FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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ele se desdobra cuidadosamente na biblioteca aturdida, 
com suas colunas de livros, seus títulos alinhados e suas prate­
leiras que a fecham de todos os lados, mas entreabrem do ou­
tro lado para mundos impossíveis. O imaginário se aloja entre 
o livro e a lâmpada. Não se traz mais o fantástico no coração; 
tampouco se o espera das incongruências da natureza; extraí­
mo-lo da exatidão do saber: sua riqueza está à espera no docu­
mento. Para sonhar, não é preciso fechar os olhos, é preciso ler. 
A verdadeira imagem é conhecimento. São palavras já ditas, re­
censões exatas, massas de informações minúsculas, ínfimas 
parcelas de monumentos e reproduções de reproduções que 
sustentam na experiência moderna os poderes do impossível. 
Nada mais há, além do rumor assíduo da repetição, que possa 
nos transmitir o que só ocorre uma vez. O imaginário não se 
constitui contra o real para negá-lo ou compensá-lo; ele se es­
tende entre os signos, de livro a livro, no interstício das repeti­
ções e dos comentários; ele nasce e se forma no entremeio dos 
textos. É um fenômeno de biblioteca.12
Michelet, em La sorcière, Quinet, em Ah asvérus , haviam13 
também explorado essas formas do onirismo erudito. Mas La 
tentation não é um saber que pouco a pouco se eleva à grande­
za de uma obra. É uma obra que se constitui de início no espaço 
do saber: ela existe em uma certa relação fundamental com os 
livros. Porque ela talvez seja mais do que um episódio na histó­
ria da imaginação ocidental; ela abre o espaço de uma literatura 
que só existe no e pelo entrecruzamento do já escrito: livro em 
que se realiza a ficção dos livros. Diremos que já D o m Quixote, 
e toda a obra de Sade... Mas é sob a forma da ironia que D om 
Quixote está ligado às narrativas de cavalaria, L a nouuelLe Jus - 
tine. aos romances virtuosos do século XVIII: pois bem! São 
apenas14 livros... La tentation está seriamente concernida ao
11. Uma quimera pode nascer...
12. ...biblioteca. De um modo totalmente novo, o século XIX reata com uma 
forma de imaginação que a Renascença tinha sem dúvida conhecido antes dele, 
mas que tinha sido por um tempo esquecida.
13. ...Ahasvérus, têm...
14. ...não eram...
1964 - Posfácio a Flaubert (A Tentação d e Santo Antáo) 81
imenso domínio do impresso; ela tem lugar na instituição reco­
nhecida da escrita. E menos um livro novo, a ser colocado ao 
lado dos outros, do que uma obra que se desenvolve no espaço 
dos livros existentes. Ela os recobre, os esconde, os manifesta, 
com um só movimento os faz cintilar e desaparecer. Ela não é 
apenas um livro que Flaubert por muito tempo sonhou escre­
ver; é o sonho de outros livros: todos os outros livros, sonhado­
res, sonhados - retomados, fragmentados, combinados, deslo­
cados, [afastados], colocados a distância pelo sonho, mas por 
ele também aproximados até a satisfação imaginária e cintilan­
te do desejo. [Com L a tentation, Flaubert escreveu, sem dúvi­
da, a primeira obra literária que tem seu lugar próprio unica­
mente no espaço dos livros:] Após Le livre. Mallarmé se tornará 
possível, depois Joyce, Roussel, Kafka, Pound, Borges. A biblio­
teca está em chamas.
É bem possível que L e D é jeu n er sur VHerbe e Olym pía te­
nham sido as primeiras pinturas \u201cde museu": pela primeira vez 
na arte européia, telas foram pintadas - nâo exatamente para 
reproduzir Giorgione, Rafael e Velásquez, mas para expressar, 
ao abrigo dessa relação singular e visível, sob essa decifrável re­
ferência, uma relação nova [e substancial] da pintura consigo 
mesma, para manifestar a existência dos museus e o modo de 
ser e de parentesco que os quadros adquirem neles. Na mesma 
época, L a tentation é a primeira obra literária que leva em con­
ta essas instituições imaturas nas quais os livros se acumulam 
e onde sutilmente cresce a lenta, a indubitável vegetaçáo de seu 
saber. Flaubert é para a biblioteca o que Manet é para o museu. 
