FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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de Théodore Lacase se en­
contram em um semicírculo amigável em torno do leito de K. 
Essas torções instantâneas se produzem unicamente pelo jogo 
dos \u201calternadores\u201d de experiência. Estes alternadores consti­
tuem nos romances de Klossowski as únicas peripécias, mas 
no sentido estrito da palavra: o que assegura o desvio e o retor 
no. Assim: a prova-provocação (a pedra de verdade que é ao 
mesmo tempo a tentação do pior: o afresco de La vocation\ ou 
a tarefa sacrílega confiada por von A ); a inquisição suspcit.i (os 
censores que se fazem passar por antigos devassos, como Mala 
grida, ou o psiquiatra de intenções suspeitas): o oompló de face 
dupla (a rede de \u2018'resistência" que executa o Dr. Rodm) Mas so­
bretudo as duas grandes configurações que fazem alternar a 
aparência são a hospitalidade e o teatro, duas estruturas que se 
confrontam em simetria invertida.
O hospedeiro (a palavra já turbilhona sobre seu eixo interior, 
dizendo a coisa e seu complementar)*, o hospedeiro oferece o 
que possui, porque só pode possuir o que propõe - o que esta 
ali diante dos seus olhos e para todos Ele e. como se diz em 
uma palavra maravilhosamente equívoca, "olhador ". Sub-repti- 
ciamentc e com avareza total, esse olhar que dá antecipa sua 
parte de delícias e confisca com toda soberania uma face das 
coisas que só olha para ele. Mas esse olhar tem o poder de se 
ausentar, de deixar vazio o lugar que ocupa e oferecer aquilo 
que ele envolve com sua avidez. De sorte que o seu presente é o
* (N T ) O autor sc refere aqui à homofonia entre as palavras hote = hospedeiro 
e òte. do verbo óter = retirar, suprimir
8. Klossowski (P.). Lo vocation suspenciue, Paris. Gallimard, "Collection 
Blanche". 1950.
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simulacro de uma oferenda, uma vez que ele só guarda do que 
da a debil silhueta distante, o simulacro visível. Em Le soujfleur, 
o teatro toma o lugar desse olhar que dá, exatamente como ele 
reinava em Roberte e La révocation9. O teatro impõe a Roberte 
o papel de Roberte: ou seja, tende a reduzir a distância interior 
que se abria no simulacro (sob o efeito do olhar que dá) e a fa­
zer habitar pela própria Roberte o duplo que dela destacou 
Théodore (talvez K.). Mas, se Roberte desempenha seu papel 
com naturalidade (o que lhe ocorre ao menos para uma répli­
ca). isso não é mais que um simulacro de teatro, e se Roberte 
em compensação balbucia seu texto, é Roberte-Roberte que se 
esquiva sob uma pseudo-atriz (que é deplorável na medida em 
que ela náo é atriz, mas Roberte). Porque só pode desempenhar 
esse papel um simulacro de Roberte que de tal forma se asse­
melhe a ela. que Roberte talvez seja ela própria esse simulacro. 
É preciso então ou que Roberte tenha duas existências ou que 
ali haja duas Roberte com uma existência; é preciso que ela seja 
puro simulacro de si. No olhar, é o Olhador que é duplicado (e 
até a morte); sobre a cena do falso teatro, é a que é Olhada que é 
atingida por uma irreparável cisáo ontológica.10
Mas, por trás de todo este grande jogo das-çxperiências alter­
nantes que fazem mover convulsivamente os simulacros, have­
rá um Operador absoluto que envie dali signos enigmáticos? 
Em La vocation suspendue, parece que todos os simulacros e 
suas alternâncias são organizados em torno de um apelo maior 
que neles se faz ouvir, ou que talvez também continue mudo. 
Nos textos seguintes, esse Deus imperceptível mas apelante foi 
substituído por duas imagens visíveis, ou melhor, duas séries 
de imagens que estão, em relação aos simulacros, ao mesmo 
tempo no mesmo nível e em perfeito desequilíbrio: duplicado­
res e duplicados. Em uma extremidade, a dinastia dos persona­
gens monstruosos, no limite da vida e da morte: o professor 
Octave, ou este \u201cvelho mestre\u201d que se vê no início do Souffleur 
comandar as manobras das agulhas de uma estação de trem de 
subúrbio, em um vasto saguão envidraçado anterior ou poste­
rior à existência. Mas este \u201coperador\u201d intervém realmente? 
