FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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Robert mostrou que relações D om QuLxote e 
0 castelo estabeleceram, não com tal história, mas com o que 
diz respeito ao próprio ser da literatura ocidental, com suas 
condições de possibilidade na história (condições que são 
obras, permitindo, assim, uma leitura crítica no sentido mais 
rigoroso do termo). Mas se essa leitura é possível, isto se deve 
às obras atuais: o livro de Marthe Robert é, entre todos os livros 
de crítica, o que mais se aproxima do que é hoje a literatura: 
uma certa relação consigo mesma, complexa, multilateral, si­
multânea, em que o fato de vir depois (de ser novo) não se reduz 
de forma alguma à lei linear da sucessão. Sem dúvida, seme­
lhante desenvolvimento em linha histórica foi, do século XIX 
aos nossos dias, a forma de existência e de coexistência da lite­
ratura: ela tinha seu lugar claramente temporal no espaço ao 
mesmo tempo real e fantástico da Biblioteca; ali, cada livro era 
feito para retomar todos os outros, consumi-los, reduzi-los ao 
silêncio e, finalmente, vir se instalar ao lado deles - fora deles e 
no meio deles (Sade e Mallarmé com seus livros, com O Livro, 
são por definição o Inferno das bibliotecas). De uma maneira 
ainda mais arcaica, antes da grande mutação que foi contempo­
rânea de Sade, a literatura refletia e criticava a si própria sob o 
modo da Retórica; porque ela se apoiava a distância em um 
Discurso, recuado, mas insistente (Verdade e Lei), que lhe era 
preciso restabelecer através de figuras (donde o face a face in­
dissociável da Retórica e da Hermenêutica). Talvez se pudesse 
dizer que hoje (após Robbe-Grillet, o que o torna único) a litera­
tura, que já não existia mais como retórica, desaparece como 
biblioteca. Ela se constitui em rede - em uma rede na qual não 
podem mais atuar a verdade da palavra nem a série da história, 
na qual o único a priori é a linguagem. O que me parece impor­
tante em Tel quel é que a existência da literatura como rede não 
pára mais de se esclarecer, desde o momento preliminar em 
que já se dizia: \u201cO que é preciso dizer, hoje, é que a literatura 
não é mais concebível sem uma clara previsão dos seus pode­
res, um sangue frio proporcional ao caos em que ela desperta.
7. (N.A.) Robert (M.), L \u2019anclen et le nouveau. Paris, Grasset. 1963.
6 8 Michel Foucault - Ditos c Escritos
uma determinação que colocará a poesia no mais alto lugar do 
pensamento. Todo o resto não será literatura.\u201d8
*
Para essa palavra ficçáo, várias vezes trazida, depois aban­
donada, é preciso voltar finalmente. Não sem um pouco de te­
mor. Porque ela soa como um termo de psicologia (imaginação, 
fantasma, devaneio, invenção etc.). Porque parece pertencer a 
uma das duas dinastias do Real e do Irreal. Porque parece re­
conduzir - e isso seria tão simples após a literatura do objeto - 
às flexões da linguagem subjetiva. Porque ela oferece tanta 
apreensão e escapa. Atravessando, de viés, a incerteza do so­
nho e da espera, da loucura e da vigília, a ficção não designa 
uma série de experiências às quais o surrealismo já havia em­
prestado sua linguagem? O olhar atento que Tel quel dirige a 
Breton não é retrospecção. E, no entanto, o surrealismo havia 
empenhado essas experiências na busca de uma realidade que 
as tornasse possíveis e lhes desse acima de qualquer linguagem 
(atuando sobre ela, ou com ela, ou apesar dela) um poder impe­
rioso. Mas e se essas experiências, pelo contrário, pudessem 
ser mantidas onde estão, em sua superfície sem profundidade, 
nesse volume impreciso de onde elas nos vêm, vibrando em tor­
no do seu núcleo indeterminável, sobre seu solo que é uma au­
sência de solo? E se o sonho, a loucura, a noite não marcassem 
o posicionamento de nenhum limiar solene, mas traçassem e 
apagassem incessantemente os limites que a vigília e o discurso 
transpõem, quando eles vêm até nós e nos chegam já desdobra­
dos? Se o fictício fosse, justamente, não o mais além, nem o se­
gredo íntimo do cotidiano, mas esse trajeto de flecha que nos 
salta aos olhos e nos oferece tudo o que aparece? Então, o fictí­
cio seria também o que nomeia as coisas, fá-las falar e oferece 
na linguagem seu ser já dividido pelo soberano poder das pala­
vras: \u201cPaisagens em dois\u201d, diz Marcelin Pleynet. Não dizer, por­
tanto, que a ficção é a linguagem: o giro seria muito simples, 
embora seja familiar atualmente. Dizer, com mais prudência, 
que há entre elas uma dependência complexa, uma confirma­
ção e uma contestação; e que, mantida por tanto tempo quanto
8. (N.A.) E depois, justamente, J. P. Faye se aproximou de Tel quel. ele que 
sonha escrever romances não \u201cem série\u201d , mas estabelecendo uns em relação 
aos outros uma certa relação de proporção.
