FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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Mesmo: ao mesmo tempo imperceptível afastamento e aproxi­
mação do não-dissociável? Houve uma experiência cristã q«e
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conheceu bastante esse perigo - tentação de experimentar a 
tentação sob a forma do indiscernível. As querelas da demono- 
logia são orientadas para esse profundo perigo; e minadas, ou 
melhor, animadas e multiplicadas por ele, relançam ao infinito 
uma discussão sem fim: ir ao Sabbat é se entregar ao Diabo, ou 
talvez também se devotar ao simulacro do Diabo que Deus, 
para tentá-los, envia aos homens de pouca fé - ou de muita fé. 
aos crédulos que se convencem de que há um outro deus além 
de Deus. E os juízes que queimam os endemoninhados são eles 
próprios vítimas dessa tentação, dessa armadilha onde se em­
baraça sua justiça: pois os possuídos são apenas uma verdadei­
ra imagem do falso poder dos demônios: imagem pela qual o 
Demônio se apodera não do corpo das feiticeiras, mas da alma 
dos seus carrascos. Se não for também o caso de o próprio 
Deus ter assumido a face de Satanás para obnubilar o espirito 
daqueles que não crêem em sua solitária onipotência; de modo 
que Deus, simulando o Diabo, teria coordenado os estranhos 
esponsais da bruxa com seu perseguidor, daquelas duas figu­
ras condenadas: destinadas conseqüentemente ao Inferno, a 
realidade do Diabo, ao verdadeiro simulacro de Deus simulan­
do o Diabo. Nessas idas e vindas se multiplicam os jogos peri­
gosos da extrema semelhança: Deus. que tanto se assemelha a 
Satanás, que imita tão bem Deus...
Foi preciso nada menos que o Gênio Maligno de Descartes 
para dar fim a esse grande perigo das Identidades que o pensa­
mento do século XVI ainda continuava a "sutilizar". 0 Gênio 
Maligno da III Meditação não é o resumo ligeiramente realçado 
das potências enganosas que habitam o homem, mas o que 
mais se assemelha a Deus, o que pode imitar todos os Seus po­
deres. pronunciar como Ele verdades eternas e fazer, se quiser, 
com que 2 + 2 = 5. Ele é seu maravilhoso gêmeo. De uma tal 
malignidade que o faz perder imediatamente qualquer existên­
cia possível. Desde então, a inquietação dos simulacros silen­
ciou. Esqueceu-se mesmo de que eles foram até o início da Ida­
de Clássica (vejam a literatura e sobretudo o teatro barrocos) 
uma das grandes ocasiões de vertigem do pensamento ociden­
tal. Continuou-se a se preocupar com o Mal. com a realidade das 
imagens e com a representação, com a síntese do diverso. Não 
se pensava mais que o Mesmo pudesse transtornar a cabeça.
Incipit Klossowski, como Zaratrusta. Nesse aspecto um pou­
co obscuro e secreto da experiência cristã, ele subitamente des-
112 Michel Foucault - Ditos c Escritos
cobre (como se ela fosse dela o duplo, talvez o simulacro) a teo- 
fania resplandecente dos deuses gregos. Entre o Bode ignóbil 
que se mostra no Sabbat e a deusa virgem que se esconde no 
frescor da água, o jogo é invertido: no banho de Diana, o simu- 
lacro se dá na fuga da extrema proximidade e não na irrupção 
insistente do outro mundo; mas a dúvida é a mesma, assim 
como o risco da duplicação: \u201cDiana pactua com um demônio 
intermediário entre os deuses e os homens para se manifestar a 
Acteão. Com seu corpo etéreo, o Demônio sim ula Diana em sua 
teofania e inspira em Acteão o desejo e a insensata esperança de 
possuir a deusa. Ele se torna a imaginação e o espelho de Dia­
na.\u201d E a última metamorfose de Acteão não o transforma em 
um cervo dilacerado, mas em um bode impuro, frenético e deli­
ciosamente profanador. Como se, na cumplicidade do divino 
com o sacrílego, qualquer coisa da luz grega sulcasse em um 
clarão o fundo da noite cristã.
