FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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que ele, as ima­
gens evocadas pelo mau discípulo; e Hilarion, através dos dis- 
euisos dos heréticos, percebe o rosto dos deuses e o grunhido 
dos monstros, contempla as imagens que os obcecam. Assim, 
de imagem em imagem, se enlaça e se desenvolve urna cadeia 
que liga os personagens mais além daqueles que lhes servem10 
de intermediários, |mas qucl, por aproximações, os identifica 
uns aos outros e funde seus diferentes olhares ern um único 
deslumbramento.
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Kntre o leitor e as últimas visões que fascinam as aparições 
lantáslieas, a distância é imensa: regimes de linguagem subor-
IH .. olli;11 alucinado do sollhii io.
I '\u25a0> .. pai ;i alem das ima^cii.s <lc inlci mediai ios, pouco a pouco...
1 fi64 - Posfácio a Kl;iubert (A Tentação de Santo Antão) 87
diriados uns aos outros, personagens-relés olhando uns por 
cirna dos outros recuam, para o mais profundo desse \u201ctex- 
lo-reprcscntação\u201d , toda uma população abundante de quime­
ras. [Mas] a isso se opõem dois movimentos: um, afetando os 
regimes de linguagem, faz aparecer em estilo direto a visibilida­
de do invisível: o outro, afetando as imagens, assimilando pou­
co a pouco seu olhar e a luz que as ilumina, aproxima, até fa- 
zé-las surgir na margem da cena, as imagens mais longínquas.
É esse duplo movimento que faz com que a visão seja, propria­
mente falando, tentadora: o que há de mais indireto e de mais 
encoberto na visão20 se mostra com todo o brilho do primeiro 
plano: enquanto o visionário é atraído pelo que vê, se precipita 
nesse lugar ao mesmo tempo vazio e cheio, se identifica a essa 
figura de sombra e de luz, e por sua vez se põe a ver com esses 
olhos que não são de carne. A profundidade das aparições en­
caixadas umas dentro das outras e o desfile ingenuamente su­
cessivo das figuras não são absolutamente contraditórios. Seus 
eixos perpendiculares constituem a forma paradoxal e o espaço 
singular de La tentation. A frisa de marionetes, a compactação 
violentamente colorida das figuras que se empurram umas às 
outras na sombra dos bastidores, tudo isto não é lembrança de 
infância, resíduo de uma viva impressão: é o efeito composto de 
uma visão que se desenvolve em planos sucessivos, cada vez 
mais longínquos, e de uma tentação que atrai o visionário para 
o lugar daquilo que cie vê, e o envolve subitamente com tudo o 
que lhe aparece.
IV
\Lu tentation é como um discurso cuja ordem não teria por 
função estabelecer um sentido e um só (suprimindo todos os 
outros), mas lhe impor simultaneamente vários. A seqüência vi­
sível das cenas é muito simples: as lembranças do velho monge, 
as miragens e os pecados, que se resumem todos na rainha mi­
lenar que vem do Oriente (I c II); depois o discípulo que, discu­
tindo a Escritura, faz surgir a proliferação das heresias (III e 
IV): vem então os deuses que aparecem um a um na cena (V): 
uma vez despovoado o espaço do mundo, Antão pode percor- 
rè-lo, guiado por seu discípulo tornado por sua vez Satanás e
'\u25a0¿0 ,c Ur ui,us e n v o lv id o no esp e tácu lo se mostra .
8 8 Michel Pmu ault - Ditos e Escritos
Saber, medir-lhe a extensão, ver aí levar ao infinito a embosca­
da dos monstros (VI, VII). Seqüência visível que repousa sobre 
varias series subjacentes.21]
1) 22 A Tentação nasce no coração do eremita; hesitante, ela 
evoca os companheiros de retiro, as caravanas de passagem; 
depois ganha regiões mais vastas: Alexandria superpovoada, o 
Oriente cristão dilacerado pela teologia, todo esse Mediterrâ­
neo sobre o qual reinaram deuses vindos da Ásia, e depois o 
universo sem limites - as estrelas no fundo da noite, a imper­
ceptível célula onde desperta o vivente. Mas essa última cintila­
ção conduz o eremita ao princípio material dos seus primeiros 
desejos. O grande percurso tentador, tendo podido ganhar os 
confins do mundo, retorna ao seu ponto de partida. Nas duas 
primeiras versões do texto, o Diabo devia explicar a Antão \u201cque 
os pecados estavam em seu coração e a desolação em sua cabe­
ça&quot;. Explicação agora inútil: levadas até as extremidades do 
universo, as grandes ondas da tentação refluem para mais per­
to: no. ínfimo organismo onde despertam os prim eiros desejos 
da vida, Antão reencontra seu velho coração, seus apetites mal 
refreados; mas deles, ele não mais experimenta o avesso reves­
tido de fantasmas; ele tem, sob os olhos, a verdade material. 