1963 - Distancia. Aspecto, Origem 69
possa abster-se da fala, a simples experiência que consiste em 
pegar uma caneta e escrever franqueia (como se diz: liberar, de­
senterrar, retomar um penhor ou retornar a uma fala) uma dis­
tância que não pertence nem ao mundo, nem ao inconsciente, 
nem ao olhar, nem à interioridade, uma distância que, em sua 
nudez, oferece um quadriculado de linhas de tinta e também 
um emaranhado de ruas, uma cidade começando a nascer já ali 
há muito tempo:
Os m eses são linhas, fa to s quando elas se cruzam 
representaríam os desta m aneira um a série de retas 
cortadas em ângulo reto por uma série de retas 
uma cidade .9
(Les mois sont des lignes. des fa its lorsquelles se croisent 
nous représenterions de cette fa ço n une série de droites 
coupées à angle droit pa r une série de droites 
une ville.)
E se me pedissem para definir, enfim, o fictício eu diria, sem fi­
rulas: a nervura verbal do que não existe, tal como ele é.
Apagarei, para remeter essa experiência ao que ela é (para 
tratá-la, portanto, como ficção, pois ela nào existe, é sabido), 
apagarei todas as palavras contraditórias pelas quais facilmen­
te se poderia dialetizá-la: nivelamento ou abolição do subjetivo 
e do objetivo, do interior e do exterior, da realidade e do imagi­
nário. Seria necessário substituir todo esse léxico da mistura 
pelo vocabulário da distância, e mostrar então que o fictício é 
um afastamento próprio da linguagem - um afastamento que 
tem nela seu lugar mas que tambem a expõe, dispersa, reparte, 
abre. Não há ficção porque a linguagem esta distante das coi­
sas; mas a linguagem é sua distância, a luz onde cias estão e sua 
inacessibilidade, o simulacro cm que se dá somente sua pre­
sença; e qualquer linguagem que. em vez de esquecer essa dis­
tância, se mantém nela e a mantém nela, qualquer linguagem 
que fale dessa distância avançando nela c uma linguagem dc fic­
ção. É possível então atravessar qualquer prosa e qualquer poe­
sia. qualquer romance e qualquer reflexão, indiferentemente.
O estilhaçamento dessa distância, Pleynet o designa com 
uma palavra: "Fragmentação é a fonte." Dito de outra forma, e
9. (N A.) Pleynet (M ). Paysciges en rícux: les lignes de la prose. Paris, Éd. du 
Seuil. 1963. p. 121.
70 Mieliel Foucault - Ditos c Escritos
pior: um primeiro enunciado absolutamente inicial dos rostos 
e linhas nunca é possível, não mais do que essa vinda primitiva 
das coisas que a literatura às vezes se impôs como tarefa aco­
lher, em nome ou sob o signo de uma fenomenologia desorien­
tada. A linguagem da ficção se insere em uma linguagem já dita, 
em um murmúrio que nunca começou. A virgindade do olhar, a 
marcha atenta que eleva as palavras à medida das coisas desco­
bertas e contornadas, não lhe importa; mas antes a usura e o 
afastamento, a palidez do que já foi pronunciado. Nada é dito 
na aurora (Le pare começa em uma noite: e de manhã, uma ou­
tra manhã, ele recomeça); o que deveria ser dito pela primeira 
vez não é nada, não é dito, ronda nos confins das palavras, nes­
tas falhas de papel branco que esculpem e vazam (abrem para o 
dia) os poemas de Pleynet. Há, entretanto, nessa linguagem