Como ele amarra a trama? O que é ele precisamente? O Mestre, 
o tio de Roberte (aquele que tem duas caras), o Dr. Rodin (aque­
9. Klossowski (P.), La révocation de Védit de Nantes, ín Les lois de 
rhospltalíté, op. cif.
10. (N.A.) Encontramos ali, mais como forma pura e no jogo despojado do 
simulacro, o problema da presença real e da transubstanciação.
1964 - A Prosa de Acteão 119
le que morreu e ressuscitou), o aficionado por espetáculos este­
reoscópicos, o quiroprático (que molda e massageia o corpo),
K. (que rouba as obras e talvez a mulher dos outros, a menos 
que ele ofereça a sua) ou Théodore Lacase (que põe Roberte em 
movimento)? Ou o marido de Roberte? Imensa genealogia que 
vai do Todo-Poderoso àquele que é crucificado no simulacro 
que ele é (pois ele, que é K., diz \u201ceu\u201d quando fala Théodore). 
Mas, na outra extremidade, Roberte também é a grande opera­
dora dos simulacros. Sem descanso, com suas mãos, suas lon­
gas e belas mãos, ela acaricia ombros e cabeleiras, desperta de­
sejos, evoca antigos amantes, desamarra um corpete de lante­
joulas ou um uniforme do Exército da Salvação, se entrega a 
soldados ou implora pelas misérias ocultas. É ela, sem dúvida, 
quem difrata seu marido em todos os personagens monstruo­
sos ou lamentáveis em que ele se dispersa. Ela é legião. Não a 
que sempre diz não. Mas aquela, oposta, que diz sim sem pa­
rar. Um sim fendido que faz nascer este espaço do entremeio 
onde cada um está ao lado de si. Não digamos Roberte-o-Diabo 
e Théodore-Deus. Mas digamos, antes, que um é o simulacro de 
Deus (o mesmo que Deus, portanto, o Diabo) e que o outro é o 
simulacro de Satanás (o mesmo que o Maligno, portanto, 
Deus). Mas um é o Inquisidor Esbofeteado (irrisório investiga­
dor de signos, intérprete obstinado e sempre desiludido: pois 
não há signos, mas unicamente simulacros), e o outro é a Santa 
Feiticeira (sempre de partida para um Sabbat, onde seu desejo 
invoca os seres em vão, pois não há jamais homens, mas ape­
nas simulacros). É da natureza dos simulacros nâo sofrer nem 
a exegese que crê nos signos nem a virtude que ama os seres.
Os católicos escrutam os signos. Os calvinistas não lhes dão 
o menor crédito, porque só acreditam na eleição das almas. 
Mas, se nós não fôssemos signos nem almas, mas simplesmen­
te os mesmos que nós mesmos (nem fios visíveis de nossas 
obras nem predestinados) e por isso esquartejados na sua dis­
tância do simulacro? Pois bem, os signos e o destino dos ho­
mens não teriam mais pátria comum; o édito de Nantes teria 
sido revogado; estaríamos daí em diante no vazio deixado pela 
divisão da teologia cristã11; nessa terra deserta (ou talvez rica
11 (N.A.) Quando Roberte calvinista viola, para salvar um homem, um tabernáculo 
onde não se esconde para ela a presença real. ela é bruscamente agarrada, no 
ineio deste templo minúsculo, por duas mãos que sào as suas mesmas: no vazio 
do signo e da obra triunfa o simulacro de Roberte desdobrada.
1 20 Mu lit'l Foucault - Ditos c Escritos
devido a esse abandono) poderíamos voltar a atenção para a 
palavra de Hölderlin: \u201cZeichen sind wir, bedeutungslos\u201d e tal­
vez, ainda mais além, para todos esses grandes e fugitivos si­
mulacros que faziam cintilar os deuses no sol nascente, ou 
como grandes arcos de prata na profundeza da noite.
Porque Le bain de D iane12 é, sem dúvida, de todos os textos 
de Klossowski o que mais se avizinha dessa luz ofuscante, mas 
para nós bastante sombria, de onde nos vêm os simulacros. 
Encontra-se de novo, nessa exegese de uma lenda, uma configu­
ração semelhante à que organiza as outras narrativas, como se 
todas elas encontrassem ali seu grande modelo mítico: um 
afresco anunciador como em La vocation; Acteão, sobrinho de 
Artemis, como Antoine o é de Roberte; Dionísio, tio de Acteão, e 
velho senhor da embriaguez, da discórdia, da morte para sem­
pre renovada, da perpétua teofania;