Klossowski está situado no cruzamento de dois caminhos 
bastante afastados e no entanto bem semelhantes, vindo todos 
os dois do Mesmo, e ambos talvez indo para lá: o dos teólogos e 
o dos deuses gregos, dos quais Nietzsche logo anunciava o cinti­
lante retorno. Retorno dos deuses que é também, e sem dissocia­
ção possível, insinuação do Demônio na tepidez turva da noite: 
\u201cQue diria você se um dia, se uma noite, um dem ônio se insinuas­
se na sua mais recôndita solidão e lhe dissesse: \u2018Esta vida tal 
como você a vive agora e tal como a tem vivido, você deverá vi­
vê-la ainda uma vez e inúmeras vezes; e nela não haverá nada 
de novo, a não ser cada dor e cada prazer, cada pensamento e 
cada gemido e tudo o que há de indizivelmente pequeno e gran­
de em sua vida deverá retornar para você e o tudo na mesma or­
dem e na mesma sucessão - aquela aranha igualmente, este 
instante teu. A eterna ampulheta da existência não cessa de ser 
invertida de novo e você com ela, ó grão de poeira da poeira.' 
Você não se jogaria sobre o solo rangendo os dentes, maldizen­
do o demônio que lhe fala dessa maneira? Ou bem lhe ocorreria 
viver um instante formidável em que você teria podido lhe 
responder: Você é um deus e jamais ouvi coisas mais divinas."\u2019
1. (N.A.) Grifei demônio, eu e deu s. Este texto é citado em Un si Juneste déstr. 
compilação fundamenta] que contém páginas de uma grande profundidade sobre 
Nietzsche e permite toda uma releitura de Klossowski. (Sur quelques thèmes 
Jondamentaux de la \u201cGaya Scienza" de Nietzsche, in Un si Juneste désir. 
Paris, Gallimard, \u201cCollection Blanche\u201d, 1963, ps. 21-22 (N.E).)
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A experiência de Klossowski se situa mais ou menos ai: em 
um mundo onde reinaria um gênio maligno que não teria en­
contrado seu deus, ou que poderia também se fazer passar por 
Deus, ou que talvez fosse o próprio Deus. Esse mundo não se­
ria nem o Céu, nem o Inferno, nem o limbo; mas nosso mundo, 
simplesmente. Um mundo, finalmente, que seria o mesmo que 
o nosso, salvo justamente que ele é o mesmo. Nesse afastamen­
to imperceptível do Mesmo, um movimento infinito encontra 
seu lugar de nascença. Este movimento é perfeitamente estra­
nho à dialética; pois não se trata da prova da contradição, nem 
do jogo da identidade afirmada, depois negada; a igualdade A - 
A se anima por um movimento interior e sem fim que separa 
cada um dos dois termos de sua própria identidade e os remete 
um ao outro pelo jogo (a força e a perfídia) desse proprio afasta­
mento. De forma que nenhuma verdade pode ser engendrada 
por esta afirmação; mas um espaço perigoso esta em vias de se 
abrir onde os discursos, as fábulas, as artimanhas cheias de ar­
madilhas e esparrelas de Klossowski vão encontrar sua lingua­
gem. Uma linguagem para nós tão essencial quanto a de Blan 
chot e de Bataille. já que por sua vez ela nos ensina como a di­
mensão mais séria do pensamento deve encontrar fora da dia 
lética sua leveza iluminada.
Na verdade, nem Deus nem Satanas jamais se manifestam 
neste espaço. Ausência estrita que é também seu entrelaçamen 
to. Mas nem um nem outro são nomeados, talvez porque eles 
sejam ' apelantes", não apelados. É uma região estreita e nurni- 
nosa, onde as figuras estão todas no índex de alguma coisa 
Atravessa-se aí o espaço paradoxal da presença real. Presença 
que só é real na medida em que Deus se ausentou do mundo, ali 
deixando apenas um traço e um vazio, de sorte que a realidade 
dessa presença é a ausência onde ela ocorre e onde pela tran- 
substanciaçáo se irrealiza. Numen quod habitat simulacro.
Por isso Klossowski dificilmente aprova Claudel ou Du BosJ 
intimando Gide a se converter; ele certamente sabe que se enga­
navam aqueles que colocavam Deus de um lado e o Diabo do 
outro, fazendo-os combater em carne e osso (um deus de osso
2 (N.A.) Gide, Du Bos et le Démon. in Un si funeste désir. Paris, Gallimard, 
"Collection Blanche\u201d, 1963. ps. 37-54, e \u201cEn marge de la correspondance de 
Claudel et de Gide", ibid.. ps. 55-88.
114 Michel Foueault - Ditos e Escritos
contra um diabo de carne), e que Gide estava mais perto de ter 
razão quando sucessivamente ele se aproximava e se esquivava 
representando, a pedido dos