Cury   Inteligencia Multifocal
405 pág.

Cury Inteligencia Multifocal


DisciplinaPsicologia63.850 materiais447.860 seguidores
Pré-visualização50 páginas
original.
Quando abordei o autoritarismo das idéias e a ditadura
dos discursos teóricos, evidenciei que, apesar de uma teoria poder catalisar e promover a
produção de conhecimento de um observador (ex., cientista, psicoterapeuta), ela também pode
reduzir essa produção, principalmente se o observador gravitar em torno dela, utilizá-la como
verdade irrefutável, desconhecer seus limites, alcance, lógica e validade. Nesse caso,
o
observador
circunscreveria
autoritária
e
ditatorialmente o fenômeno observado apenas dentro dos limites da teoria que abraça, não se
abrindo a inúmeras outras possibilidades que o fenômeno revela.
Nesse sentido, a fenomenologia tem fundamento. Porém,
discordo da fenomenologia de que a utilização de uma teoria é
invariavelmente
reducionista
da
produção
de
conhecimento, embora macule a originalidade do fenômeno, pois se utilizada dentro do campo
da democracia das idéias e levando em consideração os processos de construção dos
pensamentos e os limites e alcance básicos do conhecimento teórico, ela pode contribuir para
expandir a produção do conhecimento, da cultura, do mundo das idéias. A teoria pode tanto
embotar os pensamentos como pode catalisar, provocar e enriquecer a pesquisa científica,
depende de quem a utiliza.
Apesar de a fenomenologia ter o brilhantismo filosófico de teorizar sobre o processo de
contaminação das teorias formais, ela desconsidera que a maior de todas as teorias utilizadas
no processo de interpretação não é a teoria formal (científica), mas a teoria histórico-
existencial, ou seja, a história intrapsíquica arquivada na memória de cada ser humano, de
cada observador.
Quando estudarmos os fenômenos que lêem a memória
e constroem os pensamentos, constataremos que ler e utilizar as riquíssimas matrizes de
informações não é uma opção do
"eu", mas uma inevitabilidade. Ler e utilizar a memória independe da determinação do "eu".
Podemos, no máximo, selecionar a leitura e a utilização da memória. Se fosse possível abortar
a leitura da memória em um determinado momento, perderíamos a consciência de quem somos
e de onde estamos.
A morte da história intrapsíquica implica a morte da consciência humana, a morte do homem
como ser pensante.
A história social, contida nos livros, é o leme intelectual que direciona a trajetória
sociopolitica de uma sociedade, e a história intrapsíquica, contida na memória, é o leme
intelectual que direciona a trajetória da produção de pensamentos de um indivíduo.
É possível abster-se de utilizar uma teoria formal (científica) como suporte da interpretação
na investigação dos fenômenos, mas não é possível livrar-se da teoria históricoexistencial na
investigação dos mesmos, pois o caos da energia psíquica é reorganizado a partir da leitura da
memória.
Dessa leitura se produzem as matrizes dos pensamentos
essenciais históricos, que sofrerão um misterioso processo de leitura virtual, gerando os
pensamentos dialéticos e antidialéticos. Portanto, o maior desafio não é se precaver contra as
contaminações da interpretação da teoria formal, mas contra as contaminações da teoria
histórico-existencial. Deveríamos aprender a descontaminar o processo de
observação e interpretação, tanto quanto possível, das distorções preconceituosas contidas na
memória e, ao mesmo tempo, expandir as possibilidades de construção e
compreensão do conhecimento dos estímulos pesquisados.
Provavelmente,
muitos
cientistas,
intelectuais,
pensadores, psicoterapeutas, executivos e qualquer tipo de pessoa que realiza algum tipo de
trabalho intelectual, contaminam e reduzem excessivamente sua produção de conhecimento
com as teorias que utilizam, principalmente com a teoria histórica.
