Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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Parecia que eu
estava numa sinuosa e estimulante aventura. Só sabia que não conseguia conter a revolução
das idéias que se operava dentro de mim. Por isso, quanto mais falava a ela, mais a deixava
confusa.
Ela considerava tudo aquilo estranho, pois ia se casar com um médico e sabia que um médico
deveria estudar doenças neurológicas, psiquiátricas, psicossomáticas etc, mas nunca tinha
ouvido falar que um médico tivesse preocupação em pesquisar os mistérios do funcionamento
da mente humana. Não entendia que o meu objetivo principal não era exercer a Psiquiatria e a
Psicoterapia, mas ser um
"filósofo da Psicologia", um teórico, um produtor de ciência. Ela entendia menos ainda e se
sentia insegura quando eu lhe dizia que estava sendo um crítico de diversas convenções do
conhecimento na Psicologia, que minha produção de
conhecimento era original e que demoraria muito tempo para que ela fosse absorvida nos
centros de pesquisas.
Ela pensava que eu estava vivendo uma "febre" científica e acreditava que essa febre seria
passageira. Por fim, felizmente, ela se casou comigo. Passados mais de 17 anos, desde quando
iniciei minha trajetória de pesquisa
ESTIMULANDO A PESQUISA: OS FATORES PSICOSSOCIAIS E
A DOR DA DEPRESSÃO
A sede de conhecimento e o desejo de "respirar" a pesquisa científica não foram estimulados
pelos meus professores de Psicologia, Psiquiatria e Sociologia na faculdade de Medicina,
nem por qualquer pessoa com quem convivi.
O embrião dessa sede surgiu, talvez, por viver num país
com imensas desigualdades sociais, mas que, ao mesmo tempo, possui um rico caldeirão de
raças, de cultura e de afetividade e por ser filho de imigrantes de origem multirracial, árabe,
espanhol e ítalo-judia. Há dúvida quanto à minha origem ítalo-judia, pois há possibilidade de
que meus antepassados tenham sido judeus que fugiram para a Itália e da Itália migraram para
o Brasil.
Meu desejo ardente de pesquisar e de conhecer a mente
humana também surgiu por ter vivido uma infância rica afetivamente e próxima
interpessoalmente, pois dormíamos em oito pessoas, meus pais e seis filhos, num pequeno
quarto de não mais do que 15 metros quadrados. Apesar de
esses fatores psicossociais terem sido o embrião do meu processo de interiorização, creio que
o fator mais importante que impulsionou minha trajetória de pesquisa foi uma crise de
depressão por que passei. Há mais de dezessete anos, vivi silenciosamente, por cerca de dois
meses, um intenso inverno emocional, a dor indescritível da depressão. A tentativa
desesperadora de superar esse intenso inverno emocional me estimulou a me interiorizar.
O humor deprimido, a ansiedade, a perda de energia biopsíquica, a insônia, a perda do sentido
existencial, os pensamentos de conteúdo negativo, os pensamentos
antecipatórios, associados a outros sintomas tornaram-se o cenário da minha depressão. Não
vou entrar em detalhes sobre este período existencial nem sobre as causas da minha
depressão, pois não é esse o objetivo deste livro. Porém, quero dizer que minha crise
depressiva se tornou uma das mais belas e importantes ferramentas para me interiorizar e me
estimular a procurar as origens dos meus pensamentos de conteúdo negativo e as origens da
transformação da minha energia emocional depressiva.
Em síntese, a dor da depressão, que considero o último
estágio da dor humana, me conduziu a ser um pensador da
Psicologia e da Filosofia. Ela me levou não apenas a repensar minha trajetória existencial e
expandir a minha maneira de ver a vida e reagir ao mundo, mas também me estimulou a iniciar
uma pesquisa sobre o funcionamento da mente, a natureza dos pensamentos e os processos de
construção da inteligência. O processo de interiorização foi uma tentativa desesperadora de
tentar me explicar e de superar minha miséria emocional.
