Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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em sistemas de
códigos físico-químicos, uma complexa experiência fóbica, uma angústia decorrente de algum
problema existencial ou uma experiência de prazer? As RPSs das experiências emocionais e
motivacionais são sempre redutoras e
simplistas em relação às mesmas.
A trajetória de pesquisa e produção de conhecimento sobre a memória, do ponto de vista
psicológico,
psicodinâmico e psicossocial, inclui:
1. A qualidade e quantidade das RPSs, representações psicossemânticas das experiências
psíquicas, arquivadas na memória.
2. As RPSs diretivas, ou seja, relacionadas diretamente com o estímulo interpretado.
3. As RPSs associativas, ou seja, relacionadas
associadamente com o estímulo interpretado.
4. A lógica do processo de arquivamento das matrizes dos pensamentos essenciais.
5. As dificuldades de organização lógica do processo de arquivamento das experiências
emocionais e motivacionais. 6. A morte do "eu sou" gerando o "fui histórico", ou seja, o caos
psicodinâmico descaracterizando as experiências psíquicas do passado e arquivando-as na
memória, para formar a história intrapsíquica.
7. A atuação do fenômeno RAM \u2014 registro automático da memória \u2014 produzindo um
processo espontâneo e
inevitável de formação da história intrapsíquica. A preferência do fenômeno RAM por
registrar privilegiadamente as experiências que tenham mais tensão.
8. A redutibilidade da complexidade das experiências psíquicas, tais como as idéias, as
análises, as angústias existenciais, as inseguranças, as reações fóbicas, etc, no processo de
arquivamento fisico-químico das mesmas na memória e na conseqüente produção das RPSs.
Por exemplo,
uma RPS físico-química que representa uma angústia existencial, vivenciada num determinado
período histórico, é
muito pobre era relação à realidade da experiência em si. 9. Os mecanismos psicodinâmicos
que promovem os
níveis de estabilidade e de disponibilidade histórica das RPSs, tais como: a qualidade dos
estímulos da interpretação; a qualidade do processo de interpretação do observador num
determinado
momento;
a
qualidade
dos
impactos
psicodinâmicos intelecto-emocionais das experiências resultantes do processo de
interpretação; as condições psicodinâmicas de arquivamento dessas experiências como RPSs
na memória e freqüência dos resgates da construção das RPSs, etc.
10. A descaracterização das RPSs na memória.
11. A interpretação das RPSs.
12. Os sistemas de relações existentes entre os códigos físico-químicos das RPSs e as
experiências psíquicas.
13. Os sistemas de relações existentes entre os códigos físico-químicos da memória e os
estímulos extrapsíquicos. 14. O processo de construção da história intrapsíquica na memória
do feto.
15. O processo de construção da história intrapsíquica na memória na vida extra-uterina.
16. A leitura da memória pelos quatro fenômenos que fazem a leitura da mesma.
17. Os deslocamentos psicodinâmicos da âncora da
memória nos seus territórios permitem a leitura, numa determinada circunstância psicossocial,
de um grupo de RPSs diretivas e associativas para o fenômeno da
autochecagem, do autofluxo e o eu construírem as matrizes dos pensamentos essenciais
históricos.
Os pontos psicológicos, psicodinâmicos e psicossociais relativos à memória são muito
complexos, semelhantemente aos pontos relativos aos processos de construção dos
pensamentos. Por isso, seriam necessários muitos livros para abrangê-los todos.
Como podemos perceber através de todos estes pontos, a abordagem da memória é muito mais
complexa do que os conceitos neurocientíficos relacionados com a memória de curto prazo e a
memória de longo prazo.4 Deixarei de lado o uso da memória de longo prazo e de curto prazo
por não considerá-lo adequado.
