Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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respeitar
nenhuma limitação.
A ciência é inesgotável porque o mundo das idéias é
inesgotável, pois ele é construído na esfera da virtualidade. Devido à inesgotabilidade da
ciência, toda teoria, toda tese, necessita invariavelmente ser revista e/ou expandida ao longo
do tempo. Daqui a um século, grande parte do conhecimento que hoje consideramos como
verdade científica perderá sua validade ou terá sua validade questionada. Desconhecer os
limites e o alcance do conhecimento faz com que a transmissibilidade do conhecimento na
educação seja, freqüentemente, autoritária e unifocal, suscitando raramente o debate
intelectual e o intercâmbio das idéias na relação professor-aluno. Esse autoritarismo pode
ocorrer em todas as esferas das relações humanas.
Terceiro, o fato de o universo microessencial ser infinito também elucida essa
inesgotabilidade. Se por um lado os cientistas da Física descobriram que o universo
macroessencial é composto de dezenas de bilhões de galáxias
\u2014 portanto finito \u2014 por outro lado, o universo microessencial é infinito, pois, se assim não
fosse, dar-se-ia que a infinita unidade da microessência (matéria ou energia) atingiria o nada.
Nesse caso, teríamos o paradoxo tudo-nada, pois o tudo seria constituído do nada. Assim, o
mundo que somos e em que estamos seriam universos inexistentes.
A consciência da existência é um autotestemunho da existência. A consciência da existência,
embora virtual, nasce, como comentarei, da realidade essencial das matrizes dos pensamentos.
Se é paradoxalmente impossível que a microessência atinja o nada, não há partícula
microessencial fundamental, indivisível, seja ela matéria ou energia. Se a microessência
jamais atinge o nada, ela é infinita em si mesma. Os físicos dizem que o universo é finito; mas
quando fazemos uma análise filosófica dos fenômenos, descobrimos que o universo
microessencial é infinito. Nessa análise, a Filosofia e a Física fundem-se.
Qualquer área da ciência, mesmo a Física Quântica, circunscreve as dimensões essenciais
inesgotáveis dos fenômenos que estuda e dos sistemas de relações existentes entre eles aos
limites estreitos e autoritários de uma teoria. Até os conhecimentos cientificamente
comprovados (as verdades científicas) são autoritários, pois revelam apenas uma seqüência
de, no máximo, meia dúzia de respostas na cadeia interminável do conhecimento sobre os
fenômenos. Exemplo: os tecidos são formados de células, as células de moléculas, as
moléculas de átomos, os átomos de prótons, nêutrons, elétrons e de outras partículas
subatômicas, projetando, assim, uma seqüência interminável de
indagações desconhecidas sobre o universo microessencial. Se o universo microessencial é
infinito, os sistemas de micro e macrorrelações existentes entre os fenômenos microessenciais
também o são e, conseqüentemente, o conhecimento sobre eles também o é, evidenciando,
portanto, a inesgotabilidade da ciência. A infinidade da microessência revela que a ciência é
infinita. Os cientistas são finitos, mas as possibilidades da ciência são infinitas.
Diante da infinidade da microessência e de suas
relações e, conseqüentemente, da inesgotabilidade da ciência, por mais que tenhamos cultura e
produzamos conhecimento,
ninguém é de fato um mestre ou um doutor (Ph.D.) em qualquer área da ciência. Todos os
cientistas são eternos aprendizes. Os títulos acadêmicos honram os cientistas, mas não honram
a inesgotabilidade da ciência. Por isso, se na atual estrutura acadêmica os títulos são
inevitáveis, eles deveriam ser usados como uma referência de pouco valor, e não para
estabelecer hierarquia entre os cientistas. Não há
hierarquia entre os que pensam, sejam eles pesquisadores científicos ou não.