É inevitável que todo pensamento, por ser gerado pelo processo de interpretação, reduza as
dimensões dos
fenômenos observados. A leitura da história intrapsíquica, se não for revisada, produz toda
sorte de distorções da interpretação e, conseqüentemente, distorções na produção de
conhecimento, além de produzir toda sorte de
discriminações e de atitudes superficiais que induzem a um excesso de explicações
psicológicas superficiais.
Todo homem lê sua memória e torna-se um exímio
engenheiro quantitativo de idéias, embora nem sempre qualitativo; até as pessoas tímidas o
são. Aliás, as pessoas tímidas falam pouco, mas pensam muito. Pensar não é uma
opção do homem; pensar é o destino do homem; pensar é
uma inevitabilidade.
UMA POSTURA CONTINUAMENTE ABERTA
Todos temos fenômenos intrapsíquicos que vivem num
fluxo vital e que reorganizam o caos da energia psíquica, através da leitura multifocal da
história intrapsíquica; por isso, todos somos grandes engenheiros de idéias, ainda que estas
sejam superficiais. Por ser um exímio engenheiro de idéias, o homem tem tendência para
produzir idéias e pensamentos superficiais sobre os problemas existenciais, sobre as relações
humanas, sobre os problemas
sociopolíticos, sobre os fenômenos científicos e até sobre Deus, sem muita consciência
crítica, sem muito respeito à
própria inteligência, sem realizar uma análise crítica dos fundamentos
que
embasam
seus
julgamentos
da
interpretação, sem se colocar de maneira aberta e crítica no processo de observação e
interpretação.
É possível usar teorias para catalisar e promover a revolução das idéias em todas as áreas das
ciências e, como disse, também é possível contaminar a revolução das idéias pelo uso dessas
teorias, por não usá-las criticamente, por gravitar em torno delas.
Não usei nenhuma teoria existente na ciência para
pesquisar o funcionamento da mente e produzir a teoria contida neste livro. Porém, mesmo
tendo a ousadia de não usar textos de outros autores não estou livre de contaminar os
processos de observação, interpretação e produção de conhecimento, pois posso contaminá-
los pela leitura do meu passado. Assim, quando observo, interpreto e produzo conhecimento,
sem uma crítica multifocal e sem uma postura continuamente aberta, posso comprometê-los
com um conjunto de experiências arquivadas na minha memória,
experiências
que
chamo
de
RPSs
(representações
psicossemânticas diretivas e associativas). Por isso, há anos tenho desenvolvido e utilizado a
busca do caos intelectual para dessensibilizar-me das contaminações da minha
história intrapsíquica, das contaminações das RPSs diretivas e associativas, e para expandir
as possibilidades de construção do conhecimento.
Muitos críticos de arte, psicólogos, professores,
promotores, pesquisadores científicos etc, não têm
consciência de que contaminam excessivamente seus
julgamentos críticos através da leitura das suas histórias intrapsíquicas. Eles interpretam os
estímulos baseados muito mais em suas histórias intrapsíquicas do que nas
possibilidades que eles apresentam.
Como realizar o desafio intelectual de procurar
descontaminar-se da teoria histórica e, ao mesmo tempo, de abrir as possibilidades de
construção do conhecimento? Para isso, precisamos usar sistematicamente a "tríade de arte da
pesquisa" e a busca do caos intelectual. Precisamos procurar intensamente a busca do caos
intelectual para desorganizar, tanto quanto possível, os referenciais históricos, os paradigmas
socioculturais, os estereótipos sociais e os padrões de reações intelectuais que estão contidos
na história intrapsíquica.
Procurei fazer continuamente, ao longo dos anos, um questionamento sistemático dos conceitos
contidos na minha história intrapsíquica. Procurei também exercitar uma postura
continuamente aberta no processo de observação e interpretação dos fenômenos que
participam e co-interferem para gerar os processos de construção da inteligência. Em tese, fui
aprendendo a aplicar a "tríade de arte da pesquisa" e a busca do caos intelectual diante de
cada comportamento do
"outro" e em cada fenômeno ou variável