Sob essa luz vermelha se forma lentamente a larva do Desejo.23 
[O centro da Tentação não se moveu: ou melhor, ele foi muito 
levemente deslocado de alto a baixo - passando do coração à fi­
bra, do sonho à célula, da cintilação da imagem à matéria. 
Aquilo que, do interior, povoava a imaginação do eremita pode 
se tornar agora objeto de uma contemplação encantada; e o que 
ele repelia com medo é agora o que o atrai e o convida a uma en­
torpecida identificação: \u201cDescer até o fundo da matéria - ser a 
matéria.\u201d É apenas aparentemente que a tentação arranca o
21. A ordem do desfile é aparentemente simples: parece obedecer às leis da se­
melhança e da proximidade (os deuses chegam por famílias e regiões) e seguir 
um princípio de monstruosidade crescente. Começa pelos pecados e miragens 
que freqüentam a imaginação do eremita e todos se resumem na rainha de 
Sabá (cenas I e II); depois vêm as heresias (III e IV), os deuses que vêm do Orien­
te (V); enfim, no mundo despovoado, Antão, conduzido pelo Saber-Satanás, vê pu­
lular os monstros (VI e VII). Esta ordem simples compõe de faio várias séries 
que é possível fazer aparecer, e que determinam o lugar de cada episódio se­
gundo um sistema complexo.
22. 1) Série cosmológica. A Tentação...
23. ...material. Ele olha lentamente como um ponto minúsculo a larva do Desejo.
1964 - Posfácio a Flaubert (A Tentação de Santo Antão) 89
eremita da solidão para povoar seu olhar de homens, de deuses 
e de animais. De fato, ela compõe, de acordo com uma grande 
curva, vários movimentos distintos: expansão progressiva até 
os confins do universo, elo que conduz o desejo à sua verdade, 
defasagem que faz passar das violências do fantasma à calma 
suavidade da matéria, passagem do dentro para fora - das nos­
talgias do coração ao espetáculo exato da vida; transformação 
do medo em desejo de identificação.]
2) 24Sentado na soleira de sua cabana, o eremita é um velho 
obcecado por suas lembranças: antigamente, o isolamento era 
menos penoso, o trabalho, menos fastidioso, o rio, menos dis­
tante. Também outrora houve o tempo da juventude, das mo­
ças na beira das fontes, o tempo também do retiro e dos compa­
nheiros, o do discípulo favorito. Essa leve oscilação do presen­
te, ao cair da tarde, dá lugar à inversão geral do tempo: inicial­
mente, as imagens do crepúsculo na cidade que murmura an­
tes de adormecer - o porto, os gritos da rua, os tamborins nas 
tavernas; depois, Alexandria na época dos massacres, Constan­
tinopla com o Concílio, e logo todos os heréticos que vieram in­
sultar o dia desde a origem do cristianismo; atrás deles, as di­
vindades que tiveram seus templos e seus fiéis do interior da 
índia às bordas do Mediterrâneo: enfim, as imagens que são tão 
velhas quanto o tempo - as estrelas no fundo do céu. a matéria 
sem memória, a luxúria e a morte, a Esfinge ereta, a quimera, 
tudo o que faz nascer, em um só movimento, a vida e as ilusões 
da vida. E mais além da célula primeira - mais além dessa ori­
gem do mundo que é seu próprio nascimento, Antão também 
deseja o impossível retorno à imobilidade de antes da vida: as­
sim, toda a sua existência adormeceria, encontraria novamente 
sua inocência, mas despertaria de novo no sussurro dos animais 
e das fontes, no brilho das estrelas. Ser um outro, ser todos os 
outros e que tudo identicamente recomece, remontar ao princí­
pio do tempo para que se feche