Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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e
psicoterapêuticas, mas também podem funcionar como
"véus" que cobrem nossa inteligência, nossa dificuldade de compreender os segredos da mente
humana. Como eu já
disse, mesmo que houvesse um homem dotado da mais plena
sanidade intelectual, ele não exerceria pleno controle sobre sua mente, sobre a construção dos
seus pensamentos, sobre a transformação da sua energia emocional.
Se não compreendermos, ainda que parcialmente, o
complexo processo de construção de pensamentos e da formação da consciência existencial,
não chegaremos a entender nem mesmo como ocorrem o autoritarismo das idéias e a ditadura
dos discursos teóricos que controlam não só os ditadores políticos, as pessoas
preconceituosas, as pessoas que respiram discriminação, mas também nossa própria atitude
anti-humanística nas relações interpessoais. Quando abordo as limitações do eu, não estou
dizendo que ele não seja responsável pelas atitudes antihumanísticas, destrutivas,
autodestrutivas. Se ele consegue estabelecer, ainda que parcialmente, os parâmetros da
realidade extrapsíquica e intrapsíquica, ele se torna responsável pelos atos humanos, pois
toma consciência da construção de pensamentos iniciada pelo fenômeno da autochecagem da
memória ou pelo fenômeno do autofluxo. Nesse caso, ele adquire condições para gerenciar os
processos de construção de pensamentos e o comportamento
humano.
O comportamento humano, que é a manifestação dos
pensamentos, é mais fácil de ser controlado do que os próprios pensamentos. Com respeito ao
gerenciamento dos pensamentos, o mais importante não é querer fazer uma faxina intelectual
pura e completa, ou seja, querer eliminar todos os pensamentos débeis que temos, mas ter
consciência crítica deles, reciclá-los, desorganizá-los e descaracterizá-los intelectualmente.
É mais fácil o homem explorar o espaço físico do universo do que seguir a trajetória do seu
próprio ser. Por isso, o humanismo, a cidadania, a democracia das idéias, a análise multifocal,
a arte da contemplação do belo etc, embora sejam funções intelectuais nobres da inteligência,
não são fáceis de ser conquistados, a não ser, como tenho dito, através de um processo
educacional interiorizante, que estimula o homem a pensar, a desenvolver a consciência
crítica, a expandir o mundo das idéias, a se tornar um pensador humanista.
Não podemos compreender a violação histórica dos
direitos humanos e, conseqüentemente, produzir "vacinas" psicossociais
humanísticas,
se
não
levarmos
em
consideração a construção dos pensamentos e os limites do
"gerenciamento do eu". Porém, nas sociedades modernas essas "vacinas" são uma utopia, pois,
até o momento, temos vivido um intrigante paradoxo intelectual, expresso por explorarmos e
conhecermos intensamente o imenso espaço e
o pequeno átomo e, ao mesmo tempo, explorarmos e
conhecermos pouco o nosso próprio mundo intrapsíquico, o nascedouro das idéias, as origens
de nossa inteligência.
GERENCIANDO A INTELIGÊNCIA A PARTIR DA QUINTA
ETAPA DE INTERPRETAÇÃO
O eu não tem o poder de controlar as quatro primeiras etapas da interpretação e a atuação do
fenômeno da psicoadaptação que ocorrem antes da sua formação e envolvem a leitura da
história intrapsíquica pelo fenômeno da autochecagem da memória e pelo fenômeno do
autofluxo (primeira etapa), a formação das matrizes dos pensamentos essenciais
históricos
(segunda
etapa),
a
atuação
psicodinâmica dessas matrizes no campo de energia
emocional e motivacional (terceira etapa) e o processo de leitura virtual que essas matrizes
sofrem para gerar os pensamentos dialéticos e antidialéticos (quarta etapa). O eu é
formado na quinta etapa da interpretação, logo após a formação dos pensamentos dialéticos e
antidialéticos, como estudaremos com detalhes no próximo capítulo.
