos ao limite de nossa consciência, de nossa 
inconsciência, limite da lei, já que ela aparece como o único 
conteúdo absolutamente universal do interdito; limite de nossa 
linguagem; ela traça a linha de espuma do que é possível atingir 
exatamente sobre a areia do silêncio\u201d. Em um mundo que não 
reconhece sentido positivo no sagrado, não é mais ou menos 
isso que se poderia chamar de transgressão?
A emergência da sexualidade talvez seja um acontecimento 
com valor múltiplo na nossa cultura; acontecimento, como diz 
Foucault, ligado à morte de Deus e ao vazio ontológico que esta 
deixou nos limites de nosso pensamento. E também ao apareci­
mento de algo vago e hesitante, \u201cforma de pensamento em que a 
interrogação sobre o limite substitui a busca da totalidade e em 
que o gesto da transgressão toma o lugar do movimento das 
contradições\u201d (ver p. 45 neste volume). A HLstoire de Voeil, o se­
gundo livro de Georges Bataille, escrito em 1926 e publicado 
sob o pseudônimo de Lord Auch, começa assim: \u201cfui educado 
muito só e tão longe quanto me lembre, eu era angustiado por
\u25a0
Apresentação XIII
tudo o que é sexual\u201d.* Essa narrativa é a história de um jovem 
que narra as experiências que teve quando de seu encontro com 
uma jovem - Simone. Eles têm "singulares divertimentos\u201d com 
seus corpos, relacionando-se sempre com objetos privilegia­
dos, seja com ovos, urina ou olhos. Seu modo de gozo relacio­
na-se sempre a esses objetos e especialmente ao olho. Mas o 
que pode significar no cerne do pensamento de Bataille a pre­
sença de tal figura? É a questão que Foucault levanta. "O que 
quer dizer esse olho insistente no qual parece se recolher o que 
Bataille sucessivamente designou como Experiência interior, 
extremo do possível, operação cômica ou simplesmente medi­
tação?\u201d Não se trata de uma metáfora, como não é metafórica a 
percepção do olhar em Descartes. \u2018\u2018Na verdade, o olho revirado, 
em Bataille, nada significa em sua linguagem, pela única razão 
de que ele lhe marca o limite. Indica o momento em que a lin­
guagem chegada aos seus confins irrompe fora de si mesma, ex­
plode e se contesta radicalmente no rir, nas lágrimas, nos olhos 
perturbados do êxtase, no horror mudo e exorbitado do sacrifí­
cio, e permanece assim no limite deste vazio, falada de si mes­
ma em uma linguagem segunda em que a ausência de um sujei­
to soberano determina seu vazio essencial e fratura sem des­
canso a unidade do discurso" (ver p. 43 neste volume).
Foucault considera que, \u201cnesse olho, figura fundamental do 
lugar de onde fala Bataille, e onde sua lingungein despedaçada 
encontra sua morada ininterrupta, a morte de Deus. (...) a pro­
va da finitude (...) e o retorno sobre si mesmo da linguagem no 
momento de seu desfalecimento encontram uma forma de liga­
ção anterior a qualquer discurso, que talvez só tenha equivalen­
te na ligação, familiar a outras filosofias, entre o olhar c a verda­
de ou a contemplação e o absoluto" (ver p. 43 neste volume).
Para a problemática da modernidade, Blanchot é capital 
para Foucault. Ele é a \u201cpresença real. absolutamente longín­
qua, cintilante, invisível, o destino necessário, a lei inevitável, o 
vigor calmo, infinito, avaliado por esse mesmo pensamento" da 
própria ficção (ver p. 224 neste volume). É o criador de simula­
cros, \u201ccópias sem original". O espaço discursivo de Blanchot 
está "livre de qualquer centro, não afetado por qualquer solo 
nativo". Foucault