Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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clandestino para com o eu, preparando-a como "rei-eu". Fiquei,
como disse, anos e anos intrigado e me perguntando como o eu lê com extremo acerto, em
frações de segundos e em meio a bilhões de opções, cada RPS que participará das cadeias
psicodinâmicas dos
pensamentos, e como ele organiza essas cadeias. Compreendi que os mordomos da mente
realizam uma refinadíssima educação psicodinâmica do eu, conduzindo-a, paulatinamente, a
ler "inconscientemente" a história intrapsíquica e a resgatar, com incrível acerto, as RPSs que
participarão das matrizes dos pensamentos essenciais históricos.
A medida que esses mordomos ou "mestres-mordomos" lêem a memória e produzem milhares
de pensamentos
diários, o eu aprende a traçar os mesmos caminhos psicodinâmicos e a realizar sua construção
de pensamentos. A atuação dos mordomos da mente no processo de
desenvolvimento do eu é psicodinâmica e psicossocialmente complexa e sofisticada.
Com o decorrer do tempo, o eu se desenvolve e se torna
um "rei-eu" que adquire indescritível liberdade criativa e plasticidade construtiva para
gerenciar os processos de construção dos pensamentos e produzir idéias no tempo que deseja,
na freqüência que deseja e na cadeia psicodinâmica que deseja (conteúdo). O "rei eu" torna-
se, assim, um exímio engenheiro de idéias, um exímio construtor de pensamentos dialéticos e
antidialéticos.
A ATUAÇÃO DOS MORDOMOS DA MENTE NA FORMAÇÃO DA
PERSONALIDADE
Toda a construção de pensamentos é produzida
inconscientemente nos bastidores da mente. Dezenas de milhares de cientistas estão
pesquisando e produzindo uma enormidade de pensamentos dialéticos e antidialéticos, embora
não tenham consciência de que aprenderam com os
fenômenos que estão contidos nos bastidores da inteligência os caminhos psicodinâmicos que
permitem que eles leiam a memória em milésimos de segundos e resgatem, com extrema
fineza, cada RPS que constituirá suas idéias.
O desenvolvimento do "eu", o "rei-eu", deve muito mais aos mordomos da mente do que ao
processo educacional. Se
não houvesse a educação psicodinâmica e psicossocial dos mordomos da mente, poderíamos
colocar as crianças nas melhores escolas e ensiná-las por décadas, mas elas não assimilariam
nenhuma informação, pois não desenvolveriam
a consciência existencial.
Sem a existência dos fenômenos intrapsíquicos, que
constroem as cadeias de pensamentos desde a vida intrauterina, a história da personalidade
não se desenvolveria, o eu não conseguiria aprender os caminhos psicodinâmicos da memória,
não conseguiria ler as RPSs da história
intrapsíquica e construir e administrar as cadeias de pensamentos. Não haveria ciência, livros
e qualquer comunicação consciente.
Fico encantado em observar o ser humano pensando e expressando suas idéias,
independentemente de quem seja. Costumeiramente, contemplo atenta e embevecidamente a
produção intelectual das pessoas que me envolvem e fico impressionado com a sofisticação
da construção das cadeias de pensamentos. Freqüentemente, as pessoas não têm esse tipo de
prazer, de deleite. Elas não conseguem contemplar a produção intelectual humana na
perspectiva de espécie.
A grande maioria dos membros da nossa espécie
desconhece a complexidade e a beleza ímpar dos processos de construção do mundo das
idéias ocorridos em cada ser humano. Os laços genéticos nos acusam como espécie, mas a
falta de contemplação do espetáculo dos pensamentos indica que perdemos historicamente a
perspectiva de espécie.
O espetáculo da construção de pensamentos é
indescritivelmente sofisticado. Em frações de segundos, posso estar em Londres; nos
momentos seguintes, estou em Paris e, segundos depois, estou pensando nas circunstâncias que
vou enfrentar amanhã, ainda que o amanhã não exista essencialmente; momentos depois, me
transporto para a minha infância, ainda que a recordação seja uma
interpretação da história. Porém, não sabemos "onde",
"quando" e "como" tivemos um sofisticado aprendizado
"psicodinâmico e psicossocial" que nos habilitou a sermos engenheiros de idéias.