Eles escrevem, eles pintam, em uma relação fundamental com 
o que foi pintado, com o que foi escrito - ou melhor, com aquilo 
que da pintura e da escrita permanece perpetuamente aberto. 
Sua arte se erige onde se forma o arquivo. Não absolutamente 
que eles assinalem o caráter tristemente histórico - juventude 
encurtada, ausência de frescor, inverno das invenções - pelo 
qual gostamos de estigmatizar nossa época alexandrina: mas 
eles fazem emergir um fato essencial em nossa cultura: cada 
quadro pertence desde entáo à grande superfície quadrilátera 
da pintura; cada obra literária pertence ao murmúrio infinito 
do escrito. Flaubert e Manet fizeram existir, na própria arte, os 
livros e as telas.
82 Mil tu I Fouraull Hitos o Kscrüos
III
A presença do livro é curiosamente manifestada e escamo­
teada ein La tentation. O texto é imediatamente desmentido 
como livro. Mal aberto, o volume contesta os signos impressos 
com os quais ele é povoado e se dá15 a forma de uma peça de tea­
tro: transcrição de urna prosa que não seria destinada a ser 
lida. mas recitada e encenada. Flaubert havia por um instante 
imaginado em fazer de La tentation uma espécie de grande dra­
ma. um Fausto que teria engolido todo o universo das religiões 
e dos deuses. Muito cedo Flaubert renunciou a isso; mas con­
servou no interior do texto tudo o que podia marcar uma repre­
sentação eventual: recorte em diálogos e em quadros, descrição 
do lugar da cena, dos elementos do cenário e de sua modifica­
ção. indicação do movimento dos \u201catores\u201d no palco - e tudo isso 
conforme as disposições tipográficas tradicionais (caracteres 
menores e margens maiores para as notações cênicas, nome do 
personagem, em grandes letras, acima do seu discurso etc.). 
Por uma duplicação significativa, o primeiro cenário indicado - 
aquele que servirá de lugar a todas as modificações posteriores 
- tem ele próprio a forma de um teatro natural: o retiro do ere­
mita foi colocado \u201cno alto de uma montanha, sobre um platô ar­
redondado em meia-lua fechado por grandes pedras\u201d; su­
põe-se, portanto, que o livro descreva uma cena que representa 
um \u2018palco" preparado pela natureza e no qual novas cenas vi­
rão por sua vez estabelecer seu cenário. Mas essas indicações 
não determinam a utilização futura do texto (são quase todas 
incompatíveis com uma encenação real); elas marcam apenas 
seu modo de ser: o impresso deve ser apenas o suporte discreto 
do visível: um insidioso espectador virá tomar o lugar do leitor, 
e o ato de ler se atenuará em [o triunfo de] um outro olhar. O li­
vro desaparece na teatralidade que ele revela.
Mas para logo reaparecer no interior do espaço cênico. Os 
primeiros sinais da tentação não tinham ainda apontado atra­
vés das sombras que se alongam, os focinhos tampouco haviam 
perfurado a noite quando Santo Antão, para deles se proteger, 
acendeu o archote e abriu \u201cum grande livro\u201d. Postura de acordo 
com a tradição iconográfica: no quadro de Brucghel, o Jovem - 
que Flaubert tanto havia admirado visitando em Gênova a cole­
15. ...e se mostra sob a forma...
1964 - Posfácio a Flaubert (A Tentação cie Santo An lào ) 8 3
ção Balbi e que, como ele diz, teria feito nascer nele o desejo de 
escrever La tentation o eremita, embaixo, no lado direito da 
tela, está ajoelhado diante de um imenso in-fólio, a cabeça um 
pouco inclinada, os olhos dirigidos para as linhas escritas. Em 
torno dele mulheres nuas abrem os braços, a enorme gula es­
tende um pescoço de giralà, os homens-tonéis fazem seu alari­
do, bestas sem nome se entredevoram, enquanto desfilam to­
dos os grotescos da terra, bispos, reis e poderosos; mas o San­
to nada vê de tudo isso, já que está absorvido em sua leitura. 
Ele nada vê, a menos que perceba, em diagonal, o grande chari­
vari. [A menos que faça apelo, para dele se defender, à potência 
enigmática desse livro mágico.] A menos que o balbucio que so­
letra os signos escritos evoque