Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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conscientes e ter consciência de que pode administrá-los? Se
os processos de construção dos
pensamentos fossem produzidos apenas pelo "eu", e não também pelos fenômenos que estão
nos bastidores da mente, esse
período
fundamental
do
desenvolvimento
da
personalidade não ocorreria. Assim, todas as etapas do processo de formação da
personalidade não ocorreriam, pois o eu jamais atingiria por si próprio o mínimo de
maturidade para se auto-organizar, produzir pensamentos conscientes e administrá-los.
Muitos adultos, incluindo muitas pessoas idosas, nem chegam a desenvolver a maturidade de
gerenciamento do eu, a maturidade intelecto-emocional; por isso, dificilmente intervém com
consciência crítica na sua produção
clandestina de pensamentos, raramente revisam suas idéias e padrões de comportamentos e,
assim, freqüentemente trabalham mal suas dores, perdas e contrariedades. Essas pessoas,
como todo ser humano, têm na rica produção de pensamentos sua maior fonte de
entretenimento; porém, como não amadurecem o gerenciamento do "eu" eles transformam esta
fonte numa fonte de ansiedade. Por não conseguir gerenciar minimamente sua produção de
pensamentos, elas se angustiam muito quando essa
produção é constituída de pensamentos de conteúdo
negativo, angustiante, antecipatório. A gênese de muitas doenças psíquicas está neste
processo.
A CONSTRUÇÃO DE PENSAMENTOS GERA UMA
INTELIGÊNCIA MULTIFOCAL DIFÍCIL DE SER GERENCIADA
O eu é o fenômeno que expressa a vontade consciente do
homem. Sem esta, o homem é um ser que vaga
irracionalmente como os demais seres da natureza. Se fôssemos capazes de destruir o eu,
estaríamos encerrados na mais terrível solidão, existiríamos sem ter consciência de que
existimos. As psicoses esquizofrênicas comprometem a estrutura e a lógica do eu, por isso
elas são graves. Todavia, quando ajudamos os pacientes em surto psicótico a
desacelerar seus pensamentos, eles organizam o processo de leitura da memória, constroem
pensamentos dentro dos parâmetros da realidade e rompem com seus delírios e alucinações.
Desacelerar o fluxo dos pensamentos e alargar os territórios de leitura da memória (âncora) é
fundamental para que o eu possa administrar a produção dos
pensamentos com lógica.
Os medicamentos antipsicóticos não atuam diretamente
nas psicoses, como pensa a grande maioria dos psiquiatras. Eles não fazem nenhum milagre na
reorganização da
inteligência, apenas provocam uma tranqüilidade artificial, química, que diminui o ritmo de
produção dos pensamentos, propiciando condições para uma leitura organizada e multifocal
da memória, tanto do eu como do fenômeno do autofluxo.
O eu deveria administrar a leitura e a disponibilidade das informações produzidas pela âncora
da memória. Assim, conseqüentemente,
ele
revisaria
os
paradigmas
socioculturais, os estereótipos sociais, as reações ansiosas, as reações fóbicas, o raciocínio
analítico superficial, as influências genéticas do humor. Porém, o eu jamais consegue exercer
plenamente esse gerenciamento, pois a inteligência não é unifocal, mas possui fenômenos
difíceis de controlar. É particularmente complexo e difícil o gerenciamento do
eu nos deslocamentos da âncora da memória e na construção de pensamentos produzida pelo
fenômeno da autochecagem da memória e pelo fenômeno do autofluxo. Esse
gerenciamento se torna difícil também devido ao fato de a psique ser um campo de energia
psíquica que se encontra num fluxo vital contínuo. O gerenciamento do eu tem limitações, mas,
como estudaremos, essas limitações não só
geram transtornos psicossociais, mas também grande
proteção intelectual.