Na realidade, o "rei-eu" começa sua faculdade psicodinâmica e psicossocial no campo de
energia psíquica desde a aurora da vida fetal, cujos mestres foram os mordomos inconscientes
que lêem inevitavelmente a história intrapsíquica e promovem os processos de construção dos
pensamentos. Por isso, como afirmei, há nos bastidores da mente um mundo a ser descoberto,
cujas raízes ocultas, mais íntimas, nos alimentam como seres pensantes, como seres que têm
consciência existencial.
Assim como enumerei mais de três dezenas de pontos teóricos relativos aos processos de
construção dos
pensamentos que precisariam do espaço de outros livros para serem abordados, o assunto
relativo aos três mordomos da mente, que estudaremos nos próximos textos, também é
muito extenso; por isso, neste livro, farei apenas uma síntese deles. Há diversas
conseqüências psicológicas, filosóficas, sociológicas e educacionais que podem ser derivadas
desses textos.
CAPÍTULO 5
O FENÔMENO DA AUTOCHECAGEM: O GATILHO
DA MEMÓRIA
O FENÔMENO DA AUTOCHECAGEM DA MEMÓRIA E A
HISTÓRIA INTRAPSÍQUICA
O fenômeno da autochecagem é o fenômeno que lê
automaticamente a memória. É o primeiro fenômeno que atua na inteligência. Diante de um
estímulo qualquer, seja um pensamento ou um estímulo físico, ele é acionado e em milésimos
de segundos lê a memória, assimila seu conteúdo e, conseqüentemente, produz as primeiras
reações no cerne da inteligência. Como temos contato com centenas de milhares de estímulos
por dia, o fenômeno da autochecagem é acionado também centenas de milhares de vezes.
Cada vez que vemos um estímulo e o identificamos
automaticamente como uma poltrona, uma mesa, um
pássaro, uma pessoa, temos que ter consciência que essa identificação automática não foi
produzida de maneira mágica e nem muito menos pelo desejo do eu em produzir esta
identificação, mas pela ação deste fenômeno.
Possuir uma história intrapsíquica, onde são arquivadas
as experiências existenciais, é um privilégio da espécie humana. O registro da história
intrapsíquica na memória é
involuntário e automático, produzido, como disse, por um fenômeno que chamo de fenômeno
RAM \u2014 registro automático da memória. Do mesmo modo, a leitura da memória diante de um
estímulo também não é opcional, mas
inevitável. Entre os fenômenos que lêem inevitavelmente a memória, encontra-se o fenômeno
da autochecagem da
memória. O fenômeno da autochecagem inicia as primeiras leituras da memória, por isso ele
também pode ser chamado de fenômeno do gatilho da memória.
A reação frente a um objeto fóbico não é produzida pelo
eu, mas pelo fenômeno do gatilho da memória. Do mesmo modo grande parte dos movimentos
musculares, inclusive aqueles que meneiam a cabeça, concordando ou discordando
das palavras que ouvimos, são freqüentemente produzidos pelo gatilho da memória, ou seja,
são autochecados nos arquivos da memória e produzidos espontaneamente sem a autorização
do eu. As reações impulsivas também são produzidas por este fenômeno. Toda vez que
reagimos sem pensar somos dirigidos não pelo eu, mas pela autochecagem espontânea e
automática da memória.
O eu pode administrar seletivamente determinadas
leituras da memória, mas grande parte dessa leitura é
realizada involuntariamente. Quando essa leitura é
produzida pelos "mordomos da mente", o eu tem grande dificuldade e, às vezes, até a
impossibilidade de administrála. Ao contemplar auditiva ou visualmente uma palavra
pertinente a uma "língua" que dominamos, a definição da palavra torna-se um processo
automático e inevitável, pois foi checada automaticamente na memória. Ao contemplarmos
uma criança, um veículo, uma residência, a cor das roupas, um barco pintado num quadro,
enfim, qualquer estímulo extrapsíquico que tem RPSs (diretivas e associativas) na nossa
história
intrapsíquica,