Fundamentos de História do Direito
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Ciro Flamarion. Antigüidade oriental- política e religião. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997, p. 23. 
5500 a.C. no Egito).
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 Mas é no quarto milênio a.C. que a proximidade de datas fica mais 
evidente. Ambas as civilizações urbanizam-se e adotam a escrita em períodos muito 
próximos. Corno já dito, as primeiras inscrições em cuneiforme aparecem na Mesopotâmia 
em 3100 a.C.; os primeiros textos em hieróglifos surgem no Egito no período compreendido 
entre 3100 e 3000 a.C.
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 Quanto às cidades, elas já existem na Mesopotâmia no lapso de 
tempo situado entre 3100 e 2900 a.C.; no Egito, a urbanização dá-se de forma gradual, 
concomitante à unificação dos povos do Sul e Norte (Baixo e Alto Egito), o que resulta na 
formação das cidades entre 3100 e 2890 a.C.
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 Segundo as pesquisas mais recentes, não há 
uma relação de causalidade entre as duas evoluções aqui descritas; ainda que existam indícios 
de contato entre os povos da Mesopotâmia e do Egito, possivelmente em virtude da nave-
gação, hoje encontra-se superada a tese que atribui forte influência mesopotâmica na 
unificação do reino egípcio.
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 As fontes disponíveis indicam, ao contrário, a existência de 
processos autônomos.
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É hora de ressaltar as características gerais de constituição dessas civilizações, 
enfatizando semelhanças e diferenças. 
 
3.1 Geografia 
 
A proximidade das datas de consolidação das civilizações mesopotâmica e egípcia 
não pode, por óbvio, ser tratada como mera coincidência histórica. Na verdade, a 
conformação do espaço é um elemento vital para a compreensão da durabilidade e êxito 
dessas civilizações. 
 
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 ARAÚJO, Emanuel. Escrito para a eternidade - a literatura no Egito faraônico. Brasília/São Paulo: UnB e 
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2000, p. 15. 
14
 ROBINSON, Andrew. The story of writing - alphabets, hieroglyphs and pictograms. Op. cit., p. 16. 
15
 ARAÚJO, Emanuel. Escrito para a eternidade - a literatura no Egito faraônico.Op. cit.,p. 15. 
16
 CARDOSO, Ciro F1amarion. Sete olhares sobre a Antigüidade. 2. ed. Brasília: UnB, 1998, p. 72. 
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 A respeito das fontes históricas, duas observações tomam-se necessárias. É preciso ressaltar, em primeiro 
lugar, o papel cada vez mais importante que a arqueologia vem assumindo quanto ao esclarecimento de questões 
ligadas à história antiga. Historiadores de várias tendências e métodos concordam em relação a esse tema. De 
outra parte, cabe acentuar o aumento do grau de conhecimento moderno acerca dos textos antigos em virtude da 
decifração dos idiomas sumério, acádico e egípcio antigos (escritas cuneiformes e hieroglífica), fundamental 
para a elaboração de modelos históricos sobre o Oriente antigo. Ver, quanto ao primeiro aspecto, entre outros: 
SCHNAPP, Alain. A arqueologia. In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (Org.). História - Novas Abordagens. 
Trad. Henrique Mesquita. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, p. 1-20. FINLEY, M.I. História antiga-
testemunhos e modelos. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Martins Fontes, 1994, p. 11-35. HILBERT, 
Klaus. História antiga e arqueologia - uma pequena e confusa história de rótulos. In: BAKOS, Margaret M. e 
POZZER, Katia M.P. (Org.). III Jornada de Estudos do Oriente Antigo - línguas, eScritas e imaginários. Porto 
Alegre: Ed. PUCRS, 1998, p. 15-22. E, no que se refere à decifração de textos, cf.: ROBINSON, Andrew. The 
story ofwriting - alphabets, hieroglyphs and pictograms. Op. cit., p. 21-35 e 70-91 e ARAÚJO, Emanuel. Escrito 
para a eternidade - a literatura no Egito faraônico. Op. cit., p. 23. 
Isso porque as duas regiões, situadas no Oriente Próximo,
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 contavam com um 
elemento que lhes atribuía substancial vantagem em relação às demais localidades adjacentes: 
a proximidade de bacias hidrográficas. Ao contrário de povos que precisavam manter-se em 
território litorâneo, desértico ou montanhoso - corno os habitantes das regiões da Fenícia, 
Síria, Palestina ou Pérsia -, os mesopotâmicos e egípcios formaram suas civilizações em torno 
dos rios Tigre, Eufrates e Nilo. Tal circunstância permite, por óbvio, a existência de solo 
propício à agricultura, bem corno a navegação fluvial, essencial para o transporte de 
mercadorias e sofisticação do comércio. E todos esses fatores contribuem para um 
crescimento mais acelerado da população dessas sociedades, bem como um maior 
desenvolvimento político e econômico.
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Uma diferença, contudo, merece ser notada, em face da repercussão que refletir-
se-á nas crenças e mentalidades manifestadas pelos povo: aqui estudados. No que se refere ao 
antigo Egito, os períodos de cheia (recuo das águas do Nilo são previsíveis e estáveis; em se 
tratando de povos de credo politeísta, é comum a associação entre as divindades (fenômenos 
da natureza. Assim, a regularidade do ciclo das águas do Nilo trazia, aos habitantes do Egito 
antigo, urna sensação de continuidade, de evasão da passagem do tempo, que acabou por ser 
associada: um rito de imortalidade: o culto a Osíris.
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 Tal crença - na possibilidade de um 
ciclo natural de vida, morte e renas cimento - não poderia surgir nas cidades da Mesopotâmia, 
já que a cheia e recuo das águas do Tigre e do Eufrates possui um caráter pouco regular e 
 
