FOUCAULT M Est 233 tica   literatura e pintura m
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FOUCAULT M Est 233 tica literatura e pintura m


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há um privilegio do Jogo formal da representação 
ou dos significantes, em Lacan trata-se da dimensão pulsional.
Se para Foucault o rei e a rainha ausentes são os elementos 
ordenadores do quadro, em Lacan o que importa é a janela à di­
'l.es mots et les choses. Ed. Gallimard. p. 319.
**Lcs mots rt les choses, Ed. Gallimard, p. 319.
XXX Michel Foucault - Ditos e Escritos
reita, que figura o objeto do fantasma. O elemento que mobiliza 
Lacan é a luz que se dirige para o meio do vestido bordado da 
infanta, onde se oculta o sexo dessa criança. A tese de Lacan é 
de que o quadro tem como fim pacificar o olhar, o que seria, 
para ele, a função de qualquer quadro. Em Foucault, a divisão 
se dá entre o pintor e o rei. Em Lacan, é o espectador que é divi­
dido pelo ato de pintar. De um lado, a ação da pintura diz res­
peito à posição identificatória, e, do outro, ao gozo.
Manet e a materialidade. A fundação da arte contemporânea
No início da episteme clássica está Velásquez, e no fim, Ma­
net. Ambos indicam com relação à epistem e em que se inscre­
vem o lugar do sujeito. Sim, no fim da era clássica da represen­
tação é também um pintor, Manet, que vem ocupar posição es­
tratégica. \u201cA pintura\u201d, escreve Foucault, \u201ctem ao menos isso em 
comum com o discurso: quando ela faz passar uma força que 
cria história, ela é política\u201d (ver n2 118, vol. II da edição francesa 
desta obra).
Assim, é em relação a Manet e Flaubert que Foucault estabe­
lecerá um paralelo extremamente importante que é necessário 
ressaltar.
Foucault faz uma correlação entre a escrita de Flaubert e a 
obra pictórica de Manet. Ele considera que L e D éjeuner sur 
1'Herbe e Olympia tenham sido as primeiras pinturas "de mu­
seu\u201d: \u201cpela primeira vez na arte européia telas foram pintadas
- não exatamente para reproduzir Giorgione, Rafael e Velás­
quez, mas para expressar, ao abrigo dessa relação singular e 
visível sob essa decifrável referência, uma relação nova e subs­
tancial da pintura consigo mesma\u201d. Um quadro pertence, a 
partir de Manet, \u201cà grande superfície quadrilátera da pintura, 
cada obra literária pertence ao murmúrio infinito do escrito. 
Flaubert e Manet fizeram existir, na própria arte, os livros e as 
telas\u201d.
Aqui está o caráter pioneiro, fundador, do trabalho de Ma­
net: ele põe em ação, no interior de seus quadros, a profundida­
de material do espaço sobre o qual ele pintava. Trata-se da in­
venção (talvez mais do que reinvenção) do \u201cquadro-objelo\u201d. o 
quadro como materialidade, o quadro como coisa colorida. Ele 
vem iluminar uma luz externa. É diante da materialidade do 
quadro ou em torno dela que vem girar o espectador.
Apresentação XXXI
Sobre o autor de Olympia, Foucault diz, em sua conferência 
de Túnis, que Manet \u201cpõe em jogo na representação os elemen­
tos fundamentais da tela\u201d (Michel Foucault, in La peinture de 
Manet. Sob a direção de Maryvonne Saison. Paris, Édition du 
Seuil, Coleção \u201cTraces Écrits\u201d, abr. de 2004, p. 31). Ele fala, 
com efeito, sobre o caráter físico da tela, que é \u201ca condição fun­
damental para que um dia se desembarace da própria repre­
sentação e que se deixe pôr em jogo o espaço com suas proprie­
dades puras e simples, suas propriedades materiais em si mes­
mas\u201d (ibidem ).
À representação se segue a materialidade: é o que essa ar­
queologia da pintura mostra. Em Velásquez, há também a ante­
cipação de uma epistem e.
Foucault afirma, a respeito de Manet, não ter a intenção de 
falar em geral sobre ele, mas apresentar uma dezena ou uma 
dúzia de telas \u201cdesse pintor que tentarei analisar, ao menos ex­
plicar em alguns de seus pontos\u201d ( ib idem , p. 21).
