Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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comemorativa de
formatura, eles se soltam emocionalmente, brincam, contam piadas, elevam o tom da voz,
dialogam sem policiamento. Nesses ambientes e circunstâncias psicossociais, os
estímulos extrapsíquicos (comportamentos dos colegas da faculdade) e intrapsíquicos (resgate
de experiências dos tempos de faculdade) deslocam a âncora da memória para determinadas
"regiões" da memória que, por sua vez, direcionam a leitura da história intrapsíquica e,
conseqüentemente, produzem matrizes de pensamentos
essenciais históricos que gerarão emoções, pensamentos dialéticos e antidialéticos mais
tranqüilos, prazerosos, livres, socialmente despreocupados.
Os deslocamentos da âncora da memória direcionam a qualidade das idéias e reações
emocionais que produzimos num determinado momento da existência. Parece que somos
livres para pensar o que quisermos em cada momento de nossas vidas. Porém, esta é uma
verdade parcial. A âncora da memória dirige mais do que imaginamos a qualidade de nossas
idéias, e emoções.
Uma pessoa que sofre um ataque de pânico, ainda que possa ser sóbria e extremamente
coerente na grande maioria de suas atividades socio-profissionais, aciona o gatilho da
autochecagem que desloca a âncora para determinadas regiões da memória, restringindo o seu
território de leitura. A partir desse território, se produz uma leitura da história intrapsíquica
que, por sua vez, gerarão emoções
intensamente ansiosas e pensamentos qualitativamente
mórbidos que, canalizados para o córtex cerebral, gerarão uma série de sintomas
psicossomáticos. Os mecanismos de produção da síndrome do pânico à luz da construção
multifocal de pensamentos são muito mais complexos do que a hipótese dos
neurotransmissores na gênese dessa
síndrome.
O deslocamento da âncora da memória nos ataques de pânico é rápido e dramático, gerando
no paciente uma construção de idéias de que vai morrer ou desmaiar, e uma reação fóbica tão
angustiante que as idéias do médico dizendo que ele não tem nada de grave não o conforta.
Há pessoas que, fora do ambiente familiar, são
sorridentes, solícitas, pacientes e sóbrias (um "anjo social"); porém, quando entram dentro de
suas casas, se transformam em "carrascos da família", pessoas agressivas, violentas, ansiosas,
que dificilmente relaxam e sorriem. Alguns diriam que essa pessoa tem dupla personalidade.
Porém, o termo dupla personalidade é dialeticamente pobre e cientificamente inverificável.
Há apenas uma personalidade porque há
apenas uma mente, apenas um campo de energia psíquica. O
que transformou os "anjos sociais" em "carrascos da família" foi o deslocamento da âncora da
memória pelos estímulos extrapsíquicos. Nesse caso, se uma pessoa não expandir a âncora da
memória, ela pode se tornar um escravo dos deslocamentos destrutivos que, às vezes, ela gera.
Há milhões de pessoas que cuidam com paciência e
dedicação de seus pequenos cachorros. Esses pequenos animais não reclamam, não criticam,
pouco expressam suas
emoções e, por isso, pouco exigem de seus donos e deslocam pouco suas âncoras da memória,
apesar de diversos deles se ligarem muito afetivamente aos donos. Em muitas
metrópoles, como em Paris, é fácil observar essa relação homem-animal. Porém, cuidar dos
filhos e educá-los é
totalmente diferente, pois eles têm necessidades complexas, exigências complexas, expressam
suas emoções e críticas que deslocam freqüentemente e com muita intensidade a âncora da
memória dos pais. Por isso, os pais têm uma construção de pensamentos e um processo de
transformação da energia
emocional que é muito flutuante, alternados entre o prazer e o aborrecimento, entre a paciência
e a irritabilidade etc. Os pais devem aprender a administrar o deslocamento de suas âncoras
da memória na educação dos filhos. Catalisar a revolução das idéias dos filhos e levá-los
também a administrar os deslocamentos de suas âncoras da
memória, para promover uma construção de pensamentos que promova o desenvolvimento do
humanismo, da
cidadania, da capacidade crítica de pensar, da capacidade de contemplação do belo diante
dos pequenos eventos da vida, da capacidade de superar as dores e perdas, é uma das mais
importantes tarefas que os pais e professores devem realizar no processo socioeducacional.
