FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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Diana, duplicada por seu 
próprio desejo, Acteão, metamorfoseado ao mesmo tempo pelo 
seu e pelo de Artemis. E, entretanto, nesse texto consagrado à 
interpretação de uma lenda longínqua e de um mito da distân­
cia (o homem castigado por ter tentado se aproximar da divin­
dade nua), a oferenda está cada vez mais próxima. Ali, os cor­
pos são jovens, belos, intactos; eles fogem um na direção do ou­
tro com total convicção. Porque o simulacro também se mostra 
em seu frescor cintilante, sem recurso ao enigma dos signos. 
Os fantasmas são ali o acolhimento da aparência na luz origi­
nal. Mas é uma origem que, por seu próprio movimento, recua 
em um longínquo inacessível. Diana no banho, a deusa se dis­
farçando na água no momento em que se oferece ao olhar, não é 
apenas a evasiva dos deuses gregos, é o momento em que a uni­
dade intacta do divino \u201creflete sua divindade em um corpo virgi­
nal\u201d, e então se desdobra em um demônio que a faz, a distância 
dela mesma, aparecer casta e ao mesmo tempo a oferece à vio­
lência do Bode. E quando a divindade cessa de cintilar nas cla­
reiras para se desdobrar na aparência em que ela sucumbe se 
justificando por isso, ela sai do espaço mítico e entra no tempo 
dos teólogos. O vestígio desejável dos deuses se recolhe (ou tal­
vez se perca) no tabernáculo e no jogo ambíguo dos seus signos.
A pura fala do mito deixa, então, de ser possível. Como trans­
crever daí em diante, em uma linguagem parecida com a nossa, 
a ordem perdida mas insistente dos simulacros? Fala inevita­
12. Klossowski (P.). Le bain de Diane, Paris, Jean-Jacques Pauvert, 1956.
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velmente impura, que sai de tais sombras para a luz e quer res­
tituir a todos esses simulacros, do outro lado do rio, alguma coi­
sa que seria como um corpo visível, um signo ou um ser. Tam 
dira cupido. É esse desejo que a deusa colocou no coração de 
Acteão no momento da metamorfose e da morte: se você pode 
descrever a nudez de Diana, tem o direito.
A linguagem de Klossowski é a prosa de Acteão: fala trans­
gressora. Essa não é a característica de qualquer fala, quando 
se trata do silêncio? Gide e com ele muitos outros queriam 
transcrever um silêncio impuro em uma linguagem pura, certa­
mente sem ver que tal fala só deve sua pureza a um silêncio 
mais profundo que ele não nomeia e que fala nele, apesar dele - 
tornando-o assim turvo e impuro13. Sabemos agora, desde Ba- 
taille e Blanchot, que a linguagem deve seu poder de transgres­
são a uma relação inversa, a de uma fala impura com um silên­
cio puro, e que é no espaço infinitamente percorrido por essa 
impureza que a fala pode se dirigir a um tal silêncio. Em Batail- 
le, a escrita é uma consagração desfeita: uma transubstancia- 
ção ritualizada em sentido inverso, em que a presença real se 
torna novamente corpo jacente e se vê reconduzida ao silêncio 
em um vômito. A linguagem de Blanchot se dirige à morte: não 
para triunfar sobre ela com palavras de glória, mas para per­
manecer na dimensão órfica onde o canto, tornado possível e 
necessário através da morte, não pode jamais olhar a morte 
face a face nem torná-la visível: de tal modo que ele lhe fala e 
fala dela em uma impossibilidade que o condena ao perpétuo 
murmúrio.
Essas formas de transgressão, Klossowski as conhece. Mas 
ele as modifica em um movimento que lhe é característico: trata 
sua própria linguagem como um simulacro. La vocation sus- 
pendue é um comentário simulado de uma narrativa que é ela 
mesma simulacro, pois ela não existe, ou melhor, reside intei­
ramente nesse comentário que se faz dela. De modo que, em 
uma única dimensão de linguagem, se abre essa distância inte­
rior da identidade que permite ao comentário de uma obra ina­
cessível se mostrar na própria presença da obra e à obra se es­
quivar dentro desse comentário, que é no entanto sua única for­
ma de existência: m istério da presença real e enigma do Mes­
13. (N.A.) Sobre a fala c a pureza, ver La messe de Georges Bataille. (n Un si 
Juneste désir, Paris. Gallimard, \u201cCollection Blanche". 1963, ps. 123-125.
