Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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dentro dos princípios
da democracia das idéias e da arte de pensar. Os resultados são. animadores. Muitos casos de
doenças psíquicas de difícil tratamento, inclusive de pacientes autistas, têm sido resolvidos. A
teoria multifocal, devido as suas variáveis universais, pode ser aplicada em qualquer outra
corrente psicoterapêutica: psicanálise, psicoterapia cognitiva, logoterapia, psicodrama,
psicoterapia analítica, etc.
EXEMPLO DE UM CASO INSOLÚVEL NA PSIQUIATRIA
CLÁSSICA
Lembro-me de uma cliente de 82 anos de idade que tinha transtornos graves da personalidade
e sofria de uma depressão crônica e resistente que já durava mais de três décadas. Ela era
inteligente, mas também mal-humorada, negativista, agressiva e insociável. Queria a todo
custo separar-se do marido, pois me dizia que tinha aversão dramática por ele. Essa aversão
era tão intensa, que, quando o marido passava por ela e encostava a mão no seu braço, ela
sentia tanta repulsa por ele que ia correndo lavar essa parte do corpo. Quando o marido
tomava banho, ela só conseguia
tomar banho se mandasse desinfetar o banheiro. Viveu por cinqüenta anos um casamento
falido, transformou a relação com seu marido numa praça de guerra. Falava dele com ódio e
dizia que não podia olhar para seu rosto e, não apenas isso, raramente conseguia expressar
qualquer palavra de elogio a qualquer pessoa. Mesmo com os filhos ela era crítica e
agressiva.
O que pode a psiquiatria fazer para uma pessoa que jamais admitiu que estivesse doente, que
sempre quis que o mundo gravitasse em torno de si mesma? O que pode a psicologia, com
todas as suas técnicas psicoterapêuticas, fazer para uma pessoa que sempre se recusou a se
interiorizar e revisar os pilares fundamentais de sua personalidade?
Muitos membros de sua família não acreditavam que
uma pessoa nessa idade, com uma depressão tão grave e resistente e que tinha diversos
transtornos de personalidade, pudesse ter alguma melhoria. Porém, o processo
psicoterapêutico é ura canteiro onde florescem as funções mais importantes da inteligência,
um ambiente que pode, se bem conduzido, estimular a produção de um oásis no mais
causticante deserto emocional. Apesar de todas as
dificuldades iniciais, da sua recusa de penetrar dentro de si mesma, pouco a pouco aquela
rocha humana foi sendo demolida. Olhava para sua postura rígida e para seu olhar fadigado
pelo tempo e pensava comigo mesmo: "Deve haver algo belo por detrás dessa rigidez que
nunca foi explorado, deve haver algumas funções nobres da personalidade que estão
embotadas".
Levei-a a ser uma caminhante nas trajetórias do seu próprio ser, a repensar sua rigidez
intelectual, a analisar as origens de suas angústias e de suas reações insociáveis. Procurei
provocar sua inteligência e estimular sua
compreensão sobre alguns fundamentos do processo de construção dos pensamentos e da
transformação da energia emocional. Acreditava, mesmo com sua idade avançada, nas
suas possibilidades intelectuais e procurava fazer do processo psicoterapêutico um debate de
idéias, criando um clima que promovia o desenvolvimento da arte da dúvida e da crítica
contra seus próprios paradigmas intelectuais. Meu objetivo não era de que ela apenas
resolvesse sua doença psíquica e superasse a sua dor, mas que se tornasse uma pensadora,
uma poeta existencial, alguém capaz de expandir tanto a arte de pensar como a arte da
contemplação do belo. Depois do tratamento, que durou cerca de quatro meses,
ninguém acreditava no que havia acontecido com ela. Tornara-se uma pessoa dócil, amável,
sociável, tolerante. Começou a tratar o marido com ternura, inclusive passou a chamá-lo de
"meu bem" e constantemente lhe pedia que a beijasse e lhe fizesse carinho.