Para muitos, a dor é um fator de destruição; para outros, ela destila sabedoria, é um fator de
crescimento. Ninguém que deseja conquistar maturidade em sua
inteligência, adquirir sabedoria intelectual e tornar-se um pensador e um poeta da existência
pode se furtar de usar suas dores, perdas e frustrações que, às vezes, são imprevisíveis e
inevitáveis, como alicerces de crescimento humano.
Procurei, apesar de todas as minhas limitações,
investigar, analisar e criticar empiricamente os fundamentos dos postulados biológicos da
depressão, a psicodinâmica da construção dos pensamentos de conteúdo negativo, os
processos da transformação da energia emocional depressiva etc. Esse caminho, no começo,
foi um salto no escuro da minha mente, um mergulho no caos intelectual, que
desmoronou os conceitos e paradigmas de vida. Esse mergulho interior me ajudou a
reorganizar o caos emocional, a dor da minha alma. Contudo, no início, me envolvi mais num
caldeirão de dúvidas do que de soluções. Porém, foi um bom começo.
O caos emocional da depressão, se bem trabalhado, não
é um fim em si mesmo, mas um precioso estágio em que se
expandem os horizontes da vida. Eu nunca havia percebido que, embora produzisse muitas
idéias, conhecia muito pouco o mundo das idéias, a construção dos pensamentos e o processo
de transformação da energia emocional.
Muitos psiquiatras não têm idéia da dramaticidade da dor da depressão e das dificuldades de
gerenciamento dos pensamentos negativos que a promovem. Entretanto, o eu pode administrá-
los e, conseqüentemente, resolvê-la.
Costumo dizer que se o eu der as costas para a depressão e para os mecanismos subjacentes
que a envolvem, ela se torna um monstro insuperável, mas se a enfrentarmos com crítica e
inteligência, ela se torna uma doença fácil de ser superada. No capítulo sobre o gerenciamento
do eu este assunto ficará claro.
Meu inverno emocional gerou uma bela primavera de
vida, pois estimulou-me a sair da superfície intelectual, da condição de ser um passante
existencial, de alguém que passa pela vida e não cria raízes dentro de si mesmo, para alguém
que conseguiu se encantar com o espetáculo da construção de pensamentos. Não há gigantes no
território da emoção. Todos
passamos por períodos dolorosos. Ninguém consegue
controlar todas as variáveis dentro e fora de si. Por isso, a vida humana é sinuosa, turbulenta e
bela. A sabedoria de um homem não está em não errar, chorar, se angustiar e se fragilizar, mas
em usar seu sofrimento como alicerce de sua maturidade.
PESQUISANDO COM CRITÉRIO PARA EXPANDIR O MUNDO
DAS IDÉIAS
Cada ser humano é um mundo complexo e sofisticado a
ser descoberto. Apesar da frustração que possamos ter com o declínio do humanismo, com a
epidemia psicossocial da síndrome da exteriorização existencial, com as multiformes práticas
discriminatórias e com a baixa capacidade de trabalhar dores, perdas e frustrações que
acometem muitos consócios das sociedades modernas, quando procuramos contemplar e
compreender o espetáculo da construção dos pensamentos, não podemos deixar de nos
encantar com a obra-prima da mente humana.
A medida que eu procurava investigar os processos de construção que ocorriam na minha
mente, comecei também,
pouco a pouco, a me transportar para investigar o universo social. Observar o homem,
procurar indagar sobre os fenômenos intrapsíquicos que produziam seus comportamentos me
fascinavam. A ousadia em querer investigar o funcionamento da
mente e a descoberta da arte da pergunta, da arte da dúvida e da arte da crítica me faziam tão
crítico, que, ainda nos tempos de faculdade, por diversas vezes, eu formulava de maneira
diferente o conhecimento de Psicologia, de
Psiquiatria e de Sociologia que me ensinavam. Esse procedimento não derivava da falta de
cultura dos meus professores; pelo contrário, eu os considerava cultos. O
problema era que a "tríade de arte da pesquisa" que eu usava para analisar o que me
ensinavam me impedia de ser um espectador passivo do conhecimento.
Durante
meu
curso
de
Medicina,
comecei