A MEMÓRIA EXISTENCIAL E A MEMÓRIA DE USO CONTÍNUO
FORMANDO A HISTÓRIA INTRAPSÍQUICA
Existem dois tipos de memória. A memória existencial (ME) e a memória de uso contínuo
(MUC). Essas duas memórias formam a totalidade da história intrapsíquica de um ser humano,
contendo, portanto, todos os segredos de sua vida. A memória existencial representa as
experiências que vão sendo registradas ao longo da vida e a memória de uso contínuo
representa as informações que vão sendo usadas e rearquivadas continuamente, tais como os
endereços das residências e dos e-mails, os números telefônicos, as fórmulas matemáticas, as
palavras que compõe uma língua. Por que conseguimos nos "lembrar" de maneira mais exata
de determinadas informações? Porque elas são usadas continuamente e, conseqüentemente, são
novamente
arquivadas, ficando mais disponíveis para serem lidas. Se deixarmos de usar determinadas
informações, elas vão sendo substituídas e arquivadas na memória em zonas de acesso mais
difícil.
Na base do desenvolvimento da dependência de drogas,
das fobias, dos transtornos obsessivos e da síndrome do pânico existe uma produção contínua
de idéias e
experiências emocionais semelhantes, que vão sendo
arquivadas em zonas privilegiadas da memória de uso contínuo, ficando, assim, mais
disponíveis para serem lidas e, conseqüentemente, para reproduzir novamente um desejo
compulsivo por usar a droga, uma reação fóbica, uma idéia obsessiva ou precipitar um novo
ataque de pânico.
O processo de arquivamento da memória humana não é
segmentado como nos computadores. Nestes, os arquivos são segmentados e as informações
são arquivadas em sistemas de códigos ou endereços. Nos computadores procuramos as
informações através de rígidos e engessados sistemas de códigos, da mesma forma como
procuramos um livro numa biblioteca. Na memória humana não ocorre assim, sua leitura não é
unidirecional, mas multifocal. Nela, ao contrário dos computadores, os arquivos têm canais de
comunicação entre si. Além disso, o registro das informações é feito por um complexo sistema
de significado ou conteúdo (representação psicossemântica-RPS). É como se pudéssemos
entrar em diversos livros de uma biblioteca e utilizarmos o conteúdo deles ao mesmo tempo.
O sistema de leitura da história intrapsíquica é tão complexo, que uma pequena flor, um
estímulo tão simples, pode nos levar ao passado e nos fazer resgatar momentos ricos de nossa
infância que, aparentemente, não têm nada a ver com a anatomia da flor que está diante dos
nossos olhos. Nos computadores, o estímulo da flor nos induziria a resgatar apenas a fauna,
mas na memória humana ela pode nos induzir a resgatar as brincadeiras, os momentos
ingênuos, os passeios singelos e despreocupados. Do mesmo modo, um pequeno gesto de uma
pessoa pode nos levar a ter reações de alegria, apreensão ou ansiedade, pois nos remete à
leitura da memória que resgata conteúdos importantes de nossa
história.
Lembro-me de duas educadoras que tinham reações
fóbicas intensas diante de uma lagartixa. Uma delas tinha reações psicossomáticas dramáticas
diante deste animal, desencadeava crises de vômitos. O problema não era mais a lagartixa,
mas o monstro que ela criou dentro dela, ou seja, a representação ou significado deste animal
que ela criou na sua memória.
O PASSADO NÃO É LEMBRADO, MAS RECONSTRUÍDO
Os
processos
de
construção
da
inteligência
desencadeados pela leitura da história intrapsíquica, principalmente pela memória existencial,
são tão complexos que, ao estudá-los, compreendemos que não existe a "recordação" ou
"lembrança" original das experiências do passado, mas uma interpretação em que
reconstruímos essas
experiências no palco de nossas mentes.
Não nos lembramos das experiências originais do
passado; sempre reconstruímos interpretativamente essas experiências a partir da leitura
multifocal da história intrapsíquica e dos sistemas de variáveis intrapsíquicas do presente
que
atuam
psicodinamicamente
nessas
experiências.
Nunca recordamos nem nos lembramos da essência das
nossas dores emocionais, das nossas angústias