Cury   Inteligencia Multifocal
405 pág.

Cury Inteligencia Multifocal


DisciplinaPsicologia63.819 materiais447.659 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de vida.
8. Levá-los a resgatar a liderança do eu nos focos de tensão.
9. Levá-los a expandir o território de leitura da memória (âncora da memória).
10. Conduzi-los a gerenciar a construção dos
pensamentos e a transformação da energia emocional
produzidos pelo fenômeno do autofluxo e pelo gatilho da memória.
Como comentei, a terapia multifocal não conflita ou anula as demais correntes
psicoterapêuticas, ao contrário, explica-as e complementa-as, pois estuda e trabalha com os
fenômenos universais que estão presentes na base do funcionamento da mente e da construção
de pensamentos.
AS DIFICULDADES DO GERENCIAMENTO DO EU
Vamos continuar a investigar com mais detalhes os
entraves da atuação do homem no seu próprio mundo e compreender por que os procedimentos
psicoterapêuticos, sejam eles quais forem, possuem limitações significativas. O eu usa mais os
pensamentos dialéticos e
antidialéticos, que são de natureza virtual, para gerenciar a inteligência do que os pensamentos
essenciais, que são de natureza real. Não podemos nos esquecer que são os pensamentos
dialéticos que formam a consciência humana. Precisamos compreender as limitações do eu
para entender as suas potencialidades.
Como o que é virtual pode atuar no que é real? Como a
consciência virtual pode atuar na realidade essencial intrínseca dos processos de construção
da inteligência, por exemplo, do processo de transformação da energia
emocional? Como os pensamentos dialéticos e antidialéticos podem transformar as emoções?
Essas perguntas são
importantíssimas.
Os pensamentos conscientes (dialéticos e antidialéticos) têm "em si mesmos" uma dificuldade
intransponível de materializar intrapsiquicamente sua intencionalidade. Na realidade, os
pensamentos conscientes, ao contrário do que pensamos, não atuam por si mesmos na essência
da energia
psíquica; eles apenas criam um "ambiente consciente", um
"ambiente dialeticamente e antidialeticamente iluminador", para que o eu administre
"inconscientemente" o processo de leitura da história intrapsíquica e as matrizes de
pensamentos essenciais inconscientes. Esse mecanismo é
um dos mais complexos e importantes da inteligência humana.
É paradoxal e difícil de se entender, mas usamos os pensamentos dialéticos, que são
conscientes e virtuais, para administrar
os
pensamentos
essenciais,
que
são
inconscientes e essenciais, e que estão na base da construção dos próprios pensamentos
dialéticos. Quando entro numa sala e realizo algumas tarefas, a luz do ambiente me permite
locomover-me e realizar essas tarefas. A luz não foi a responsável pela realização das tarefas,
mas criou um ambiente propício para que elas fossem realizadas. Esse exemplo, embora
deficiente, pode demonstrar o trabalho do eu. Os pensamentos dialéticos e antidialéticos,
embora não se materializem na realização das tarefas psicodinâmicas, criam um ambiente
consciente para que o eu leia a memória e realize suas tarefas psicodinâmicas inconscientes.
A "dificuldade intransponível" da materialização intrapsíquica dos pensamentos dialéticos faz
com que o eu não exerça uma grande liderança administrativa sobre os processos de
construção do mundo intrapsíquico, como exerce sobre os processos de construção do mundo
extrapsíquico. Quem se "materializa" psicodinamicamente não são os pensamentos
conscientes, mas os pensamentos essenciais inconscientes.
Os pensamentos essenciais se materializam e atuam
psicodinamicamente com mais eficiência no córtex cerebral e, conseqüentemente, no sistema
motor, do que no próprio campo de energia psíquica. Podemos coordenar cada
movimento muscular, que tem milhões de detalhes
metabólicos, por causa da eficiente materialização das matrizes dos pensamentos essenciais
no córtex cerebral, mas não temos a mesma eficiência para materializar os
pensamentos essenciais a fim de administrar nossas emoções e modificar nossa angústia,
nossa dor, nossa ansiedade etc. O resultado é que o homem sempre foi um grande líder do
mundo extrapsíquico, mas nunca o foi do mundo
intrapsíquico.
