Cury   Inteligencia Multifocal
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Cury Inteligencia Multifocal


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silenciosamente minha trajetória de pesquisa e a apreciar o funcionamento da mente; por isso
no final desse curso eu havia escrito diversos cadernos sobre minhas observações e análises.
Nesse período eu já começava a ter algumas críticas contra a rigidez do sistema acadêmico.
Essas críticas aumentaram, ao longo dos anos, à medida
que fui produzindo conhecimento sobre a construção dos pensamentos, os limites e a lógica do
conhecimento, os limites das teorias, as relações entre a verdade científica e a verdade
essencial, o autoritarismo das idéias.
Comentarei, sucintamente, uma experiência que passei por me contrapor às regras do sistema
acadêmico e que, apesar de ter me angustiado, me estimulou a arte de pensar. Lembro-me de
que, há cerca de 16 anos, após ter-me formado em Medicina, procurei ingressar em uma
conceituada universidade para fazer pós-graduação. Ao me apresentar, peguei um texto que
havia escrito e o acrescentei em meu curriculum para mostrá-lo à banca examinadora formada
por ilustres professores doutores em Psiquiatria e Psicologia.
Eu acreditava que eles iriam ler algo da minha produção
de conhecimento e, ainda que a criticassem, esperava que, pelo menos, valorizassem minha
capacidade de pensar. Pensava até que os examinadores fariam algumas perguntas
sobre o conhecimento que havia produzido, apesar de estar consciente de que, na época, ele
carecia de profundidade. Porém, mesmo assim, acreditava que eles valorizariam e
incentivariam o ímpeto de pesquisar fenômenos tão
complexos, por isso estava animado com a possibilidade de discutir algumas das minhas
idéias. Porém, para minha frustração, os membros da banca examinadora pegaram aqueles
textos e, com uma postura intelectual autoritária, me perguntaram o que significava aquilo.
Respondi em poucas palavras que se referia a uma pesquisa que eu estava realizando.
Perguntaram-me quem era o orientador e qual era a teoria e a bibliografia usada. Respondi,
educadamente, que era uma pesquisa original; por isso não tinha nem orientador nem
bibliografia. Senti, pelo semblante dos examinadores, que os incomodei muito, que minhas
palavras soaram como um insulto à inteligência deles. Por isso se negaram a analisar minha
produção de conhecimento. Eles estavam tão enclausurados dentro dos muros da sua
universidade, que parecia uma heresia alguém produzir uma pesquisa
totalmente nova sobre o funcionamento da mente.
Eles usavam a ciência, mas desconheciam a história e a
lógica da ciência. Pareciam ser os senhores da verdade, embora provavelmente não
conhecessem a Filosofia da verdade, as complexas relações entre a verdade científica e a
verdade essencial, que serão expostas no capítulo seguinte. Percebi que, no momento em que
disse que minha pesquisa
era original, eles passaram a me ver como um rebelde ao sistema de pesquisa que conheciam.
Assim, exercendo o autoritarismo das idéias, pegaram meu texto e, com a maior indiferença,
me devolveram sem sequer manuseá-lo.
Seria mais digno e democrático se eles o lessem e, após
criticá-lo, me dissessem que eu era um sonhador, que aquelas idéias eram tolas. A dor da
crítica acusa a existência de alguém e abre caminhos para amadurecê-lo, enquanto a dor da
discriminação anula sua existência. As universidades estão pouco preparadas para financiar
pesquisas abertas que objetivem a produção de teorias amplas, por isso grande parte delas
foram produzidas fora dos seus muros. Tal é o exemplo da teoria psicanalítica de Freud e da
relatividade de Einstein.
Após devolverem meu texto, aqueles ilustres professores
me pediram que eu retornasse à minha faculdade de Medicina e procurasse meus professores
de Psicologia e Psiquiatria, para que produzisse pesquisa sob a orientação deles. Eles não
imaginavam que, embora respeitasse a cultura e a inteligência dos meus professores, estava-
me tornando íntimo da arte da dúvida e da crítica e, por isso, diversas vezes escrevia o
conteúdo das aulas de maneira diferente de como eles me ensinavam.
