FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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o círculo dos retornos, aí está o 
auge da Tentação. A visão de Engadine não está longe.
Nesse retorno do tempo, cada etapa é anunciada por uma fi­
gura ambígua - simultaneamente duração e eternidade, fim e 
recomeço. As heresias são conduzidas por Hilarión - pequeno 
como uma criança, curvado como um velho, tão jovem quanto o 
conhecimento, quando ele desperta, tão velho quanto o saber.
24. 2) Série histórica. Sentado...
90 M id ic l Foueuull - D itos c Escritos
quando ele reflete. Quem introduz os deuses é Apolonius: ele 
conhece as metamorfoses sem fim das divindades, seu nasci­
mento e sua morte, mas ele próprio encontra em um salto \u201co 
Eterno, o Absoluto e o Ser\u201d. A Luxúria e a Morte conduzem a 
ronda dos vivos, sem dúvida porque elas representam o fim e o 
começo, as formas que se desfazem e a origem de todas as coi­
sas. A larva-esqueleto. o Taumaturgo eterno e o velho-criança 
funcionam em La tentation cada um por sua vez como os "al­
ternadores" da duração: através do tempo da História, do mito 
e, finalmente, de todo o cosmos, eles asseguram esse retorno 
que conduz o velho eremita ao princípio celular da sua vida. Foi 
preciso que o fuso do mundo girasse ao contrário para que a 
noite de La tentation se abrisse para a novidade idêntica do dia 
que começa.
3) 25Esse refluxo do tempo é também visão [profética] dos 
tempos futuros. Mergulhando em suas lembranças, Antão ha­
via reencontrado a imaginação milenar do Oriente: do fundo 
dessa memória que não mais lhe pertencia, ele vira surgir a fi­
gura em que estava encarnada a tentação do mais sábio dos reis 
de Israel. Por trás da rainha de Sabá se perfila esse anão ambí­
guo no qual Antão reconhece tanto o servidor da rainha quanto 
seu próprio discípulo. Hilarión pertence, indissociavelmente, 
ao Desejo e à Sabedoria: carrega consigo todos os sonhos do 
Oriente, mas conhece exatamente a Escritura e a arte de inter- 
pretá-la. Ele é avidez e ciência - ambição de saber, conhecimen­
to condenável. Esse gnomo não cessará de crescer ao longo da 
liturgia: no último episódio, ele será imenso, "belo como um ar­
canjo, luminoso como um sol\u201d : estenderá seu reino às dimen­
sões do Universo; será o Diabo no clarão da verdade. E ele 
quem serve de corifeu ao saber ocidental: ele guia inicialmente 
a teologia, e suas infinitas discussões: depois ressuscita as anti­
gas civilizações com suas divindades logo reduzidas a cinzas: 
depois instaura o conhecimento racional do mundo: demons­
tra o movimento dos astros, e manifesta a potência secreta da 
vida. No espaço dessa noite de Egito que povoa o passado do 
Oriente, toda a cultura da Europa se desdobra: a Idade Média 
com sua teologia, a Renascença com sua erudição, a época mo­
derna com sua ciência do mundo e do ser vivo. Como um sol 
noturno, La tentation vai do leste ao oeste, do desejo ao saber,
25. 3) Série profética. Esse refluxo.
1964 - Posfácio a Flaubert (A Tentação de Santo Antãol 91
da imaginação à verdade, das mais velhas nostalgias às deter­
minações da ciência moderna. O Egito cristão, e com ele Ale­
xandria. e Antão aparecem no ponto zero entre a Ásia e a Euro­
pa. e como na dobra do tempo: ali onde a Antigüidade, empolei­
rada no cume do seu passado, vacila e mergulha em si mesma, 
revelando seus monstros esquecidos, ali onde o mundo moder­
no encontra seu germe, com as promessas de um saber infinito. 
Estamos no oco da história.
A \u201ctentação\u201d de Santo Antão é a dupla fascinação do cristia­
nismo pela fantasmagoria suntuosa do seu passado e as aquisi­
ções sem limites do seu futuro. Nem o Deus de Abraão, nem a 
Virgem, nem as virtudes (que aparecem nas primeiras versões 
do mistério) têm lugar no texto definitivo. Mas não absoluta­
mente para protegê-los da profanação: mas porque eles estão 
diluídos nas figuras das quais eles eram a imagem - no Buda, 
deus tentado, em Apolonius, o taumaturgo, que se assemelha 
ao Cristo, em ísis. mãe de dor. La tentation não mascara a rea­
lidade sob a cintilação das imagens; ela revela, na verdade, a 
imagem de uma imagem. O cristianismo, mesmo ein sua primi­
tiva pureza, é formado apenas pelos últimos reflexos do mundo 
antigo sobre a sombra ainda cinzenta de um universo começan­
do a nascer.