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 A Mesopotâmia antiga corresponde, de modo geral, ao atual Iraque, com algumas regiões localizadas em 
partes das nações hoje designadas Turquia (antiga Ásia Menor), Irã e Arábia Saudita, enquanto o antigo Egito 
compreendia o Estado moderno egípcio e, em alguns períodos, boa parte do atual Sudão, antiga região da Núbia. 
Para maior detalhamento das variações de fronteira ao longo dos séculos, v. KINDER, Hermann; 
HILGEMANN, Werner. Atlas of World History. Update, edition. London: Penguin, 1995 e McEVEDY, Colin. 
Atlas da História Antiga. 2 ed. Trad. de Antônio G. Mattoso. São Paulo: Verbo, 1990. 
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 Nas palavras de Ciro Flamarion Cardoso: \u201cA partir de um longo investimento coletivo de trabalho, adaptando e 
modificando os dados naturais através da construção de diques, barragens, canais, reservatórios, formaram-se nos 
vales fluviais em questão, sociedades complexas e urbanizadas, baseadas na irrigação. A agricultura irrigada é 
muito produtiva, e por isso o Egito e a Mesopotâmia tinham populações muito mais densas do que as de regiões 
como a Ásia Menor, a Síria- Palestina e o Irã onde a irrigação, pelas condições naturais, só podia ter um papel 
muito limitado, onde a agricultura - quase sempre dependente da água de chuva, às vezes retidas em cisternas - era 
no conjunto menos produtiva. Este contraste ajuda a entender certa diferenças importantes na organização política e 
econômica\u201d. CARDOSO, Ciro Flamarion. Antigüidade oriental- política e religião. Op. cit., p. 16. 
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 Eis a narrativa de Gerald Whitrow: \u201cNo Egito, onde tudo dependia do Nilo, coroação de um novo faraó era 
muitas vezes adiada até que um novo início de ciclo da natureza fornecesse um ponto de partida propício a seu 
reinado. A cerimônia era marcada de modo a coincidir ou com a cheia do rio, no início do verão, ou com a baixa 
das águas, no outono, quando os campos, fertilizados estavam prontos para a semeadura. O ritual real era 
estreitamente associado história de Osíris, o protótipo divino que os faraós tomavam por modelo, repetindo seus 
feitos tradicionais. Osíris representava as águas doadoras de vida e o sol, fertilizado pelo Nilo. Depois que o Nilo 
recuava, a terra conseqüentemente parecia morta, mas quando as águas retomavam, revivia. O mito de Osíris, que 
corporificava esse ciclo de nascimento, morte e renascimento, encerrava uma promessa de imortalidade (...) De 
início esse caminho para a