122 Micln-i Koucault - Oitos c Escritos
mo. A trilogia de Roberte é tratada diferentemente, pelo menos 
em aparência: fragmentos de diários, cenas dialogadas, longas 
conversas que parecem fazer transferir a fala para a atualidade 
de uma linguagem imediata e superficial. Mas entre esses três 
textos se estabelece uma relação complexa. Roberte ce soir já 
existe no interior do próprio texto, pois este narra a decisão de 
censura tomada por Roberte contra um dos episódios do ro­
mance. Mas essa primeira narrativa existe também na segunda, 
que a contesta desde o interior pelo diário de Roberte, depois 
na terceira, onde se vê a preparação de sua representação tea­
tral, representação que escapa no próprio texto do Souffleur, 
onde Roberte, chamada para animar Roberte com sua presen­
ça idêntica, se desdobra em um hiato irredutível. Ao mesmo 
tempo, o narrador da primeira narrativa, Antoine, se dispersa 
na segunda entre Roberte e Octave, depois se dispersa na multi­
plicidade do Souffleur, onde aquele que fala é, sem que se pos­
sa determiná-lo, Théodore Lacase, ou K., seu duplo, que se faz 
tomar por ele, quer atribuir a si seus livros, se reconhece final­
mente em seu lugar, ou talvez também o Velho, que comanda a 
manobra das agulhas e permanece de toda essa linguagem o in­
visível Soprador. Soprador já morto, Soprador Soprado, Octa­
ve talvez falando outra vez além da morte?
Nem uns nem outros, sem dúvida, mas sim a superposição 
de vozes que se \u201csopram\u201d umas às outras: insinuando suas fa­
las no discurso do outro e o animando sem cessar com um mo­
vimento, com um "pneuma\u201d que não é o seu; mas soprando 
também no sentido de um bafejo, de uma expiração que apaga 
a luz de uma vela; soprando, enfim, no sentido em que se apo­
dera de uma coisa destinada a um outro (soprar-lhe seu lugar, 
seu papel, sua situação, sua mulher). Assim, à medida que a 
linguagem de Klossowski é retomada, ela se projeta sobre o que 
acaba de dizer na voluta de uma nova narrativa (há três delas, 
tantas quantas espirais há na escada em caracol que orna a co­
bertura do Souffleur), o sujeito falante se dispersa em vozes 
que se sopram, se sugerem, se apagam, se substituem umas às 
outras - dispersando o ato de escrever e o escritor na distância 
do simulacro em que ele se perde, respira e vive.
Usualmente, quando um autor fala de si mesmo como autor, 
é segundo a confissão do \u201cdiário\u201d que diz a verdade cotidiana - 
esta impura verdade em uma linguagem despojada e pura. 
Klossowski inventa, nessa retomada de sua própria linguagem,
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nesse recuo que não tende para nenhuma intimidade, um espa­
ço de simulacro que é, sem dúvida, o lugar contemporâneo, 
mas ainda escondido, da literatura. Klossowski escreve uma 
obra, uma dessas raras obras que revelam: nela nos apercebe­
mos que o ser da literatura não concerne nem aos homens nem 
aos signos, mas ao espaço do duplo, ao vazio do simulacro 
onde o cristianismo se encantou com seu Demônio, e onde os 
gregos temeram a presença cintilante dos deuses com suas fle­
chas. Distância e proximidade do Mesmo em que nós, agora, re­
encontramos nossa única linguagem.
1964
Debate sobre o Romance
' Debate sobre o romance" (dirigido por M. Foucault, com G. Amy, J.-L. Baudry, 
M.-J. Durry, J. P. Faye, M. de Gandillac, C. Oilier, M. Pleynet, E. Sanguineti, P. 
Sollers, J. Thibaudeau, J. Tortel). Tel quel, n- 17, primavera de 1964, ps. 
12-54. (Cerisy-la-Salle, setembro de 1963; debate organizado pelo grupo de Tel 
quel sobre o tema \u201cUne litterature nouvelle?\u201d .)
M. Foucault: De alguma maneira, nada tenho absolutamente 
para falar a não ser de minha ingenuidade, e gostaria de dizer 
duas ou três palavras sem outra ligação a não ser com a minha 
curiosidade. O que gostaria de fazer é dizer