4) 26Em 1849 e em 1856. La tentation começava por uma 
luta contra os Sete Pecados capitais e as três virtudes teologais: 
Fé, Esperança e Caridade. No texto publicado, toda essa imagi­
nária tradicional dos mistérios desapareceu. Os pecados não 
mais aparecem a não ser em forma de miragens. Quanto às vir­
tudes. elas subsistem em segredo, como princípios organizado­
res das seqüências. Os jogos perpetuamente recomeçados da 
heresia comprometem a Fé pela onipotência do erro: a agonia 
dos deuses, que os faz desaparecer como cintilações da imagi­
nação. torna inútil qualquer forma de Esperança; a necessida­
de imóvel da natureza ou o desencadeamento selvagem de suas 
forças reduzem a caridade a um escarnio. As três grandes virtu­
des são vencidas. O Santo então se afasta do céu. \u201cele se deita 
de bruços, se apóia sobre os dois cotovelos c, retendo o fôlego, 
ele vê... Fetos dessecados tornam a florir". Diante do espetáculo 
da pequena célula que palpita, ele transforma a Caridade em 
curiosidade deslumbrada (\u201cOh. felicidade! Felicidade! Vi nas-
26, 4 ) S é rie teo lóg ica . E m 1849...
92 Mii hcl Kiuu'.iult Hilos r Kscrilos
cer a vida, vi o movimento eomeçar"), a Esperança, em desejo 
desmedido de se incorporar à violência do mundo ( \u2018\u2018Quero 
voar, nadar, ladrar, mugir, uivar"), a Fé, em vontade de se iden­
tificar com o mutismo da natureza, com a morna e doce estupi­
dez das coisas ("Queria me agachar sobre todas as formas, pe­
netrar cada atomo, descer até o fundo da matéria - ser a maté­
ria" ).
Nessa obra que, à primeira vista, se percebe como uma se­
qüência um pouco incoerente de fantasmas, a única dimensão 
inventada, mas com uin cuidado meticuloso, é a ordem .28 O que 
passa por fantasma nada mais é do que documentos transcri­
tos: desenhos ou livros, figuras ou textos. Quanto à seqüência 
que os reúne, ela é prescrita de fato2a por uma composição bas­
tante complexa - que, conferindo um certo lugar a cada um dos 
elementos documentários, os faz figurar em várias séries si­
multâneas. A linha visível ao longo da qual desfilam pecados, 
heresias, divindades e monstros não passa da crista superficial 
de toda uma organização vertical. Essa sucessão de figuras, 
que prosseguem como em uma farândola de marionetes, é ao 
mesmo tempo: trindade canônica das virtudes; geodésica da 
cultura nascendo entre os sonhos do Oriente e concluindo no 
saber ocidental; retorno da História até a origem do tempo e 
das coisas; pulsação do espaço que se dilata até os confins do 
mundo e retorna subitamente ao elemento sim ples da vida. 
Cada elemento ou cada figura tem, portanto, seu lugar não so­
mente em um desfile visível, mas na ordem das alegorias cris­
tãs, no movimento da cultura e do saber, na cronologia inverti­
da do mundo, nas configurações espaciais do universo.
Se agregarmos que La tentation se desenvolve conforme 
uma profundidade que envolve as visões umas dentro das ou­
tras e as escalona em direção ao longínquo, vê-se que, por trás 
do fio do discurso e por baixo da linha das sucessões, um volu­
me se constitui: cada um dos elementos (cenas, personagens, 
discursos, modificação do cenário) se encontra em um ponto 
determinado da série linear; mas ele tem além disso seu siste­
ma de correspondências verticais; e está situado em uma deter­
27. ..ser a matéria"), Podemos, portanto, ler La tentation com o a luta e a 
derrota das três virtudes teologais.
28. ...de fantasmas, a ordem, vê-se, é estabelecida com um cuidado meticuloso.
29. ...ou textos. Mas a seqüência que os reúne é prescrita por uma composição...
1964 - Posfác io a F laubert (A Tentação de Santo Antão)