O valor de um pensador não está na grandeza dos seus
títulos, mas na grandeza das suas idéias. Por isso, nos congressos científicos, os títulos
acadêmicos de um cientista, e mesmo a procedência de uma universidade ou o instituto de
pesquisa, não deveriam ser pronunciados em voz
altissonante, tampouco deveriam figurar nos livros em letras garrafais. Não sendo assim,
contamina-se o processo de interpretação do ouvinte ou do leitor e fere-se a democracia das
idéias. Nos bastidores da psique humana há muitas variáveis que podem contaminar
excessivamente o
julgamento crítico das idéias. A estética socioeducacional, se supervalorizada, pode ser uma
delas.
Os discípulos de uma teoria, seja ela científica, política ou educacional, deveriam tomar
cuidado com tudo aquilo que pode levá-los a supervalorizar as idéias de um teórico, tais
como imagem social, imagem histórica, influência política, títulos acadêmicos, admiração
pessoal, procedência etc; caso contrário, eles podem manipular a teoria de maneira
autoritária, praticando a ditadura do discurso teórico no exercício profissional.
OS PIORES INIMIGOS DAS TEORIAS
A antiessencialidade da consciência existencial, o
sistema de encadeamento distorcido da construção de pensamentos e a infinidade dos
fenômenos microessenciais revelam que a ciência é invariavelmente inesgotável. Por isso,
todo conhecimento, toda teoria científica, toda verdade científica, produzida em livros,
gravada em disquetes, debatida nas universidades, aplicada nos laboratórios e nas empresas é
intensamente restritiva em relação à inesgotabilidade da própria ciência.
Se a ciência é infinita e as teorias, limitadas, logo se conclui que elas deveriam ser
continuamente revistas e expandidas ao longo do tempo. Por isso, reitero que os piores
inimigos de uma teoria não são os seus críticos, mas seus discípulos radicais, ou seja, os que
aderem rigidamente a elas, como se elas incorporassem a verdade essencial, aqueles que são
incapazes de criticá-la, reciclá-la e expandila. Há diversas teorias psicológicas perdendo
espaço e
credibilidade porque seus discípulos se sentem culpados de tentar reciclá-las. Às vezes, o que
é pior, o receio de reciclar uma teoria não é devido à culpabilidade que possam ter, mas à
falta de honestidade intelectual consigo mesmo, ao medo da crítica de seus pares, dos
membros de sua sociedade psicoterapêutica. Tais entraves ocorrem fartamente também em
outras ciências. Muitos têm medo de fazer um motim teórico. Aqueles que criticam e
reescrevem uma teoria não a jogam no lixo nem desconsideram a capacidade intelectual do
seu autor, mas acabam apreciando-a mais, usando-a como canteiro das idéias, embora não
mais gravitem rigidamente em sua Órbita.
É inadmissível que a Psicologia, a Filosofia, a Sociologia, a Educação, se fechem em torno de
convenções exclusivistas, pois elas nunca atingem a verdade real, essencial, pois possuem
fenômenos de estudos essencialmente inacessíveis e sensorialmente intangíveis, e uma
produção de conhecimento que sofre um sistema de encadeamento distorcido. Essa rigidez
compromete a democracia das idéias e a expansão da própria ciência.
AS TEORIAS NA MATEMÁTICA TAMBÉM SÃO LIMITADAS
De fato a ciência é inesgotável, mas as teorias, ainda que importantíssimas, são redutoras
dela. Até na Matemática as teorias são limitadas. Até nas indiscutíveis operações de soma há
limitações, pois 1 mais 1 só é 2 se o primeiro 1 é, em todos os níveis microessenciais,
exatamente igual ao segundo 1. Porém, como tudo no universo é essencialmente distinto,
justamente pelo fato de que dois elementos não ocupam o mesmo espaço num mesmo período
de tempo, conclui-se que a Matemática, que parece a única ciência imutável, só é realmente
imutável por artifícios intelectuais que não se verificam no universo essencial.
Filósofos como Descartes,2 embora fossem de
indiscutível inteligência, quiseram aplicar as leis da Matemática na Filosofia, na produção de
conhecimento, visando expandir sua lógica. Porém, não compreenderam que a verdade da
Matemática é antiessencial, ou seja, possui uma distância infinita com relação à verdade
essencial, ainda que produza aplicabilidades e previsibilidades.