Não imaginavam que eu não conseguia conter meu
ímpeto independente de pesquisar. Catalogava cada
comportamento das pessoas ao meu redor e cada
pensamento que transitava pela minha mente e gastava tempo analisando-os. Meus bolsos
viviam cheios de
anotações sobre minhas observações e interpretações e eu já
havia perdido algumas noites de sono pelas inúmeras dúvidas que tinha sobre os fenômenos
que atuam na complexa construção das cadeias de pensamentos.
Hoje, passados tantos anos, os tempos mudaram.
Minhas idéias têm sido cada vez mais conhecidas,
respeitadas e utilizadas por pesquisadores e profissionais não apenas no Brasil, mas em
outros países. Tenho proferido diversas
conferências,
inclusive
em
congressos
internacionais. A teoria da inteligência multifocal não apenas tem sido aplicada na Psiquiatria
e na Psicologia, mas também na Educação. Todavia, se no começo de minhas pesquisas não
tivesse vivido uma intensa paixão pelo mundo das idéias, aqueles membros da banca
examinadora teriam destruído meu interesse pela investigação do funcionamento da mente. Ao
olhar para o passado, tenho a consciência de que os
"invernos" que passei no início das pesquisas produziram minhas raízes intelectuais mais
profundas. O fato de ter aprendido a ser fiel a minha consciência fez com que os obstáculos
temporários que enfrentei se transformassem em alguns dos principais pilares da minha
capacidade de pensar e de pesquisar. Como estudaremos, esses obstáculos me estimularam a
produzir não apenas uma teoria, mas
também, diferente da grande maioria dos cientistas teóricos, criteriosos procedimentos de
pesquisas na produção dessa teoria.
Fico imaginando quantos pensadores ilustres não
tiveram sua produção de conhecimento abortada pela
postura autoritária do sistema acadêmico se impondo como o centro da produção e da
validação do conhecimento e como o centro exclusivo da produção de intelectuais, de
cientistas, de pensadores, de teóricos.
Parece paradoxal, mas o sistema acadêmico não apenas
forma intelectuais, mas também sufoca pensadores, mesmo dentro da sua esfera. Muitos
cientistas que estão dentro das universidades sabem disso, pois de alguma forma sofrem
restrição na sua liberdade de pensar e de pesquisar.
A dor da depressão me estimulou a conhecer o mundo das idéias e a dor da rejeição me
incentivou a expandir esse mundo com consciência crítica.
Se eu não tivesse passado por tais dificuldades não teria, provavelmente, produzido uma nova
e ampla teoria sobre o processo de construção dos pensamentos com diversas implicações na
ciência.
Muitos pensadores foram discriminados, considerados
rebeldes e perturbadores da ordem ao longo da história. Sócrates foi condenado a beber a
cicuta, a morrer envenenado, pelo incômodo que suas idéias causavam na época. Porém, ele
considerou ser mais digno tomar a cicuta do que ser infiel às suas idéias e ter uma dívida
impagável com sua própria consciência. Giordano Bruno, filósofo italiano, errou por muitos
países, procurando uma
universidade para expor suas idéias, e por isso experimentou diversos tipos de perseguição e
sofrimento, culminando na sua morte. Baruch Spinoza, um dos pais da Filosofia moderna, foi
banido dramaticamente pelos membros de sua sinagoga por causa das suas idéias, que
chegaram, inclusive, a amaldiçoá-lo, dizendo: "Que ele sej,a maldito durante o dia, e maldito
durante a noite; que seja maldito deitado, e maldito ao se levantar; maldito ao sair, e maldito
ao entrar...". Immanuel Kant foi tratado como um cão pelo incômodo que
suas idéias causavam no clero da época. Voltaire, devido às suas idéias humanistas, passou
por perseguições na sua época. A lista de pensadores que foram discriminados ou sofreram
perseguições é enorme.
As
universidades,
com
as
devidas
exceções,
monopolizaram o conhecimento, se fecharam numa redoma, como o clero