Começando a falar de Manet na história da pintura do século 
XIX, Foucault lembra como ele figura sempre na história da 
arte \u201ccomo aquele que modificou as técnicas e os modos de re­
presentação pictórica, de tal maneira que tornou possível esse 
movimento do impressionismo\u201d (ib idem . p. 21). Foucault res­
salta que, se é verdade que Manet foi o precursor do impressio­
nismo, e é aquele que o tornou possível, para ele, Manet é bem 
mais do que isso. Manet, para Foucault. foi aquele que \u201ctornou 
possível... toda a pintura depois do impressionismo, toda a pin­
tura do século XX, a pintura no interior da qual ainda, atual­
mente, se desenvolve a arte contemporânea\u201d ( ib idem . p. 22). 
Trata-se, assim, de uma ruptura em profundidade \u201cmais difícil 
de situar do que as modificações que tornaram possível o im­
pressionismo\u201d. É essa operação que Foucault trata de realizar e 
que vai além da pintura do século XIX, isto é, trata-se de uma 
reflexão que toca a atualidade.
*
Foucault vai tratar de três aspectos, de três rubricas, três re­
gistros que esclarecem, a partir dos próprios quadros, a muta­
ção da pintura ocidental operada por Manet. Em primeiro lu­
gar . ele examina a forma como Manet tratou do próprio espaço 
da tela, como ele pôs em ação suas propriedades materiais, a
superfície, altura e comprimento, ou ainda a forma como ele 
pôs em ação "essas propriedades espaciais da tela no que eie 
representava sobre essa tela\u201d ( ib idem , p. 22). Nesse primeiro 
conjunto estão os quadros La Musique aux Tuileries. Le Bqi 
Masqué à l'Opéra. L'Exécution de M axim ilien , Le Port de Bor- 
deaux, Argenteuil, Dans la Serre, La Serueuse de Bocks, Le 
Chemin de Fer.
Em segundo lugar, em um outro conjunto, Foucault esclare­
ce como Manet tratou do problema da iluminação, isto é, como 
ele utilizou não uma \u201cluz representada que iluminaria interna­
mente o quadro\u201d, mas \u201ca luz exterior real\u201d (ib idem ). Esse con­
junto é composto de Le Fifre, de 1864; o famoso Le Déjeuner 
sur VHerbe, de 1863; Olympia, o escândalo do salão, em 1865; 
e Le Balcón.
Por fim, Foucault analisa como ele pôs em ação o lugar do es­
pectador em relação ao quadro. Para esclarecer esse ponto, ele 
utiliza não um conjunto de telas, mas uma que, a seu ver, resu­
me, \u201csem dúvida, toda a obra de Manet\u201d: Un B ar aux Folies- 
Bergère.
0 primeiro conjunto de telas de que Foucault tratou dizia 
respeito ao espaço. Ele começa com La M usique aux Tuileries, 
e depois trata de Le Bal Masqué à l \u2019Opéra, L \u2019Exécution de Ma­
ximilien, Le Port de Bordeaux, Argenteuil, Dans la Serre, La 
Serveuse de Bocks e, finalmente, Le Chem in de Fer. Isto é, o 
maior número de quadros analisados diz respeito ao problema 
do espaço. Vamos isolar de cada problema a análise de um qua­
dro feita por Foucault. Quanto ao espaço, vamos tratar de 
L \u2019Exécution de Maximilien.
L \u2019Exécution de Maximilien
Este quadro data de 1867, sendo anterior a Le Bal Masqué à 
l \u2019Opéra, que Foucault também analisou. Nele, notam-se os mes­
mos procedimentos: \u201cfechamento violento marcado e apoiado 
do espaço pela presença de um grande muro\u201d (ib idem , p. 27). 
Esse muro é a reduplicação da própria tela, de tal maneira que 
os personagens estão situados em um estreito pedaço de terra, 
de tal forma que se tem como que uma marcha de escada, quer 
dizer, \u201chorizontal, vertical e de novo alguma coisa como unia 
vertical, uma horizontal que se abre com pequenos perso­
nagens que estão em vias de olhar a cena\u201d. Pois bem, tem-se-
Apresentação XXX111
acima do muro, uma pequena cena que reduplica o quadro. 
Foucault ressalta que se têm os mesmos elementos que vão ser 
reencontrados mais tarde em Le Bal Masqué à VOpéra: \u201cTodos 
os personagens estão, portanto, situados no mesmo estreito pe­
queno retângulo sobre o qual eles têm os pés colocados (uma 
espécie de marcha de escada por trás da qual vocês têm uma 
grande vertical). Estão todos juntos uns dos outros, tão perto 
que se vê o cano dos fuzis tocar seu peito\u201d (ibidem ). As horizon­
tais e a posição vertical dos soldados multiplicam e repetem no 
interior do quadro os grandes eixos horizontais e verticais na 
tela. Inexiste, assim, distância entre o pelotão de execução e 
suas vítimas. Por outro lado,