Eu me lembro que, quando cursava a faculdade de
Medicina, um professor, que era psiquiatra e psicanalista, fez um comentário sincero na sala
de aula, dizendo que não entendia por que a mente humana era um campo de batalha,
por que havia pensamentos que ele, o professor, controlava e outros que escapavam do seu
controle. Ele também disse que percebia esse tumulto intelectual até no comportamento das
crianças. Esse conflito intelectual, que acompanha a trajetória de todo ser humano, é devido
ao fato de a construção de pensamentos ser multifocal.
Gerenciar a inteligência é um trabalho intelectual
complexo e difícil, pois grande parte dos pensamentos é
produzida sem a determinação e a elaboração do eu. Todos podemos afirmar que é impossível
submeter totalmente o mundo dos pensamentos ao nosso controle consciente. Porém, se a
inteligência não contasse com os três mordomos da mente nas quatro primeiras etapas da
interpretação, o eu, que é o grande gerenciador da inteligência, não chegaria a se formar.
O processo socioeducacional, produzido pelos pais e professores, é apenas um ator
coadjuvante da complexa e sofisticada tarefa de produzir pensamentos. É claro que, quanto
mais eficiente e profundo for o processo
socioeducacional, quanto mais levar em consideração o desenvolvimento da inteligência e o
processo de
interiorização, mais chances tem o homem de expandir e aprimorar sua racionalidade, sua
produção de pensamentos. Produzimos diariamente, no silêncio da psique, milhares
de pensamentos, tanto de cadeias simples quanto de cadeias complexas, que nunca chegam a
ser verbalizados nem expressos. Uma parte significativa desses pensamentos é
produzida pelos três mordomos intrapsíquicos. Na infância, os mordomos intrapsíquicos
ensinaram em silêncio o eu a penetrar nos meandros da memória e utilizar as informações para
construir cadeias de pensamentos. Nos adultos, eles continuam ativos, porém perderam essa
função intraeducacional. Nos adultos, sua função é produzir a mais importante fonte de
entretenimento humano. Porém,
dependendo da qualidade dos pensamentos, essa fonte se torna uma fonte de terror. Esse é o
caso dos pacientes portadores de obsessão, depressão, síndrome do pânico e fobias.
O GERENCIAMENTO DOS PENSAMENTOS DIALÉTICOS: A
NECESSIDADE DE EXPANDIR A LIDERANÇA DO EU
Administrar a construção dos pensamentos, a
transformação da energia emocional e a formação da memória não quer dizer ter pleno
domínio sobre esses processos ou sobre as variáveis que os produzem. Mas significa realizar
um gerenciamento com consciência crítica e maturidade, embora tendo limites.
Na ciência, gerenciar a inteligência é, antes de tudo, vivenciar a arte da dúvida e da crítica no
processo de observação dos fenômenos psíquicos; é aprender a ter uma postura aberta, crítica
e reciclável do processo de interpretação; é aprender a se "esvaziar", tanto quanto possível,
das contaminações decorrentes da história intrapsíquica; é
ter consciência da construção dos pensamentos, da
consciência existencial, da história intrapsíquica e da transformação
da
energia
emocional,
e
aprimorar
qualitativamente essa construção, através de exercícios de um domínio administrativo
"parcial" das variáveis que dela participam. Porém, nós jamais atingiremos o pleno controle
de nossa mente, seja na pesquisa científica, seja no processo existencial diário.
Nenhum ser humano, seja ele um intelectual, um líder religioso, um filósofo ou um
psicoterapeuta, consegue ter total domínio do funcionamento da mente. Na realidade, em
grande parte do processo existencial diário somos
controlados pelo mundo das idéias que são produzidas no cerne da alma.
Não podemos nos esquecer que o eu é formado dentro do campo de energia psíquica, é fruto
desse campo de energia, uma parte dele, embora, ao usarmos coloquialmente a palavra "eu",
estejamos querendo identificar a totalidade da psique. O eu não é a totalidade da psique; mas,
pelo fato de ser a totalidade da consciência da psique, ele assume para si toda a identidade da
psique e de tudo o que nela é produzido. O eu não deveria assumir as idéias de conteúdo
negativo que não foram autorizadas por ele, mas, por não termos consciência da produção
dessas