Ela me dizia que passou a amar seu marido como nunca
ocorreu em toda a sua história conjugal. Seu marido, também com 82 anos, um ex-professor
universitário, estava, antes da sua melhora, abatido fisicamente, com dificuldades de se
locomover e de organizar seu raciocínio. Porém, com o grande salto da qualidade de vida da
sua esposa, ele passou a se alimentar mais, ganhou peso, melhorou a deficiência da memória e
seu rendimento intelectual. Marido e esposa mudaram tanto que passaram, mesmo diante das
suas
limitações físicas, a cantar e a dançar juntos na sala de seu apartamento.
Algumas vezes eles choravam por ter a consciência de que atravessaram um imenso deserto
existencial, saturado de angústias e discórdias. Contudo, queriam recuperar o tempo perdido,
queriam viver intensamente cada minuto que lhes restava de vida, por isso, algumas vezes,
eles acordavam um ao outro de madrugada para conversar e ficar mais tempo juntos. A
afetividade entre os dois floresceu como na primavera mais rica da adolescência.
Minha paciente me dizia que havia encontrado um
sentido para sua vida e que, no final de sua existência, começou a trabalhar suas
contrariedades e a aprender a ter prazer nos pequenos estímulos. Por isso, até os sons dos
pássaros que eram imperceptíveis aos seus ouvidos, se tornaram músicas para eles. Comovido
com essa melhora acentuada e estável, escrevi um bilhete para ela e para o marido, dizendo:
"Parabéns; vocês se tornaram poetas da existência, souberam encontrar ternura e dignidade no
final de suas vidas; descobriram que a sabedoria se conquista quando
aprendemos
a
superar
nossos
invernos
existenciais..." Eles ampliaram os dizeres deste bilhete e o colocaram na sala do apartamento
deles.
Ela deu um salto qualitativo na sua saúde emocional e intelectual.
Resolveu
sua
depressão
crônica,
sua
insociabilidade, agressividade e tornou-se uma pessoa encantadora aos 82 anos de idade.
Viveu uma rica história de amor com seu marido por mais dois anos, até que ele morreu. O
último pedido dele, no leito de sua morte, é que ela o acariciasse até que ele morresse. Foi
assim que findou este romance.
A história dessa paciente é um exemplo vivo que
evidencia que, mesmo nos casos aparentemente insolúveis pela psiquiatria e pela psicologia,
é sempre possível reescrever os capítulos fundamentais da personalidade.
O
homem,
independentemente
de
sua
idade,
personalidade e transtornos psíquicos, pode e tem o direito de se tornar um engenheiro de
idéias que constrói e reconstrói a sua história psicossocial. Ao aplicar os princípios
psicoterapêuticos derivados do processo de construção da inteligência, estimulamos o resgate
da liderança do eu e fazemos com que os pacientes deixem de ser espectadores passivos de
misérias psíquicas e passem a ser agentes modificadores de sua personalidade. Onde a
psiquiatria clássica não consegue pisar os procedimentos psicoterapêuticos multifocais pode,
em diversos casos, alcançar.
CAPÍTULO 2
A METODOLOGIA E OS PROCEDIMENTOS USADOS
NA CONSTRUÇÃO DA TEORIA DA INTELIGÊNCIA
MULTIFOCAL
O AUTORITARISMO DAS IDÉIAS E A DITADURA DO
DISCURSO TEÓRICO
As idéias, como um "conjunto organizado de
pensamentos", servem para definir, conceituar e caracterizar os fenômenos que observamos.
Por sua vez, o discurso teórico, como um "conjunto organizado de idéias", serve como
instrumento intelectual para teorizar, discorrer, descrever um conhecimento mais complexo e
abrangente desses
fenômenos, bem como das micro e macro-relações que eles mantêm com outros fenômenos. As
idéias, expressas por conceitos, hipóteses e postulados (convenções), são os tijolos de uma
teoria. Uma teoria se expressa através de um discurso, que chamo de discurso teórico.
As idéias e os discursos teóricos são instrumentos fundamentais da ciência. Através das idéias
podemos desenvolver
relações
interpessoais,
nos
comunicar,
desenvolver atividades de trabalho. Por sua vez, através dos discursos teóricos, ou seja, pela
manipulação de uma teoria, podemos produzir conhecimento, construir argumentações
científicas, organizar postulados, derivar hipóteses,