Os estímulos intrapsíquicos (pensamentos, idéias,
análises, reações fóbicas, ansiedade, etc), os estímulos extrapsíquicos (ambientes sociais,
comportamentos das pessoas, elogios, ofensas, situações de discriminação, cobrança
socioprofissional, provas escolares etc.) e os estímulos
intraorgânicos
(substâncias
produzidas
adequadamente ou inadequadamente no metabolismo
neuroendócrino, dores físicas, medicamentos psicotrópicos, cocaína, heroína, álcool etílico
etc.) deslocam constantemente a âncora da memória, influenciando decisivamente na
qualidade do processo de interpretação e, conseqüentemente, na qualidade da produção dos
pensamentos dialéticos e antidialéticos e na qualidade das experiências emocionais e
motivacionais que temos em cada momento existencial.
A LIBERDADE DE PENSAMENTO E SUA RELAÇÃO COM A
ÂNCORA DA MEMÓRIA
Podemos ficar chocados ao constatar, diante dessa
exposição, que a liberdade de pensamento tão sonhada na história humana, tão almejada na
Filosofia, tão procurada pelos direitos humanos, não é tão fácil de ser alcançada, mesmo em
condições sociais adequadas. A liberdade plena de pensamento nem sempre é conquistada
pelo eu, mas dirigida inconscientemente pelos deslocamentos da âncora da
memória, que restringe o território de leitura da memória. Quando produzimos pensamentos,
nós nem sempre
temos uma livre escolha das informações, nem sempre temos a livre escolha das idéias,
devido à restrição da
"disponibilidade histórica" imposta pela âncora da memória. Grande parte dos pensamentos
gerenciada e produzida pelo eu não foi, na realidade, gerenciada e produzida com plena
liberdade de escolha, mas dentro dos limites da âncora da memória. Por isso, é necessário
aprender a conquistar na ciência, bem como na vida cotidiana, o máximo de liberdade
possível no processo de construção de pensamentos.
Na relação psicoterapeuta-paciente, pai-filho, professoraluno, pesquisador-teoria-fenômeno,
como disse, se não aprendermos a reciclar criticamente a história intrapsíquica,
principalmente os deslocamentos da âncora da memória, podemos nos contaminar
excessivamente com a história intrapsíquica.
Muitas vezes achamos que somos livres na produção
das idéias, mas somos prisioneiros da âncora da memória. A âncora da memória é um
fenômeno fundamental na
construção dos pensamentos e na produção das reações emocionais; porém, devemos aprender
a gerenciá-la, reciclá-la criticamente e deslocá-la com liberdade, principalmente quando a
âncora se alojar em áreas da memória que promovem uma construção de pensamentos rígida,
fechada, autoritária.
Todos os estímulos que geram tensões emocionais e
prazeres intensos deslocam a âncora da memória e,
conseqüentemente, contraem a liberdade da produção de pensamentos. Uma pessoa
excessivamente alegre, num
determinado momento, também pode ser excessivamente
tolerante e excessivamente permissiva. Uma pessoa muito tensa, num determinado momento,
pode ser muito
intolerante, rígida e agressiva.
Quando alguém nos ofende, os estímulos extrapsíquicos
ligados ao conteúdo da ofensa, à pessoa do ofensor e ao ambiente em que ele expressou a
ofensa (ambiente público ou particular) deslocam a âncora para determinadas regiões da
memória, restringindo a "disponibilidade histórica" das RPSs, que, por sua vez, produzirá uma
construção de pensamentos com liberdade reduzida. Por isso, passado o momento de tensão,
nós achamos que deveríamos ter tido outro tipo de reação diante daquela circunstância.
Todo e qualquer estímulo extrapsíquico e intrapsíquico, que aciona o fenômeno da
autochecagem da memória e produz