O eu não consegue determinar que o processo de
transformação da energia emocional, bem como os outros processos de construção da
inteligência, submeta-se
diretamente à sua liderança. Se houvesse uma liderança plena sobre o processo de
transformação da energia emocional, os problemas concernentes ao sofrimento
psíquico (angústias, humor deprimido, tensão, desespero, solidão, farmacodependência etc.) e
psicossocial (sofrimento decorrente de discriminação, perda, ofensa pública, exclusão social
etc.) estariam resolvidos, pois todo ser humano conseguiria viver num oásis de prazer, em
detrimento de suas misérias extrapsíquicas.
O eu também não é muito eficiente ao atuar na história
intrapsíquica,
arquivada
na
memória.
A
história
intrapsíquica guarda os segredos inconscientes e conscientes do processo existencial. A
impotência em gerenciar o registro e a leitura automática da história intrapsíquica traz
importante proteção contra a destruição socioeducacional e a autodestruição da história
intrapsíquica.
O eu não pode apagar nem destruir as RPSs registradas
na memória. No máximo, e esse é o seu papel fundamental no gerenciamento da história
intrapsíquica, ele poderá
reciclar criticamente essas RPSs, produzindo idéias críticas sobre o processo de interpretação
e uma análise dos estímulos que geraram essas RPSs. O gerenciamento das RPSs iniciais
redundarão em novas RPSs, que alterarão, por sua vez, a qualidade da história intrapsíquica
que, lida pelos fenômenos que fazem a leitura da mesma, gerará novas cadeias psicodinâmicas
das matrizes de pensamentos essenciais, novas transformações da energia emocional e novas
cadeias psicodinâmicas virtuais dos pensamentos dialéticos e antidialéticos. Embora não seja
oportuno neste livro, há
muito o que dizer sobre esse assunto, pois podemos extrair dele importante conhecimento
psicológico e filosófico.
O homem que é senhor do mundo em que ele está, é
pouco senhor do mundo que é ele. Se fôssemos senhores do
mundo que somos, certamente faríamos uma grande faxina intelectual em nossa mente; até
mesmo os psicopatas fariam isso. Quantos pensamentos, idéias, recordações, fantasias,
angústias, humores deprimidos, sentimentos de solidão, etc. não iríamos querer deixar de
produzir; mas eles são produzidos independentemente da determinação do "eu". A revolução
das idéias independe do eu; ela é financiada, principalmente, pelo fenômeno do autofluxo e
pela âncora da memória. Quantos de nós não gostaríamos de deixar de sofrer por antecipar
situações futuras ou ruminar situações passadas ou, ainda, produzir pensamentos sobre o que
os outros pensam e falam de nós, sobre problemas sociais e profissionais; mas,
freqüentemente, nos sentimos incapazes de controlar plenamente o universo psíquico.
Temos que começar a revisar os paradigmas intelectuais
contidos nas teorias da personalidade e compreender que a inteligência não é unifocal e
unidirecional, mas multívariável; que a construção de pensamentos se dá através de diversos
fenômenos e que está sujeita a riquíssimos processos de cointerferências das variáveis, que
são difíceis de serem administrados. O nosso gerenciamento da capacidade de pensar é micro
ou macrodistinto a cada momento da existência.
Temos que usar procedimentos de investigação, tais
como os derivados da busca do caos intelectual, para investigar e compreender a leitura e
construtividade dos pensamentos. Não adianta usar jargões psicológicos
simplistas para explicar o porquê de o homem não ter pleno controle sobre a produção de
pensamentos. É superficial e genérico dizer que isso se deve ao fato de ele sofrer de neuroses,
de conflitos psíquicos, de transtornos obsessivocompulsivos, de stress. Os diagnósticos na
psiquiatria podem ser úteis para traçar
algumas
"avenidas"
farmacoterapêuticas