FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
490 pág.

FOUCAULT M Est 233 tica literatura e pintura m


DisciplinaLiteratura23.174 materiais97.247 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Aspecto, Origem 61
olhos, objetos que só devem sua existência e possibilidade de 
existência a Robbe-Grillet. Penso nessa balaustrada de ferro 
cujas formas negras, arredondadas (\u201cas colunas simétricas, 
curvas, redondas, recurvadas, negras") limitam o balcão do 
Pare1 e o abrem através desses vãos para a rua, a cidade, as ár­
vores, as casas: objeto de Robbe-Grillet que se recorta em som­
bra sobre a tarde ainda luminosa - objeto visto sem parar, que 
articula o espetáculo, mas objeto negativo a partir do qual o 
olhar se estende até essa profundidade um pouco flutuante, 
cinza e azul, essas folhas e figuras sem haste, que ficam para se­
rem vistas, um pouco mais além. na noite que chega. E talvez 
não seja indiferente que Le pare desenvolva mais além dessa 
balaustrada uma distância que lhe é própria: nem que ele se 
abra para uma paisagem noturna onde se invertem em uma 
cintilação longínqua os valores dc s<.:nbni e luz que, em Rob­
be-Grillet, recortam as formas no meio do dia: do outro lado da 
rua, a uma distância imprecisa e que a obscuridade torna ainda 
mais duvidosa, &quot;um amplo apartamento muito lai o cava uma 
galeria luminosa, muda, acidetr «'la. desigual - caverna de tea­
tro e de enigma para além dos arabescos de ferro obstm.&quot; ios 
em sua presença negativa. Talvez haja ai. de uma obra a outra, 
a imagem não de uma mutação não de um desenvolvimento, 
mas de uma articulação discursiva e certamente sera preciso 
um dia analisar os fenômenos desse tipo em um vocabulano 
que não seja este. familiar aos críticos e curiosamente enfeitiça 
do, clas influências e dos exorcismos.
A n tes d e v o lta r a e s s e te m a (c o n fe s s o qu e e le con s titu i o e s ­
s en c ia l d e m in h a e x p o s iç ã o ' g o s ta r ia d e d i/ c r d u as ou trés c o i­
sas s o b re as c o e r é n c ia s d t ^sa lin gu a gem co m u m , aí* c< rto p o n ­
to. a S o lle r s . a T l i ib a u d e a u . a B a u d rv . < (ah <\u25a0/ ta m b ém a o u tro s 
N ao ig n o ro o q u e ha d e ir ,ju s to cm ta la r d c m a n e ira táo ¡ al, e 
que se e s ta im e d ia ta m e n te p r e s o .»o d ile m a o au tor ou a esco la 
N o en tan to , p a re c e n u n m as p o s s ib i l id a d e s da lin gu agem em 
um a e p o e a d a d a n ã o s a o tã o num es usas qu e n ão se p ossa m e n ­
c on tra r is o m o r f is m o s (p o r ta n to , p o s s ib il id a d e s de ler vá r io s 
textos e m p r o fu n d id a d e ; e qu e n ão se d ev e d e ix a r o q u a d ro 
a b e rto p a ra o u t ro s qu< a in d a n ão e s c re v e ra m ou o u tro s que 
a in d a n ào Ib ra m lid o s P o is ta is is o m o r fis m o s nao são v isõ es 
d o m u n d o . s ã o d o b ra s in te r io r e s a í ir g u a g e m . as p a la v ra s p r o ­
I Sollers P I Li pare. p.ü is Fel du Semi. 1M1
62 M icln l Fouraull - D itos t- E scritos
nunciadas, as frases escritas passam por eles, mesmo que eles 
acrescentem rugas particulares.