Os processos espontâneos de construção dos
pensamentos dialéticos e antidialéticos, financiados pelos três "mordomos" intrapsíquicos,
dão-nos a impressão de que o eu se desenvolve continuamente no estado de vigília. Na
realidade, a âncora da memória produz um grupo de informações instantâneas, que fornece
subsídios para financiar um quadro básico da consciência de nossas identidades num
determinado momento existencial.
Quando estamos num determinado ambiente, numa
escola, numa empresa, num ambiente freqüentado por
pessoas estranhas ou por pessoas de nossa intimidade, a âncora da memória se desloca na
memória financiando um grupo de informações que nos identificam e identificam o ambiente.
Assim, ainda que não fiquemos preocupados em controlar o tipo de respostas e reações que
devemos ter em determinado ambiente, mudamos o nosso comportamento
espontaneamente, devido ao deslocamento da âncora da memória e, conseqüentemente, do
grupo de informações que
financiam a "consciência instantânea". Assim, a "consciência instantânea" é um acessório
valioso do "eu". Apesar de a "consciência instantânea" ser um acessório fundamental do eu,
paradoxalmente ela não é produzida nem administrada pelo próprio eu, pelo menos no
primeiro momento, mas pelo deslocamento da âncora da memória propiciado pelo fenômeno
da autochecagem ou do gatilho da memória. Ficamos inibidos num ambiente público, mas
somos espontâneos num ambiente familiar; somos
brincalhões entre amigos e sérios nas reuniões de trabalho. Essas mudanças de postura
intelectual nem sempre ocorrem
porque programamos nossa inteligência, mas devido a uma construção espontânea de cadeias
de pensamentos dialéticos e antidialéticos que financiam a consciência instantânea. Só
quando temos uma sensação de "vazio intelectual", de
"ausência de memória", devido a uma situação estressante ou ao uso de substâncias
psicotrópicas, é que sofremos um deslocamento brusco da âncora da memória, o que nos causa
uma perda da consciência instantânea de quem somos, de onde estamos, do que fazemos no
ambiente em que nos encontramos.
O deslocamento brusco da âncora da memória tira-nos da órbita da consciência instantânea,
desorganiza a nossa identidade, comprometendo, assim, todo o processo de interpretação num
determinado momento existencial.
Reitero: o eu não tem, portanto, o poder de gerenciar os
processos de construção da inteligência gerados nas quatro primeiras etapas da interpretação.
Porém, depois que é
formado na quinta etapa, através da produção dos
pensamentos dialéticos e antidialéticos, ele adquire condições para intervir nos fenômenos da
inteligência, inclusive na consciência instantânea gerada pelo gatilho da memória e nos
conseqüentes deslocamentos da âncora da memória. Esses mecanismos estão entre os
segredos mais importantes da inteligência humana.
A liberdade criativa e a plasticidade construtiva dos pensamentos, gerenciadas pelo "eu", são
sofisticadas e importantíssimas e têm de ser conquistadas individualmente nos territórios
sinuosos da própria psique. Muitos são exteriormente livres nas democracias políticas, mas
são intrinsecamente prisioneiros dentro de si mesmos. Muitos têm sucesso social, econômico e
profissional, mas não têm sucesso em desenvolver as funções mais nobres da
inteligência, em expandir o mundo das idéias, em trabalhar seus focos de tensão, em
administrar sua ansiedade, seu stress, suas frustrações.
A seguir, será apresentado um quadro didático sobre a construção de pensamentos e o
gerenciamento do eu.
GRÁFICO 3 GERENCIAMENTO DO "EU" (SELF-CONTROL) Administração dos
processos de construção da inteligência
CAPÍTULO 9
A COMUNICAÇÃO SOCIAL MEDIADA, AS ETAPAS
DO PROCESSO DE INTERPRETAÇÃO E O
FENÔMENO DA PSICOADAPTAÇÃO
A COMUNICAÇÃO SOCIAL MEDIADA E A RECONSTRUÇÃO
DO "OUTRO" PELO PROCESSO DE INTERPRETAÇÃO
Não comunicamos a essência do que pensamos e
sentimos e nem incorporamos as emoções das pessoas que nos circundam. Vivemos ilhados
nas sociedades, ainda que nos consideremos seres sociais. Quando a energia psíquica