1) Sem dúvida, certas figuras (ou talvez todas) do Pare, de 
Une cérem onie royale2 ou de Im a g es nào têm volume interior, 
são aliviadas desse núcleo som brio, lírico, desse centro recua­
do mas insistente cuja presença Robbe-Grillet já havia dissipa­
do. Mas, de uma maneira bastante estranha, elas têm um volu­
me - seu volume - ao lado delas, acim a e abaixo, em volta: um 
volume em perpétua desinserção, que flutua ou vibra em torno 
de uma figura assinalada, mas jam ais fixada, um volume que se 
aproxima ou se esquiva, cava sua própria distância e salta aos 
olhos. Na verdade, esses volumes satélites e errantes não mani­
festam da coisa sua presença nem sua ausência, mas antes uma 
distância que simultaneamente a mantém longe no fundo do 
olhar e a separa incorrigivelmente dela mesma; distância que 
pertence ao olhar (e parece, portanto, se im por do exterior aos 
objetos), mas que a cada instante se renova no cerne mais se­
creto das coisas. Ora, esses volumes, que são o interior dos ob­
jetos no exterior deles próprios, se cruzam, interferem uns com 
os outros, desenham formas com pósitas de uma só face e se es­
quivam sucessivamente: assim, em L e p a re , sob os olhos do 
narrador, seu quarto (ele acaba de deixá-lo para ir ao balcão e 
ele flutua assim ao seu lado, por fora, em uma vertente irreal e 
interior) comunica seu espaço com um pequeno quadro pendu­
rado em uma das paredes; este se abre por sua vez atrás da 
tela, expandindo seu espaço interior para um a paisagem mari­
nha, para os mastros de um barco, para um grupo de pessoas 
cujas roupas, fisionomias, gestos um pouco teatrais se desdo­
bram de acordo com grandezas tão desm esuradas, tão pouco 
proporcionais em todo caso ao quadro que as encerra, que um 
desses gestos leva imperiosamente à atual posição do narrador 
no balcão. Ou de um outro fazendo talvez o m esm o gesto. Pois 
esse mundo da distância não é de form a alguma o do isolamen­
to, mas o da identidade em proliferação, do M esm o no ponto de 
sua bifurcação, ou na curva de seu retorno.
2) Esse ambiente faz, certamente, pensar no espelho - no es­
pelho que dá às coisas um espaço fora delas e transplantado, 
que multiplica as identidades e m istura as diferenças em um 
lugár impalpável que nada pode desenredar. Lembrc-se jus­
2, Thibaudeau (J.), Une cérém on ie royale. Paris. Éd. de Miiiuit, 1957
1963 - Distância. Aspecto. Origem 63
tamente da definição do Parque, esta &quot;composição de lugares 
muito belos e pitorescos\u201d : cada um foi retirado de uma paisa­
gem diferente, deslocado para fora do seu lugar de origem, ele 
próprio transposto, ou quase ele próprio, nessa disposição em 
que &quot;tudo parece natural, exceto o conjunto\u201d. Parque, espelho 
dos volumes incompatíveis. Espelho, parque sutil onde árvores 
distantes se entrecruzam. Sob essas duas figuras provisórias, 
um espaço difícil {apesar de sua leveza), regular (em sua ilegali­
dade aparente) está começando a se abrir. Mas qual é ele, se 
não é inteiramente de reflexo nem de sonho, de imitação nem 
de devaneio? De ficção, diria Sollers; mas deixemos no momen­
to essa palavra tão pesada e menor.
Preferiria emprestar de Klossovvski uma palavra muito bela: 
simulacro. Seria possível dizer que. se em Robbe-Grillet as coi­
sas insistem e se obstinam, em Sollers elas se simulam; quer 
dizer, seguindo o dicionário, que elas são delas próprias a ima­
gem (a vã imagem), o espectro inconsistente, o pensamento en­
ganador: elas se representam fora de sua presença divina, mas. 
no entanto, com ela se comunicando - objetos de uma piedade 
que se dirige ao longínquo. Mas talvez fosse necessário ouvir a 
etimologia com mais atenção: simular não e vir junto\u201d, ser ao 
mesmo tempo que si e separado de si? Ser si mesmo nesse ou­
tro lugar, que não é o lugar de nascimento, o solo nativo da per­
cepção, mas a uma distância sem medida, no exterior mais pro- 
ximo? Estar fora de si. consigo, em um &quot;com&quot; no qual se cru­
zam as distâncias. Penso no simulacro sem fundo e perfeita­
mente circular de La cérém onie royale. ou naquele, prescrito 
também por Thibaudeau. do Match dejootbaü. a partida de fu­
tebol mal separada dela mesma pela voz dos repórteres encon­
tra nesse parque sonoro, nesse ruidoso espelho seu lugar de 
encontro com tantas outras falas refletidas. Talvez seja nessa 
direção que é preciso entender o que diz o mesmo Thibaudeau 
quando ele opõe ao teatro do tempo um outro, o do espaço, mal 
esboçado até aqui por Appia ou Meyerhold.
3) Trata-se, portanto, de um espaço deiasado. ao mesmo 
tempo recuado e avançado, jamais inteiramente no mesmo ní­
vel: e. na verdade, nenhuma intrusão e nele possível. Os espec­
tadores em Robbe-Grillet são homens de pe e caminhando, ou 
também à espera, espreitando as sombras, os traços, as fen­
das, os deslocamentos; eles penetram, já penetraram no meio